Tangerine, em análise

Em Tangerine, um par de amigas prostitutas passa a Véspera de Natal a cavalgar por entre as ruas de Los Angeles num caótico enredo cheio de inebriante energia e pulsante humanidade.

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Quando se fala de um filme como Tangerine é difícil não cair num discurso de políticas e representação inclusiva. Isto tem usualmente a triste consequência de roubar valor a um filme que, apesar de ser agressivamente inclusivo, é uma obra de cinema que cospe na face das convenções estéticas e narrativas e que se oferece como uma das mais singulares comédias do recente cinema independente, para além da apresentação de mulheres transgéneras no centro da sua história. Aliás, longe de ser um filme feito para ser proclamado como uma obra inspiradora e conscientemente importante para a comunidade LGBT, como a série Transparent ou o inerte A Rapariga Dinamarquesa, Tangerine praticamente exige ser considerado fora de tais conversas e regozija abertamente a sua recusa do politicamente correto.

Tangerine começa com uma imediata ignição de energia. Em plena véspera de Natal, encontramos as amigas Alexandra (Mya Taylor) e Sin-Dee Rella (Kitana Kiki Rodriguez) numa loja de donuts no meio das solarengas planícies de alcatrão e cimento de Los Angeles. Elas são ambas prostitutas transgéneras, mas o filme não parece particularmente preocupado em usar esse facto como um barato instrumento de choque, muito mais importante é a dinâmica entre as duas amigas. Sin-Dee acabou de sair da prisão e, a meio desta conversa introdutória, descobre que o seu namorado a andou a trair com uma outra prostituta. Enraivecida ela parte numa missão de encontrar e trucidar esta sua rival, enquanto Alexandra a tenta acalmar sem grande sucesso.

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O filme revolve principalmente em torno destas duas figuras, eventualmente separadas em duas linhas narrativas, mas também inclui um terceiro elemento, Razmik, um taxista arménio que está apaixonado por Sin-Dee apesar de ter uma família que nada sabe sobre os seus desejos menos heteronormativos. Ao longo de Tangerine, vamos entrecortando estas três histórias até que tudo converge numa ensandecida sequência, de novo situada na loja de donuts do início.

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Uma breve descrição parece logo revelar o grande problema de Tangerine que é a sua desmesurada ambição e tentativa de rechear a sua curta duração com uma montanha de coloridas personagens e histórias insólitas. Tal fragilidade é tanto um detrimento do filme como é uma curiosa bênção, afinal quantos filmes se podem acusar de serem demasiado ambiciosos? Especialmente quando estamos a falar de comédias independentes americanas? Mesmo assim, há que admitir que todo o edifício do filme tende a perder gás quando se ausenta das duas heroínas, ambas maravilhosamente interpretadas por atrizes sem grande experiência profissional.

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Kitana Kiki Rodriguez traz uma energia infeciosa ao seu retrato de Sin-Dee, construindo um verdadeiro furacão humano. Ela usa a completa hipérbole emocional como veículo para mostrar tanta histeria furiosa como pontadas de curiosa vulnerabilidade perto do final de Tangerine. No entanto, toda a pirotecnia de Rodriguez pode ser excitante de ver como simples espetáculo, mas é Mya Taylor quem realmente carrega o filme como a figura mais introspetiva e contemplativa deste duo. Nas suas mãos, Alexandra é uma tempestade de resignação, desapontamentos, energia cómica e sonhos desesperados, coberta por uma fachada de impetuosidade e estabilidade emocional, sendo que, de todo o elenco, Taylor é quem mais eficazmente domina os caóticos solavancos tonais que a narrativa vai produzindo.

O restante elenco não é menos extraordinário que as duas protagonistas, mas o filme dá-lhes menos oportunidades para brilhar. Como o namorado proxeneta de Sin-Dee e sua amante biologicamente feminina, James Ransome e Mickey O’Hagan são de particular destaque, trazendo diferentes temperamentos cómicos a um filme a rebentar pelas costuras em dramaturgia gritada. Aliás, é realmente na sequência noturna que reúne todo o elenco de coloridas personalidades que Tangerine atinge os seus maiores píncaros cómicos, capturando a loucura humorística do caos narrativo com uma jovialidade que lembra os enredos rebuscados e eletrizantes das screwball comedies dos anos 30 e 40.

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Tangerine e seu argumento podem ir buscar inspiração a esses filmes do passado, mas há que reconhecer que existe pouco de convencional neste filme, e isto não é apenas um comentário sobre sua representação de vidas de pessoas transgéneras. A um nível puramente formalista, a mise-en-scène do realizador Sean Baker é uma vibrante explosão de arriscadas escolhas estilísticas executadas com uma surpreendente segurança quando se considera quão caótica toda a história parece. Já foi muito publicitado que o filme foi completamente filmado com câmaras de telemóveis o que acrescenta uma rudez a esta história urbana completamente apropriada ao seu espírito ousado e singularmente ligado à tradição do cinema independente contemporâneo. Mas, os riscos e estilizações não ficam por aí. Todo o trabalho de câmara é uma ensandecida tempestade de movimentos controladamente indisciplinados, a música clássica ruge na banda-sonora como uma fúria desconcertante, as cores de Los Angeles vibram de modo quase violento e a montagem é uma maravilha de energia ritmada.

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Apesar de tudo isto, é nos seus momentos finais, seus instantes mais calmos e comoventes que Tangerine se torna numa obra essencial de cinema. Ao observarmos Sin-Dee e Alexandra num momento de silêncio reconfortante no meio de uma lavandaria, vemos como, no seu âmago, este não é um simples exercício de comédia descarada e choque barato, mas sim um sagaz estudo de personagem. As duas amigas gritam imenso e são incrivelmente hiperbólicas nas suas reações, mas isso não é prova de simplificação ou facilitismos da parte dos cineastas. Pelo contrário, é uma marca de como o filme as encara de modo invulgarmente aberto e honesto, deixando espaço para tanta sinceridade como para histérica comédia. Este pode não ser um exemplo de cinema ativista, mas, ocasionalmente, mais revolucionário ainda que o discurso abertamente político, a empática representação de realidades humanas pouco representadas consegue ser muito mais forte e impressionante.

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O MELHOR: O modo como o filme representa uma série de personagens e vidas que raramente têm oportunidade de ser vistas mesmo nos mais avant-garde recantos do cinema contemporâneo. E consegue tudo isso, sem chamar a atenção para a sua inclusão ou seu invulgar humanismo.

O PIOR: O caos conjurado pelo argumento é tão maravilhoso como problemático, resultando em muitos momentos supérfluos como vários interlúdios passados ao lado Razmik no seu táxi e na companhia de alguns dos seus clientes.


 

Título Original: Tangerine
Realizador:  Sean Baker
Elenco: Kitana Kiki Rodriguez, Mya Taylor, Karren Karagulian, Mickey O’Hagan, James Ransone
Films4You | Comédia, Drama | 2015 | 88 min

TANGERINE

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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