The 28º European Film Awards | A cerimónia e os vencedores

 

Sem surpresa o italiano Paolo Sorrentino foi o Melhor Realizador e a sua última obra ‘A Juventude’, considerado Melhor Filme Europeu. Os portugueses Vasco Pimentel e Miguel Martins estiveram lá para receber o troféu de Melhor Som Europeu.

 

Melhor Filme Europeu O cenário dos EFA 2015.
O cenário dos EFA 2015.

 

A JUVENTUDE E A LIBERDADE SÃO ETERNAS

No entanto, Michael Caine e Charlotte Rampling com a sua eterna juventude, foram sem dúvida os grandes vencedores dos European Film Awards 2015 (EFA), realizados no sábado em Berlim, na Haus der Berliner Festspiele. Os dois arrecadaram as maiores ovações da noite, os Prémios de Interpretação e Carreira, estes últimos atribuídos directamente pelo ‘board’ da Academia de Cinema Europeu. A cerimónia de entrega dos EFA  2015, muito bem conduzida pelo comediante alemão Thomas Hermanns decorreu marcada em parte pela ideia de juventude, embora os dois importantes Prémios de Interpretação fossem para os veteranos actores e tudo aconteceu sem surpresas em relação aos favoritos nas nomeações.

Melhor Filme Europeu THOMASHERMANNS

‘…muito bem conduzida pelo comediante alemão Thomas Hermanns decorreu marcada em parte pela ideia de juventude…’

Foi a inspiração cosmopolita e a ideia de uma Berlim jovem representada pela mistura de etnias e cidadãos que a caracterizam com a cidade europeia mais alternativa da actualidade, que deu o mote à cerimónia. E para além da passadeira vermelha, da habitual sobriedade dos EFA, a demonstração e um video de hip-hip de um grupo de jovens berlinenses das mais diversas origens, acompanhados pelo apresentador da noite, foi um dos grande momento de um espectáculo, marcado por  poucos números musicais, com uma passadeira vermelha discreta e sempre em palco com apelos políticos à liberdade e à união da Europa .

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A festa começou mesmo com a voz e as imagens de Charles Chaplin em ‘O Grande Ditador’, numa alusão indirecta ao terrorismo e às vítimas dos recentes atentados de Paris. A cerimónia continuou com reivindicações e apelos à liberdade de expressão dos artistas. Coube ao actor Daniel Bruhl, apresentar a campanha que a Academia promove há uns meses para a libertação do realizador ucraniano Oleg Sentsov, acusado pelos procuradores russos de terrorismo e condenado a 20 anos de prisão. Quase como sempre coube a Wim Wenders, Presidente da Academia e desta vez acompanhado pela cineasta Agnieszka Holland, diretora da instituição, chamarem à atenção para as grandes questões da atualidade e à ideia de que, ‘não podemos voltar aos tempos obscuros que já se viveram na Europa’.

Melhor Filme Europeu SORRENTINO

‘…o realizador italiano Paolo Sorrentino, confirmou o seu favoritismo e o do seu filme ‘A Juventude’….

Durante a cerimónia, houve em parte uma sensação de que haveria uma maior partilha dos prémios, sobretudo quando forma entregues os Prémios de Carreira e Realização. Contudo, Paolo Sorrentino, o realizador de filmes como ‘A Grande Beleza’ e ‘As Consequências do Amor’, confirmou o seu favoritismo e o de ‘A Juventude’, a sua irónica reflexão sobre o envelhecimento, estreada a semana passada nas salas portuguesas. Das cinco nomeações, esta abrangente co-produção europeia (Itália/França/Reino-Unido e Suíça), venceu três: Prémio de Melhor Realizador, Melhor Actor (Michael Caine) e Melhor Filme Europeu. Ao receber o Prémio de Realizador, também Paolo Sorrentino, fez um breve apelo à liberdade, um dos valores mais defendidos na gala.

Foi de facto a gala dos duplos-prémios e a noite dos míticos actores: Michael Caine e Charlotte Rampling. O oscarizado actor britânico de 82 anos recebeu de uma assentada os seus dois primeiros prémios europeus, em cinquenta anos de carreira: Prémio de Melhor Actor por ‘A Juventude’ e o honorífico concedido pela Academia de Cinema Europeu e recebido apenas por Michel Piccoli e pelo português Manoel de Oliveira. O auditório recebeu Caine, com uma emocionada ovação de pé à qual o actor respondeu, com palavras de agradecimento: ‘Este foi o único prémio europeu que ganhei. É a primeira vez que estou nomeado para estes prémios europeus, não sei se ganharei outro esta noite, mas pelo menos já tenho este honorífico’, disse Michel Caine quando recebia a primeira estatueta da noite. Mas voltou feliz e emocionado ao palco para receber o Prémio de Interpretação, pelo seu papel do maestro aposentado de ‘A Juventude’.

