"The Beatles: Get Back" | © Disney+

The Beatles: Get Back, em análise

O novo projeto de Peter Jackson é um documentário épico, “The Beatles: Get Back”, que está agora disponível no Disney+. É visionamento essencial para todos os fãs dos Fab Four. De facto, é essencial para todos os fãs de cinema, TV, documentários e música também.

Em janeiro de 1969, os Beatles reuniram-se para gravar aquele que seria o seu 12º e último álbum, “Let It Be”. Os ensaios ocorreram nos Twickenham Film Studios, sendo filmados por uma equipa profissional com intenções de se lançar um documentário em simultâneo com o disco. Em certa medida, era uma tentativa de retornar o grupo a uma sonoridade rock and roll que se havia esbatido com incursões experimentais a meio da década de 60. Um regresso às sensibilidades que os haviam lançado e uma tentativa desesperada de reunificar o grupo numa altura em que a sua dissolução parecia inevitável. Ambos os projetos estrearam em 1970 e marcaram o fim de uma era para a banda e para a História da Música.

Contudo, o filme assinado por Michael Lindsay-Hogg promove uma imagem muito polida do processo, envernizando os lavores dos artistas numa pátina de idealização comercial. Não obstante essa edição, os cineastas conseguiram gravar muito do caos interno dos Beatles, muitas revelias, intimidades e os detalhes preciosos de artistas criando a sua arte. Ao todo, recolheram-se 60 horas de imagem e 150 de áudio, uma montanha de documentação que faz salivar qualquer fã do grupo. Foi essa a matéria-prima com que Peter Jackson se deparou no início da sua aventura com os Beatles. Depois de desenvolver várias técnicas de restauração digital em “They Shall Not Grow Old”, o realizador da saga “O Senhor dos Anéis” decidiu aplicá-las a um tema menos sangrento que a 1ª Guerra Mundial, mas não por isso menos acrimonioso.

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Rapidamente, o projeto ganhou proporções tão épicas quanto a discografia dos Beatles. Demorou quatro anos a ser completo, acabando por sintetizar as gravações em três episódios que, ao todo, duram quase oito horas, chegando ao seu clímax com o célebre concerto no telhado, aqui exibido na sua íntegra. Não é somente um documentário sobre as gravações de um álbum, mas também um documentário sobre outro documentário. Além dessa ambição concetual, houve também discórdia entre Jackson e a Disney. Os cineastas tiveram de persuadir os mandatares para incluírem calão e profanidades. Orientando-se pelo valor do realismo, Jackson e companhia queriam mostrar os Beatles como eram, repudiando o mito e a docilidade pós-morte.

Antes de nos aventurarmos pelo conteúdo, convém encarar “The Beatles: Get Back” enquanto um objeto de arte audiovisual. Numa vertente estética, a minissérie é um pesadelo de restauração plástica que perpetua os mesmos erros que Jackson já havia cometido no seu outro documentário. Procurando estilhaçar a barreira invisível que nos separa das filmagens de arquivo, o realizador tenta dar ar contemporâneo aos registos do passado, convertendo a textura granular do celuloide na suavidade das câmaras digitais. O problema é que a película de 16mm nem sempre se adequa a tais transfigurações. Em certos momentos, o cabelo em particular, parece moldado de plasticina molhada, sem definição ou ruído.

É como uma escultura polida até ao ponto que os detalhes somem e ficamos com um calhau marmóreo sem personalidade alguma. Felizmente, os erros imagéticos não se traduzem num semelhante fracasso sónico. Sendo este um documentário sobre alguns dos maiores artistas musicais do século XX, esse aspeto é o mais importante e Jackson faz-lhe justiça. Remasterizando o áudio antigo, o cineasta concede nova vida aos esboços composicionais de canções icónicas. Além disso, existe uma componente quase voyeurística que nasce da claridade com que os restauradores conseguiram desenterrar conversas sussurradas da cornucópia de ruídos naquele estúdio londrino. Sentimo-nos no meio das estrelas, imersos no seu quotidiano, meio intrusos meio compinchas e confidentes.

