Todos Querem o Mesmo, Mini-Crítica

Vinte e três anos depois de “Dazed and Confused”, Richard Linklater apresenta-nos aquilo a que tem vindo a chamar de “sequela espiritual”.

Há qualquer coisa de fascinante neste tórrido affair que Richard Linklater tem com o tempo. O tempo que acompanhou Ellar Coltrane desde a infância até ao primeiro dia da Faculdade nesse épico sobre as dores do crescimento que se dá por nome de “Boyhood”. O tempo que desagrega e ao mesmo tempo une os capítulos do romance vivido por Jesse e Celine. O mesmo tempo que permite a Linklater apresentar o seu mais recente filme, “Todos Querem o Mesmo”, como uma sequela espiritual dessa coleção de retratos dos anos 70, “Dazed and Confused”.

Everybody Wants Some!!” (com dupla pontuação, no título original), vai ao álbum de Van Halen, “Women and Children First”, esgaravatar uma referência musical, tal como “Dazed and Confused” já o fizera com um tema dos Led Zeppelin. Em ambos os casos, observa-se uma dependência fisiológica de Linklater pelo tempo, uma necessidade de viver, regressar, ou simplesmente recordar com saudosismo – como Pessoa o fizera sobre a temática da nostalgia da infância – o seu (e o nosso) passado. Nem que tal tivesse de ser operado apenas recorrendo à pertinente alusão musical.

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Se “Dazed and Confused” se concentrava no reduzido espaço temporal do último dia de aulas do secundário e nas loucuras dessa “juventude inconsciente” dos anos 70, acompanhando uma série de personagens que, carecendo de um desenvolvimento prévio, se construíam ao longo do filme nas múltiplas interseções que protagonizavam, em “Todos Querem o Mesmo” viajamos até aos últimos dias de férias de uma equipa de basebol antes do início da Faculdade, nos anos 80, em Austin, Texas.

Com uma componente autobiográfica assinalável, Linklater traça o caminho de jovens rapazes por entre as liberdades e responsabilidades de uma vida adulta sem supervisão. É sobretudo aqui que Linklater se desvia da ideia pré-concebida de que “Todos Querem o Mesmo” seria uma espécie de “Dazed and Confused” dos anos 80. Se o filme de 1993 era uma generalização da juventude da época, aqui Linkalter retrata um grupo específico de rapazes que têm de lidar com uma das mais ferozes transições temporais da nossa existência. Uma transição que o próprio Richard Linklater viveu no Texas, já que também ele foi um projeto de jogador de basebol na Sam Houston State University.

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Calções curtos, t-shirts justas em poliéster de modo a exaltar a musculatura, calças fabricadas à medida de realçar a culatra, bigodes cuidados e respeitáveis, perfumes com odores profundamente másculos aplicados em todas as partes do corpo, álcool e drogas em abundância, miúdas giras, carros, festas e rock n’roll. São elementos essenciais para contextualizar a época e ajudar Linklater a implementar este frat-style tão particular, mas há muito mais em “Todos Querem o Mesmo” para além do seu estilo.

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Linklater não pretende evocar todos esses elementos para que a mensagem sobre o tempo (este tempo) atravesse o ecrã e nos atinja nas memórias de longo prazo. Em vez disso, ele confia nos seus personagens como transportadores da sua mensagem. Apoiado num elenco de autênticos desconhecidos, mas com carisma assinalável, “Todos Querem o Mesmo” foca-se em Jake, interpretado pelo surpreendente Blake Jenner, que acaba por revelar que, no seu âmago, esta recriação de época é apenas mais um belo filme de Richard Linklater sobre as aventuras e desventuras de um primeiro encontro amoroso.

Através de tom puramente cómico, Linklater apresenta uma grande diversidade de personagens e ensina-as a viver o momento, a serem elas mesmas e como se podem ajustar de modo a encaixarem no mundo.

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O  leve e descontraído mise-en-scène de Linklater e a pujante banda sonora (com Blondie, Patti Smith, The Cars ou Jermaine Jackson) redefinem “Todos Querem o Mesmo” como mais um brilhante objeto cinematográfico sobre o “momento” da autoria do realizador texano, que confirma aqui que está definitivamente circunscrito ao restrito cinema de autor.

E numa atura em que, um pouco por todo o país, se diz adeus aos belos anos da Faculdade e se abraça a titubeante aventura da vida adulta, é com curiosidade que observamos a forma como tudo começava nos anos 80. Essa retrospetiva nostálgica que Linklater nos obriga a fazer sobre o tempo, só reforça a ideia do realizador de que talvez não tenhamos sido nós a aproveitar o momento, mas sim o inverso. The moment seizes us!!

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O MELHOR – O argumento de Richard Linklater, em particular os sublimes diálogos. O tom leve e cómico. A banda sonora e a nostalgia que invoca.

O PIOR – A possibilidade de,  depois de “Boyhood”, “Antes da Meia-Noite” e agora “Todos Querem o Mesmo”, Richard Linklater ficar refém de histórias sobre o tempo. O tempo que passa e o que demora a passar. Por agora, não nos queixamos.


Título Original: Everybody Wants Some!!
Realizador:  Richard Linklater
Elenco: Blake Jenner, Tyler Hoechlin, Ryan Guzman, Tyler Hoechlin, Temple Baker, Juston Street, Zoey Deutch
NOS | Comédia | 2016 | 117min

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DR

 

Daniel E.S.Rodrigues

Sonho como se estivesse num filme de Wes Anderson, mas na verdade vivo no universo neurótico de Woody Allen. Sou obcecado pela temporada de prémios, e gostaria de ter seguido a carreira de cartomante para poder acertar em todas as previsões dos Óscares, Globos de Ouro (da SIC), Razzies, Troféus TV7 Dias e Corpo do Ano Men's Health. Mas, nesse universo neurótico e imperfeito em que me insiro, acabei por me tornar engenheiro. Sigam-me no Instagram para mais bitaites sobre Cinema, Música, Fotografia e outras coisas desinteressantes.

One thought on “Todos Querem o Mesmo, Mini-Crítica

  • Todos Querem o Mesmo: 4*

    “Todos Querem o Mesmo” mostra que um filme não precisa de ser complicado para ser algo de muito bom.

    Cumprimentos, Frederico Daniel.

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