Do Jeito Que Elas Querem, em análise

Jane Fonda, Diane Keaton, Mary Steenburgen e Candice Bergen estão de volta ao grande ecrã com a deliciosa e muito leve comédia romântica “Do Jeito Que Elas Querem”.

A era doirada dos estúdios de Hollywood foi também a era doirada das estrelas de cinema. Nessa época, os estúdios não eram só fábricas de sonhos em celulóide, mas também artesãos de estrelas. Atores talentosos dos palcos ou desconhecidos insuspeitos portadores de grande beleza ou um inefável magnetismo em frente às câmaras eram sistematicamente transformados em celebridades pela máquina publicitária, enquanto projetos inteiros eram concebidos para capitalizar nos seus específicos atributos e talentos. Estes eram filmes feitos à medida dos seus atores principais, obras muitas vezes desprovidas de grande ambição artística que deliciavam espectadores graças ao produto que estavam a oferecer.

Esse produto era tempo passado a enaltecer e admirar a estrela no seu centro, cuja mera aparição no ecrã tinha o seu quê de prazeroso. A demanda para este tipo específico de produto veio a mutar-se com a passagem do tempo e queda em desgraça desse sistema de estúdios de outrora. Hoje em dia existem estrelas de cinema, mas o modo como os cineastas capitalizam nesse estrelato há muito mudou de modo invariável. Por muito que Jennifer Lawrence seja popular, nenhum estúdio vai gastar milhões num filme cuja única razão de existir seja vê-la a desfilar em roupas elegantes enquanto reinterpreta o mesmo enredo básico dos seus filmes anteriores. Nos anos 30, a MGM fez fortunas com Joan Crawford e esse exato modelo de produção.

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Um star vehicle à moda antiga.

Tudo isto para dizer que, hoje em dia, é raro encontrar um filme singularmente criado como uma celebração e capitalização no poder e apelo de uma estrela de cinema. Por isso mesmo, “Do Jeito Que Elas Querem” merece considerável admiração e análise, sendo um bom exemplo dessa raridade. O único senão é que, ao invés de uma só estrela, o filme tem quatro e acaba por funcionar como um quarteto de comédias românticas forçadas a uma coexistência meio precária. Outro aspeto em que o filme mostra ser uma preciosidade incomum refere-se ao género e idade das suas estrelas, pois, afinal, esta é uma comédia construída em torno das personas de quatro atrizes cujo último grande pico de popularidade se registou há cerca de duas décadas.

Elas são Jane Fonda, Diane Keaton, Mary Steenburgen e Candice Bergen, um grupo de atrizes que, ao todo, já acumula quatro Óscares, seis Emmys, três BAFTAs, doze Globos de Ouro e mais uma catrefa de outros prémios e muitos clássicos do grande e pequeno ecrã. A audiência ideal do filme é fã de todas estas mulheres, mas, mesmo que o espectador não nutra grande afeto por elas, o cocktail de carisma que elas e o realizador Bill Holderman prepararam certamente irá render algumas pessoas ao culto de Fonda, Keaton, Steenburgen e Bergen. Para quem, mesmo assim, não ficar convencido, então é melhor evitar “Do Jeito Que Elas Querem” pois, para além do grande trabalho do seu quarteto de estrelas, o filme tem muito pouco que o recomende.

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Mas que trabalho e que estrelas! Neste saborosíssimo sorvete cómico sem nenhum valor nutritivo em termos intelectuais ou artísticos, a luminosa coleção de atrizes reunidas por Holderman interpreta um grupo de quatro amigas que, desde a década de 70, se reúne todos os meses para discutir um livro selecionado por uma delas. O título original do filme é “Book Club”, mas, verdade seja dita, o grupo passa mais tempo a discutir as vidas umas das outras do que a falar de qualquer tipo de trabalho literário. A discutir a vida e a beber vinho, muito, muito vinho. Enfim, o próprio argumento parece esquecer-se do clube literário passada metade da narrativa por isso não vale a pena passar muito tempo a refletir sobre o assunto.

