The Nun – A Freira Maldita, em análise

Taissa Farmiga e Demián Bichir tentam sobreviver à fúria de demónios infernais em “The Nun – A Freira Maldita”, o mais recente capítulo da saga “The Conjuring”.

Desde a sua génese que o franchise baseado no universo de “The Conjuring” tem sido caracterizado por uma endiabrada mistura entre imagética do terror clássico, a quem certas pessoas chamam clichés, com modelos e mecanismos do horror moderno, mais outros tantos clichés. Como tal, estas são histórias recheadas de casas delapidadas, estéticas góticas e vitorianas levadas à loucura, brinquedos arrepiantes e doses industriais de iconografia católica, que usam as técnicas como o jump scare e muitos efeitos gerados por computador. Trata-se do precário matrimónio polígamo entre o horror à la Hammer Films dos anos 50 e 60, os pesadelos do slasher dos anos 80 e a tecnologia dos nossos dias.

Para bem e mal, “The Nun – A Freira Maldita”, longe de reinventar a receita destes filmes, reforça-a com jovial desembaraço. Para se constatar a presença do primeiro ingrediente, basta olharmos para o local onde a trama decorre. Algures na Roménia, em 1952, existe um convento formado a partir de um castelo antigo. À sua volta, encontra-se um cemitério que rodeia o edifício com uma floresta de cruzes decrépitas. A atmosfera é sempre escura e pesada, com velas que nada iluminam a dar estilo e uma constante camada de nevoeiro a cobrir o chão.  Além de tudo isso, o esqueleto arquitetónico foi parcialmente dilacerado pela guerra, havendo buracos espalhados pelo seu telhado e torreões. Enfim, este é o tipo de inferno terreno que só existe mesmo no mundo dos filmes de terror.

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Um filme de imagens clássicas e mecanismos modernos.

A este miasma de classicismo horrorífico, tão exagerado na sua natureza grotesca que quase dá vontade de rir ou de bater palmas pela audácia dos cineastas, chegam dois forasteiros em busca de respostas. Eles são o Padre Burke e a Irmã Irene, um especialista em eventos sobrenaturais e uma noviça com um historial de visões místicas que o Vaticano envia para o convento romeno com o intuito de investigarem a morte de uma freira que se terá enforcado. Através de um imigrante franco-canadiano que leva regularmente sustento ao convento, mesmo que nunca tenha visto uma das suas habitantes até à descoberta do corpo enforcado, os dois enviados do Vaticano ficam a par da reputação maligna do castelo.

Como não podia deixar de ser, num filme deste género e particular estilo, o Padre Burke e a Irmã Irene são obrigados a pernoitar no convento e, durante a sua malfadada estadia, deparam-se com os horrores que tanto amedrontam a população local. O Padre Burke, por exemplo, é atacado pela aparição de David, um menino que morreu depois de um exorcismo falhado que o padre levou a cabo durante os anos da guerra. Irene, por seu lado, é confrontada com a presença demoníaca de uma freira de tez cadavérica, olhos brilhantes e mandíbulas cheias de dentes afiados. Como fãs do franchise já saberão, este monstro é Valak, um demónio do Inferno cujo reino de terror não se circunscreve a esta narrativa.

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Basicamente, esta é a premissa de “The Nun – A Freira Maldita”. Dois enviados da igreja chegam a um convento assustador e são confrontados com os demónios do inferno e do seu passado, sendo forçados a lutar pela sobrevivência e pela derrota dos seres que não pertencem a este mundo. Qualquer insinuação de um estudo de personagem ou reflexão sobre a fé, que é um dos temas habituais do franchise, nunca se desenvolve e cabe somente aos atores darem alguma credibilidade psicológica aos fantoches humanos que o realizador Corin Hardy manipula para nos dirigir a mais um espetáculo de medo. Certamente não é no diálogo que o filme encontra qualquer tipo de verismo humano, sendo este um pequeno tesouro de falas hilariantemente más.

