Todos Sabem critica

Todos Sabem, em análise

Todos Sabem”, protagonizado pelo power couple do cinema espanhol Javier Bardem e Penélope Cruz, marca a estreia do realizador iraniano Asghar Farhadi em filmes de expressão castelhana.

Alguns realizadores conseguem trabalhar em várias línguas diferentes, nunca deixando que o seu talento se perca por entre barreiras idiomáticas. Luis Buñuel, Hou Hsiao-hsien, Wim Wenders, Akira Kurosawa e Yorgos Lanthimos são alguns dos nomes que vêm logo à cabeça quando se pensa em cineastas com tal habilidade. Contudo, muitos outros mestres do cinema não parecem conseguir trabalhar fora do panorama da sua língua materna. Wong Kar Wai e Ingmar Bergman, por exemplo, são génios indisputáveis da sétima arte, mas suas tentativas de fazer cinema em inglês foram tristes fracassos.

Asghar Farhadi, o cineasta iraniano que ganhou fama internacional com “Uma Separação”, ainda não assinou nenhum desastre cinematográfico, mas começa a parecer que o seu nome pertence ao grupo de Bergman e Kar Wai. No seu caso, não é o inglês que se assinala como barreira às suas capacidades, mas sim o francês e o espanhol. Em 2013, “O Passado”, filmado em França, foi um desilustre seguimento à glória de “Uma Separação”. Farhadi rapidamente ressaltou qualitativamente com “O Vendedor”, se bem que, com “Todos Sabem”, seus talentos voltam a vacilar, desta vez com uma obra rodada entre as paisagens vinicultoras nos arredores de Madrid.

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Um elenco primoroso eleva um thriller que deve mais à convenção do que seria de esperar numa obra assinada por Asghar Farhadi.

Este filme, estreado como parte da competição oficial do Festival de Cannes de 2018, representa uma nova exploração dos temas preferidos do cineasta. Como nas suas obras mais célebres, um incidente sugestivo de violência despoleta uma série de reconsiderações sobre a história partilhada de um grupo de pessoas que há muito entrelaçaram suas vidas. Segredos são gradualmente revelados pelo cinzel da dúvida e da ambiguidade narrativa até que, como um sapo em água fervente, as personagens chegam a um ponto de ebulição psicológica do qual é impossível fugir.

Desta vez, tudo começa devido a um casamento que traz a Espanha uma mulher há anos emigrada na Argentina. Ela é Laura e veio assistir às bodas da irmã, trazendo consigo os dois filhos, um rapaz ainda na meninice e uma rapariga adolescente com as hormonas aos saltos. Seu marido, famoso na região por doações que permitiram reparar a igreja, está conspicuamente ausente, tendo ficado para trás em Buenos Aires. Quem está presente e depressa cruza caminho com Laura é Paco, um antigo namorado a quem ela vendeu as terras da família em tempos de más finanças. Seu amor passado é facto sabido por toda a comunidade, sendo a lenda do romance algo que até está marcado nas pedras do campanário.

Mesmo antes de qualquer reviravolta ocorrer, já o espectador sente a tensão que enche o ar e ameaça sufocar todos os presentes. O casamento, em si, é uma festa por onde Farhadi tece linhas de conflito silencioso e detalha instantes de colorida idiossincrasia humana enquanto, pelo ar, drones voam com câmaras que filmam a folia de uma perspetiva friamente divina. Trata-se da melhor sequência em todo o filme que, chegada noite cerrada e seus perigos noturnos, é irreversivelmente transformado. Irene, a filha mais velha de Laura desapareceu, sequestrada, e, de um momento para o outro, “Todos Sabem” despe suas pretensões de estudo psicológico e veste o traje de um thriller.

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Talvez o grande problema de “Todos Sabem” seja mesmo a facilidade com que esta transfiguração tonal ocorre. Nos outros filmes mais bem-sucedidos de Farhadi, elementos de thriller também marcam presença, mas o realizador parece sempre lutar contra o facilitismo das convenções de género. Neste caso, ele rende-se a essas mesmas convenções, trocando o bisturi com que outrora dissecou hierarquias sociais e personagens elusivas, por um martelo com o qual flagela os atores até que estes lhe oferecem o tipo de pirotecnia emocional que o texto vorazmente procura como um predador que se alimenta de melodrama.

