Garry Marshall (1934-2016)

Garry Marshall, cineasta por detrás de comédias como Pretty Woman – Um Sonho de MulherO Diário da Princesa, morreu ontem, dia 19 de julho, aos 81 anos.

Nos últimos anos, os filmes de Garry Marshall não têm sido particularmente brilhantes, sendo que a sua pequena coleção de filmes com grandes elencos em volta de uma celebração como o Dia da Mãe, o Dia de S. Valentim ou o Ano Novo, têm inspirado tanta fúria crítica como desinteresse do público. Não obstante essa situação atual, Marshall tem um legado que se estende muito além dessas comédias de menor sucesso. E é exatamente esse legado que merece ser recordado e celebrado aquando da infeliz ocasião da sua morte, aos 81 anos.

 

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Mork & Mindy

 

Afinal, durante alguns anos, tanto no mundo do cinema como da televisão, Marshall foi um verdadeiro titã do entretenimento e da comédia. Na televisão, ele começou por escrever para programas como o The Dick Van Dyke Show no anos 60, e mais tarde foi o criador de alguns programas de seminal sucesso, já nas décadas de 70 e 80.  Nos EUA, The Odd Couple, Happy Days, Laverne & Shirley e Mork & Mindy foram adorados fenómenos televisivos e este último título foi a grande introdução de Robin Williams às massas.

 

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Julia Roberts e Gary Marshall durante as filmagens de Pretty Woman

 

Mas, como já mencionámos, não foi só na televisão que Marshall se demonstrou um verdadeiro génio na criação de novas estrelas. Afinal, este foi o homem que realizou Pretty Woman ou Um Sonho de Mulher. Nesse icónico romance de 1990, uma prostituta é a protagonista de um enredo à la Cinderela e encontra o seu príncipe encantado na forma de um executivo interpretado por Richard Gere. Foi o papel de Vivian que realmente catapultou Julia Roberts para o super estrelato e com este filme ela arrecadou uma segunda nomeação ao Óscar. Marshall viria cimentar ainda mais a celebridade de Roberts com Noiva em Fuga.

 

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O Diário da Princesa

 

Mas Roberts e Williams não foram os únicos atores que devem grande parte da sua fama a um projeto de Marshall. Anne Hathaway, que venceu um Óscar há três anos, era apenas uma atriz de televisão sem grande notoriedade quando o cineasta a escolheu para o papel principal em O Diário da Princesa, e o resto, como se diz coloquialmente, é história.

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É evidente que uma pessoa pode olhar para estes títulos e apontar como nenhum desses filmes é de particular valor cinematográfico. Há muitos defensores de Um Sonho de Mulher, mas a acusação parece ser muito válida. Afinal, estes são filmes cómicos sem muita coisa na sua cabeça e que se rendem ao fácil romance. No entanto, há também que ver as suas qualidades, nomeadamente a delicadeza e o virtuosismo de Marshall na direção dos seus atores e a gentil ênfase que ele sempre deu às emoções das suas personagens.

 

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Frankie & Johnny

 

Num mundo cheio de cinismo e ironia, Marshall e a sua sinceridade à moda antiga poderão parecer démodé ou absurdos, mas há algo de poderosamente humano e caloroso no seu cinema. Basta olharmos para dois dos seus melhores filmes, Frankie & Johnny e Amigas Para Sempre para comprovarmos isso mesmo. Em ambos os casos, Marshall colaborou com um duo de formidáveis atores, Michelle Pfeiffer e Al Pacino e Bette Midler e Barbara Hershey, e em ambos os casos, o cineasta retratou uma belíssima relação pessoal mostrada com tanto humor como honestidade sentimental. Esses podem ser dos seus filmes mais modestos e “pequenos”, mas também são dos seus mais belos e merecem ser recordados como parte do legado deste rei da comédia em Hollywood.

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Para além de toda esta glória enquanto criador televisivo, realizador e argumentista, Marshall foi ainda um produtor e ator. Esse último aspeto da sua carreira deu origem a pequenos e hilariante aparições numa grande variedade de filmes incluindo algumas das suas próprias comédias e alguns dos mais recentes sucessos televisivos como Louie de Louis C.K., Brooklyn Nine-Nine e BoJack Horseman.

 

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A carreira de Garry Marshall teve sucessos delirantes, infelizes fracassos e deixa um legado inestimável. Viva o antigo rei da comédia romântica!


 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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