DocLisboa ’16 | Ta’ang, em análise

Mais uma vez o cineasta chinês Wang Bing volta ao DocLisboa com um dos seus épicos de observação prolongada, naturalista e cheia de urgência humanista, Ta’ang.

ta'ang doclisboa wang bing

Ta’ang é o título do mais recente filme do mestre documentarista chinês Wang Bing, mas é também a denominação de uma minoria étnica birmanesa que, nos tempos que correm e que o filme retrata, está envolvida numa complicada guerra interna, sendo que muitas famílias são forçadas a fugir de Mianmar para a China, na esperança de escaparem ao fogo da batalha e sua destruição. Nesta obra, estreada originalmente na Berlinale, observamos muitas destas pessoas a uma distância mínima e sem qualquer pretensiosismo “fly on the wall”. Numa cena, Bing chega mesmo a mostrar a sua sombra como operador de câmara. Não estamos aqui para ter ilusões de realismo e narrativa, mas sim para observar uma outra realidade.

Essa atitude de registo e observação crua tem marcado toda a obra deste cineasta desde que ele se estreou no panorama internacional no início da década passada. Ao contrário de algumas das suas obras mais famosas, a duração de Ta’ang não chega, porém, aos píncaros tortuosos de cinco, seis, sete ou oito horas de duração, mas isso não implica que o seu retrato de uma população em crise seja menos acutilante ou detalhado que o de passadas obras.

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Na verdade, todo o estilo autoral de Bing marca presença em Ta’ang e, mais uma vez, o cineasta chinês mostra ao mundo o valor de uma abordagem naturalista ao tempo. Ele deixa que os momentos individuais se estendam indefinidamente, acompanhando os ritmos naturais da vida sem os dramatizar através de artifícios formais ou mecânicos. É certo que esta abordagem exige uma grande paciência por parte da audiência, mas basta olharmos para as primeiras cenas de Ta’ang, onde Bing filma um dia na vida de um acampamento improvisado, para compreendermos o valor desta observação simples e direta. Assim se cria empatia profunda entre espetador e sujeitos, e assim se imerge a audiência na realidade presente da ação filmada.

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Um dos pequenos milagres na oeuvre de Wang Bing é precisamente o dinamismo que o cineasta estabelece com a audiência, fazendo com que as suas observações do quotidiano sejam raramente aborrecidas. Como já dissemos, é necessário que a audiência esteja aberta ao tipo de abordagem crua do cineasta, mas Bing é um mestre na criação de sequências onde há sempre algo a acontecer que pode captar a atenção de um espetador estimulado e preocupado. Também o seu passado fotográfico volta a marcar a sua presença em Ta’ang, onde o tipo de filmagem pouco sofisticada não impede que Bing capture imagens de assombroso poder e belíssima composição. Por muito que o seu cinema se aproxime da reportagem jornalística, Bing percebe o potencial que um frame impactante pode ter e enche o seu filme de tableaux cuidadosamente enquadrados e inseridos no edifício final da montagem.

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O melhor exemplo desta conflagração de preocupações humanas e estéticas é uma sequência de serenas conversas à fogueira ou à luz de velas. Depois de passar dias a acompanhar a vida de uma série de diferentes grupos, o filme dedica-se a retratar a paz noturna do repouso, criando uma tapeçaria de calma e melancolia formada por imagens que relembram as grandes pinturas barrocas e seus cortantes jogos de chiaroscuro. Há algo de maravilhoso nestes momentos, tão visualmente requintados como emocionalmente crus, onde os vários sujeitos do filme conversam entre si e refletem sobre a sua situação, mesmo que as suas vozes transmitam a monumental exaustão que se abate sobre eles.

Para além dessa maravilhosa, e comprida, sequência de conversas à luz das chamas, o filme conta ainda com outra prolongada passagem que merece ser colocada no cânone do melhor cinema documental contemporâneo. Durante uma das apressadas deslocações dos refugiados, quando os sons da batalha já os alcançam por entre o eco das montanhas, instala-se o caos mesclado de cansaço, e a própria câmara de Bing parece estar perdida. Em certos momentos, as explosões longínquas fazem com o que Bing se sobressalte e trema a imagem, telegrafando a urgência de todo este trabalho documental. O filme acaba com algumas destas mulheres e crianças a montarem um precário abrigo para passarem mais uma noite em fuga da violência da guerra, mas sabemos bem que o final do filme, não é o final destas histórias ou deste tormento, mas apenas o limite da tela de Wang Bing. Em resumo, Ta’ang é, como todos os filmes deste cineasta, uma importante obra de cinema verité urgente e de uma potência humanista que comove, maravilha e amedronta.

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O MELHOR: O modo como o filme não explica nada à audiência depois de um texto de abertura. Tal como as crianças e bebés que enchem estes acampamentos de refugiados com os seus inocentes risos e gritos, a audiência de Ta’ang é colocada numa posição de deslumbramento e desorientação perante a complicada experiência humana que está a presenciar. Apenas gradualmente é possível ir montando o puzzle desta situação caótica e começar a perceber melhor os detalhes sociopolíticos e humanos do êxodo, o que serve quase de recompensa a uma audiência atenta e dedicada.

O PIOR: Apesar de ser bem filmada, a primeira metade do filme é muito menos impactante e transcendente que a sua segunda. Isto não é bem uma fragilidade, mas, para um filme de duas horas e meia, seria de esperar que o cineasta tentasse rapidamente seduzir a atenção da sua audiência, ao invés de guardar o seu mais esplendoroso material para o fim, o que cria um leve desequilíbrio estrutural na obra.


 

Título Original: Ta’ang
Realizador:  Wang Bing

DocLisboa | Documentário | 2016 | 148 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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