Com história formulaica e imagens clássicas já na panela, temos de acrescentar o próximo ingrediente da receita dos filmes “The Conjuring”. Referimo-nos aos mecanismos cinematográficos pelos quais o realizador e sua equipa criam os sustos que o espectador tanto procura num filme assim. Infelizmente, para o dito espectador, “The Nun – A Freira Maldita” é somente superado pelo incompetente “Annabelle” na sua falta de qualquer tipo de susto funcional. O problema aqui deriva de uma dependência demasiado grande de mecanismos repetidos ad nauseum, resultando em momentos de choque que não têm qualquer poder pois o filme telegrafou em demasia a sua chegada. Nos piores momentos, “The Nun” tem mais facilidade em despertar uns quantos risos nervosos que genuíno medo.

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Maravilhosamente irracional.

A mise-en-scène de Hardy merece muita da culpa, assim como os desinspirados esquemas de montagem assinados por Michel Aller e Ken Blackwell. A certa altura, quase podemos orientarmo-nos pela música e espaço negativo no fotograma para prever, à décima de segundo, quando é que alguma atrocidade vai saltar das sombras. A banda-sonora não ajuda, como se pode ver, mas, pelo menos, Abel Korzeniowski exacerba de tal modo o dramatismo das suas composições que acaba por se elevar acima das fórmulas que regem seu trabalho. Juntamente com os cenários a transbordar de perfídia, a sonoridade expressiva é a melhor razão para se ir ao cinema ver este filme

Por fim, chegamos ao último ingrediente da receita para o horror do franchise “The Conjuring”. Como os seus antecessores, “The Nun – A Freira Maldita” usa e abusa dos efeitos gerados por computador, traindo a regra de ouro do cinema de terror em que tudo é mais assustador quando não o vemos claramente. As aparições de Valak nas suas formas mais exuberantes são surpreendentemente drenadas de terror, pois não há mistério na sua aparência e, como sempre, o orçamento dos efeitos especiais parece ser muito inferior àquele exigido pelas ambições dos cineastas.

Para benefício do filme e seus espectadores, “The Nun – A Freira Maldita” representa o primeiro filho cinematográfico de “The Conjuring” a ter algum sentido de humor. Tal flexibilidade tonal dá autorização ao espectador para encarar este exercício com pouca ou nenhuma seriedade.  Este é o tipo de filme que se vê melhor com o cérebro em modo de descanso, quando apenas se quer entretenimento de fácil consumo, uma história previsível e imagens que já nos são familiares. Para quem encare o filme nestas condições e assim participe no seu jogo, “The Nun – A Freira Maldita” pode ser gratificante e divertido. Quem exige mais do filme está condenado ao desapontamento.

The Nun - A Freira Maldita, em análise
The Nun: A Freira Maldita

Movie title: The Nun

Date published: 2018-09-13

Director(s): Corin Hardy

Actor(s): Taissa Farmiga, Demián Bichir, Jonas Bloquet, Bonnie Aarons, Ingrid Bisu, Charlotte Hope, Sandra Teles, August Maturo, Jack Falk, Lynnette Gaza

Genre: Terror, Mistério , Thriller, 2018, 96 min

  • Cláudio Alves - 60
  • Luís Telles do Amaral - 65
  • Maria João Sá - 55
60

CONCLUSÃO

“The Nun – A Freira Maldita” é uma adequada perpetuação do estilo e fórmulas básicas do franchise “The Conjuring”. Um cenário improvável e uma banda-sonora hiperbólica contribuem para uma experiência que tem o aspeto de um clássico e o sabor de uma sobremesa recente e sem grande valor nutritivo. Infelizmente, sustos eficazes são algo em muita falta nesta receita.

O MELHOR: Os cenários. Até um celeiro que só aparece no fundo de uma inócua cena de diálogo é uma maravilha de linhas tortas, degradação exagerada e geral aura de decadência demoníaca.

O PIOR: O medo é algo muito subjetivo, mas, de um ponto de vista puramente mecânico, este projeto é um fracasso enquanto máquina geradora de sustos.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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