Melhor Filme Europeu CAINE&RAMPLING

‘Foi de facto a gala dos duplos-prémios e a noite dos míticos actores: Michael Caine e Charlotte Rampling…’

A actriz britânica Charlotte Rampling, de 69 anos ganhou igualmente o galardão de Melhor Actriz, pelo filme ’45 Anos’, de Andrew Haigh e o Prémio da Academia pela sua carreira cinematográfica. O realizador francês François Ozon, que a dirigiu em vários filmes como ‘Sob a Areia’ e ‘Swiming Pool’, fez-lhe a homenagem e entregou-lhe o Prémio de Honra, com muitas ovações na sala. ‘Eras a actriz mais importante da minha vida’, disse Ozon antes de um abraço emocionado a Rampling, que respondeu à assistência com: ‘Esta noite concretizou-se um sonho da minha vida desde jovem. Sabia que trabalhar no continente europeu do outro lado do canal, era algo que não podia deixar de fazer. Aceito este prémio muito orgulhosa e honrada porque é o Prémio da Academia de Cinema Europeu, disse a actriz, que da segunda vez que subiu ao palco, disse apenas: ‘Isto é incrível’.

O Prémio de Argumento foi para ‘Lobster’, uma co-produção europeia (Reino Unido/Grécia) escrita e dirigida pelo grego Giorgos Lanthimos (o realizador de ‘Canino’ e ‘Alps’), o favorito da crítica e uma estranha e kafkiana história sobre os constrangimentos de uma sociedade mais ou menos futurista onde os solteiros têm quinze dias para se acasalarem senão transforma-se em animais, ou seja uma sociedade onde a felicidade é obrigatória e onde a dissidência é castigada de uma forma bastante cruel.

Melhor Filme Europeu

‘…o prémio de Melhor Comédia Europeia, foi para ‘Um Pombo Pousou num Ramo a Reflectir na Existência’, de Roy Andersson’

Os divertidos actores Carlos Areces e Javier Cámara (do elenco de ‘Os Amantes Passageiros’ de Pedro Almodóvar), entregaram o Prémio de Melhor Comédia Europeia, a  ‘Um Pombo Pousou num Ramo a Reflectir na Existência’, de Roy Andersson (Suécia), o surrealista e quixotesco mosaico de histórias que caminham para o lado mais absurdo da vida. O Prémio do Público foi para o thriller espanhol ‘La Isla Mínima’, de Alberto Rodríguez, que decorre de uma investigação policial sobre o desaparecimento de duas raparigas durante uma festa numa pequena aldeia.

‘Mustang’, dirigido pela jovem Deniz Gamze Ergüven, foi o Prémio Revelação num filme-denuncia sobre os direitos das mulheres na Turquia, estreado em Portugal na Festa do Cinema Francês e que curiosamente é o filme proposto pela França na pré-candidatura aos Óscares de Melhor Filme de Lingua não Inglesa. O Prémio de Melhor Curta foi para o filme croata ‘Picnic’, dirigido por Jure Pavlovic.

 

‘…a única Academia do mundo a premiar o som de um filme sem tiros nem explosões’, disse Vasco Pimentel.

A participação portuguesa, já antecipadamente anunciada, foi marcante com a vitória no Melhor Som Europeu, atribuída a Vasco Pimentel e Miguel Martins, pelo seu trabalho em ‘As Mil e Uma Noites’, a trilogia de Miguel Gomes.  Foi com grande emoção e alegria que os dois técnicos portugueses subiram ao palco e receberam este prémio. Vasco Pimentel no discurso de agradecimento bem a propósito disse que estava muito contente, pois esta era ‘a única Academia do mundo a premiar o som de um filme sem tiros nem explosões’.

Melhor Filme Europeu

‘…Christoph Waltz, recebeu o troféu pela sua contribuição para o cinema do mundo.’

No capitulo dos prémios honoríficos também o conhecido actor austríaco Christoph Waltz, recebeu o troféu pela sua contribuição para o cinema do mundo. O último vilão de  007 ‘Spectre’, actor fetiche de Quentin Tarantino e Óscar por ‘Sacanas Sem Lei’, confessou que ‘recentemente tenho pensado na minha carreira e nem acredito na sorte que tenho tido, quando subiu ao palco para receber este importante prémio, que consagrou mais uma vez um talento europeu.

 

Palmarés

 

Filme: A Juventude, de Paolo Sorrentino.

Comédia: Um Pombo Pousou num Ramo a Reflectir na Existência’, de Roy Andersson.

Realizador: Paolo Sorrentino ( A Juventude).

Argumento: Giorgos Lanthimos e Efthimis Filippou (Lobster).

Actriz: Charlotte Rampling (45 Anos).

Actor: Michael Caine (A Juventude).

Fotografia: Martin Gschlacht (Goodnight Mommy).

Montagem: Jacek Drosio (Body).

Música: Cat’eyes ( The Duke of Burgundy).

Direcção Artística: Sylvie Olivé (The New Brand Testament).

Guarda-roupa: Sarah Blenkinsop (Lobster).

Som: Vasco Pimentel e Miguel Martins (As Mil e Uma Noites).

Documentário: Amy, de Asif Kapadia.

Animação: The Song of Sea, de Tomm Moore.

Revelação: Mustang de Deniz Gamze Erguiven.

Curta-metragem: Picnic , de Jure Pavlovic.

Prémio do Público: La isla mínima, de Alberto Rodríguez.

JVM

 

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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