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Transcendendo o seu inconsistente formalismo, “The Beatles: Get Back” deixa-nos perscrutar um lado da banda que dificilmente já foi assim exposta com tanta claridade. Parte disso depende da extensiva observação de banalidades, quanto Jackson se interessa pela interseção entre o pessoal e o artístico. Logo no início dos 21 dias de ensaios, gravações e performance, o realizador deixa-nos entender quanto os Beatles estavam no fim da união. George Harrison é uma bola de ira e ressentimentos, revolvendo-se em lamúrias sobre o modo como os colegas o subestimam. Uma manhã, chegado ao estúdio, apresenta uma canção que escreveu na noite e todos, com uma exceção, lhe menosprezam o feito.

Além disso, dá para ver quanto a espiritualidade lhe consome a atenção, mesmo pelo modo como ele traz um amigo monge que passa os primeiros dias em Twickenham rezando a um canto. A exceção na subvalorização sistemático de George é Ringo Starr, aquele que, de longe, se assume como o elemento mais são do grupo. Mesmo assim, a sua cabeça também está noutro lado. Nesses primeiros meses de 1969, Ringo estava a aventurar-se no caminho do estrelato cinematográfico a solo. Pelo menos, essa era a sua esperança. No caso de John Lennon, o matrimónio com Yoko Ono coincidiu com um crescente desapego com as ambições de estrelato musical.

Jackson vai contra a narrativa misógina do costume, mostrando Ono como uma presença pacífica e inofensiva. No máximo dos máximos, ela afigura-se enquanto catalisadora de escolhas que Lennon tomaria com ou sem ela. Durante os primeiros dias do projeto, é notório quanto ele está ausente, ora por atraso ou inexplicável desaparecimento. No meio disto tudo, Paul McCartney emerge como uma figura de simultâneo apaziguação e discórdia. Há uma faceta viciada no trabalho, mas também a mestria de um génio musical capaz de conceber melodias imortais em minutos. Vê-lo trabalhar é um dos grandes prazeres desta minissérie, especialmente quando nos apercebemos da banalidade da cena.

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Quando a melodia para “Get Back”, John está ausente, George boceja e Ringo parece estar a dormir de olhos abertos. No nascimento de “Let It Be”, Yoko e Linda Eastman conversam em sussurros joviais. Nesses instantes, entendemos o trabalho do artista com uma visceralidade imensa, quanto a criação se torna parte do dia-a-dia e o milagre torna-se corriqueiro. Isso só faz com que a desarmonia doa mais, como quando George se vai embora e ameaça desistir dos Beatles, ou quando Paul não consegue resolver um verso teimoso. Tudo isto é um esforço hercúleo que resulta num álbum sublime, num concerto inesquecível que Jackson apresenta numa série de split-screens como se de um evento histórico se tratasse. No fim, tudo vale a pena, mas é importante entendermos quanto as estrelas não são ideais desumanizados. Jackson concede a humanidade às lendas musicais e dá um presente de Natal antecipado para todos aqueles que já um dia se apaixonaram por uma das canções dos Beatles.

The Beatles: Get Back, em análise
the beatles get back critica

Movie title: The Beatles: Get Back

Date published: 1 de December de 2021

Director(s): Peter Jackson

Genre: Documentário, Música, 2021, 468 min

  • Cláudio Alves - 85
85

CONCLUSÃO:

Amas os Beatles? Tens que ver “Get Back”. Amas música? Tens que ver “Get Back”. Amas e admiras o mistério do génio artístico? Tens que ver “Get Back”. Aprecias a intimidade iluminante do género documental? Vai já ver “Get Back”! Apesar de algumas fragilidades na plasticidade visual, Peter Jackson concebeu aqui uma minissérie tão épica como deslumbrante. Há que ter muita paciência, tanto com a duração como com a meninice mesquinha dos Beatles, mas, no fim, vale a pena.

O MELHOR: O concerto final é um orgasmo audiovisual, uma explosão prazerosa que assombra e retroativamente justifica a observação minuciosa que a precedeu.

O PIOR: Oito horas é muita hora e entendemos que a grande maioria dos espetadores não estará disposta a investir tanto tempo numa minissérie. Especialmente quando o projeto é principalmente caracterizado pela inação e a banalidade de vidas artísticas em conflito. Além disso, a imagem plastificada desaponta.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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