Estas amigas apreciadoras de bom vinho e ocasional divertimento literário é composto por Diane (Keaton), uma recente viúva com um par de filhas que julgam sua mãe uma inválida devido à idade; Vivian (Fonda), a proprietária de um hotel de sucesso que passou a vida a evitar relacionamentos sérios e a desfrutar de todos os prazeres do sexo sem compromissos; Carol (Steenburgen), dona de um restaurante com um marido fiel de há muitos anos que parece ter perdido o interesse na mulher a nível sexual; e Sharon (Bergen), uma juíza federal que nunca recuperou do choque de ser deixada por uma mulher mais nova pelo seu ex-marido e, como tal, não tem sexo há cerca de 13 anos e muito menos qualquer tipo de nova ligação amorosa.

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Um elenco de luxo.

Quando a narrativa chega às suas vidas, Vivian acabou de surpreender as amigas com a seleção da leitura do mês, o infame “As Cinquenta Sombras de Grey”, uma escolha cujo conteúdo sexual e pseudo-romântico acaba por despertar a mente das quatro leitoras para questões de sexo e amor. Não que, verdade seja dita, o livro importe muito para a narrativa, com a possível exceção da história de Carol, que é assim motivada a tentar reacender a chama da paixão carnal com o marido. Vivian, por seu lado, confronta o reaparecimento de uma grande paixão do passado, Diane é seduzida por um piloto charmoso e Sharon decide entrar no mundo misterioso dos encontros online, em parte como reação ao noivado do seu ex-marido.

A partir daí, cada enredo individual segue basicamente o caminho que uma audiência habituada a comédias românticas consegue facilmente prever. Este não é um filme de grande complexidade textual, ou mesmo competência formal, sendo que a grande abordagem estilística do realizador parece ter sido apontar a câmara para as suas atrizes em espaços iluminados o suficiente para se registar a presença humana. Considerações de montagem, fotografia, música, ritmo e tudo o mais parecem não existir. O pior de tudo é o uso de fotografias manipuladas em Photoshop e alguns dos piores efeitos de green screen presentes numa obra supostamente profissional em 2018.

Contudo, com a ajuda de um elenco que inclui mais algumas caras famosas, Fonda, Keaton, Bergen e Steenburgen elevam todo o edifício cinematográfico. Keaton, pela sua parte, está a reciclar uma dezena de prestações passadas, mas fá-lo com tanto júbilo que é difícil não sorrir. Fonda dá bom uso à sua imagem de sex symbol octogenário e faz de Vivian uma presença divertida e carismática. Entendemos perfeitamente a devoção que tantos homens lhe prestaram ao longo dos anos. Steenburgen pega na história simultaneamente mais dramática e mais pateta das quatro consegue manejar perfeitamente as cambalhotas tonais que o guião exige. Finalmente, Bergen dá uma das melhores prestações da sua carreira no grande ecrã, trazendo humanidade dolorosa, perfeito timing cómico e uma sensualidade matura ao seu papel. Que mais podemos pedir de um veículo de estrela a quadruplicar?

Do Jeito Que Elas Querem, em análise
Do Jeito Que Elas Querem

Movie title: Book Club

Date published: 2018-09-13

Director(s): Bill Holderman

Actor(s): Diane Keaton, Jane Fonda, Mary Steenburgen, Candice Bergen, Don Johnson, Richard Dreyfuss, Andy Garcia, Ed Begley Jr., Craig T. Nelson, Wallace Shawn, Alicia Silverstone, Katie Aselton, Mircea Monroe

Genre: Comédia, Romance, 2018, 104 min

  • Cláudio Alves - 65
  • Filipa Machado - 65
  • José Vieira Mendes - 60
63

CONCLUSÃO

“Do Jeito Que Elas Querem” não é grande cinema, mas é grande divertimento. Jane Fonda, Diane Keaton, Mary Steenburgen e Candice Bergen trazem doses industriais de carisma a quatro narrativas amorosas subdesenvolvidas e até nos fazem esquecer quão perfuntória toda a abordagem estilística do filme realmente é.

O MELHOR: Bergen!

O PIOR: O green screen que é tão mau que dói e as duas filhas irritantes de Diane.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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