O argumento deste filme é o pior na carreira do cineasta, mas isso não implica que tudo seja mau. Por um lado, o amor que Farhadi tem por imagética simbólica tende a entrar no campo da paródia acidental sob a forma de um pombo trágico, por outro, sua capacidade para dirigir atores e construir cenas onde os interesses contraditórios de várias personagens estão em jogo continua a ser uma constante do seu trabalho. Toda a sequência do casamento e copo d’água é prova disso mesmo e até os epítetos mais forçosamente dramáticos do enredo exibem admirável mise-en-scène.

Muito crédito há que ser dado também aos atores, nomeadamente o trio central de Javier Bardem, Penélope Cruz e Ricardo Darín, como Paco, Laura e seu marido Alejandro respetivamente. Bardem, em particular, dá aqui a sua melhor prestação desde que aterrorizou James Bond em “Skyfall”, dando à narrativa um peso humano que, mais do que o texto em si, dá uma cara humana ao poder corrosivo de segredos e mentiras entre pessoas que supostamente se preocupam umas com as outras. Chegado o clímax da trama, são os seus grandes planos emocionalmente esgotados que servem como um ponto final a que a audiência se pode agarrara na sua busca por uma conclusão mais ou menos catártica.

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Segredos e mentiras sufocam as personagens e infetam todas as relações pessoais e comunitárias.

Cruz, por seu lado, é quem melhor ilustra os extremos tonais do projeto e quem melhor maneja sua rápida evolução para um filme de género. Seu desespero é palpável e a atriz é particularmente boa a vender a ideia de exaustão física como consequência do laboro emocional de uma mãe em pânico. No que diz respeito aos diálogos a transbordar de ambiguidade com que Farhadi a deixa, Cruz mostra-se mais apta quando contracena com Darín cujas aptidões dramáticas muito compensam uma personagem que foi deixada na fase de esboço aquando do desenho deste drama humano.

Relendo o que até agora escrevemos sobre “Todos Sabem”, evidencia-se uma rispidez um tanto ou quanto injusta. Este é um bom thriller com sombreados de melodrama, cheio de boas prestações e uma solarenga fotografia assinada pelo veterano de Almodóvar José Luis Alcaine. Somente face à obra passada de Farhadi e sua monumental glória cinematográfica é que o drama espanhol parece medíocre. Quem ainda não tiver experienciado o génio de “Uma Separação” é capaz de ver este filme sem expetativas demasiado grandes e dele tirar mais proveito que quem ele vai ver em busca de mais uma obra-prima do cineasta iraniano. Tudo depende das expetativas de cada um e do seu gosto por histórias de rapto e mentiras traiçoeiras numa Espanha tão cheia de vinhas frondosas como de famílias marinadas no veneno dos seus ressentimentos silenciosos.

Todos Sabem, em análise
Todos Sabem

Movie title: Todos lo saben

Date published: 2019-02-14

Director(s): Asghar Farhadi

Actor(s): Penélope Cruz, Javier Bardem, Ricardo Darín, Eduard Fernández, Bárbara Lennie, Inma Cuesta, Elvira Mínguez, Ramón Barea, Carla Campra, Sara Sálamo, Roger Casamajor, José Ángel Egido, Sergio Castellanos, Iván Chavero, Tomás del Estal

Genre: Crime, Drama, Mistério, 2018, 132 min

  • Cláudio Alves - 60
  • José Vieira Mendes - 65
63

CONCLUSÃO:

Em comparação com os melhores filmes de Asghar Farhadi, “Todos Sabem” é um trabalho menor. Avaliado fora desse contexto, pelos seus méritos próprios, o filme é um thriller convencional com alguns toques de sofisticação psicológica dados, na sua maioria, por um bom elenco a fazer o que pode com um texto rico em atmosfera, mas pobre em caracterizações coerentemente e apelativamente complicadas. Formalmente, há pouco a criticar, sendo esta uma obra polida de cinema europeu com pedigree de Cannes.

O MELHOR: Bardem, especialmente no último ato em que as revelações e mentiras tanto se empilham que é difícil ver a verdade que se esconde por debaixo.

O PIOR: A rendição aos mecanismos do thriller convencional e um prólogo com pombos que tresanda a simbolismo ominoso demasiado óbvio para seu próprio bem.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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