Top MHD | Os filmes de David Fincher

Na semana de estreia de “Em Parte Incerta“, mais um soberbo trabalho de David Fincher que em breve será motivo de análise aqui na Magazine.HD, fazemos uma retrospetiva da carreira de um dos mais talentosos realizadores americanos. Revisitamos as suas nove longas-metragens (excluindo, à partida, a sua última) e impusemos-lhes ordem: do pior para o melhor.

Fincher iniciou-se na realização de clips promocionais e videoclips (recorda aqui alguns), o que o levou a ser escolhido para realizar o terceiro capítulo da saga Aliens. A partir daí, é a história que todos nós sabemos.

Depois da homenagem, que comece a contagem:

Nota: Para a elaboração deste TOP foram inquiridas 7 pessoas com o objetivo de ordenar por ordem de preferência as 9 longas-metragens de David Fincher. Atribui-se 1 ponto ao 9º classificado, 2 pontos ao 8º, e assim sucessivamente até ao pódio. Para critérios de diferenciação, atribuíram-se pontuações progressivas aos filmes do pódio. 8 pontos aos 3º lugares, 10 pontos aos 2ºs e 12 pontos aos primeiros. Os resultados apresentados são o somatório das pontuações atribuídas por cada membro da Magazine.HD.

#9 – Alien³ Alien 3 – A Desforra (1992)

Alien 3

É aqui que tudo começa. E não se pode dizer que a entrada tenha sido com o pé direito. Depois de dois filmes – de Ridley Scott e James Cameron – que são o pináculo dos sci-fi do fim século XX, David Fincher teve a ingrata tarefa de espremer o franchise.

Com apenas 28 anos, Fincher viu-se envolvido num filme que não primou pela pacificidade atrás das câmaras, apesar do enorme orçamento que tinha em mãos. As fortes pressões do estúdio, o curto tempo que teve para o filmar, as sucessivas trocas de elementos da equipa técnica foram alguns dos problemas que levaram David Fincher a quase omitir este filme da sua filmografia. Mas tal como no futebol, isto não é como começa, é como acaba.

#8 – Panic Room / Sala de Pânico (2002)

Panic Room

A primeira metade da carreira de David Fincher assemelha-se à de um Woody Allen mais recente: depois de um grande filme, vem sempre um menos bom. E quem faz um “Clube de Combate”, está no seu pleno direito de pecar categoricamente. O pecado que cometeu em “Sala de Pânico” foi a gula. Fincher, à sua exímia capacidade de contar histórias, junta-lhe pipocas à espera de serem devoradas. Foge do território de “autor” e entrega-se ao convencionalismo dos filmes-pipoca. Qual o mal disso? Absolutamente nenhum. “Sala de Pânico” não é um grande marco na carreira do realizador americano, mas é mais um enorme acto de destreza atrás das câmaras, dado o confinamento da ação a um espaço tão reduto. Fincher filma um thriller obcecado pela claustrofobia e de intensidade ímpar, que prende o espectador até ao último sufoco.

#7 – The Game / O Jogo (1997)

The GAME

Meios-termos são impossíveis, ou se gosta ou se odeia. São 129 inspirados minutos. “The Game” leva a mente do espectador ao desespero. Torce-a e contorce-a, questiona-a, provoca-a. David Fincher brinca com “o espectador implícito”. Usa a propensão de provocar constantemente através da surpresa e durante o filme redefine aquilo que podemos considerar o “horizonte de expectativa”. Quem vê, não esquece.

Povoado por um humor peculiar e negro, “The Game” é uma espécie de sátira sobre a sociedade contemporânea. Mostra como as pessoas – na busca pelo sucesso e fortuna – ignoram as coisas mais importantes na vida e provoca, ao expor que é no infortúnio que as emoções mais elementares do ser humano despontam e provocam mudanças. O filme é uma montanha russa de comoções, é um passeio pelo difícil funcionamento da mente.

A verdade chegará sempre… nem que seja no fim, porque: “Discovering the object of the game *is* the object of the game.” (Daniel Schorr) [texto por Sofia Santos]

#6 – Zodiac / Zodíaco (2007)

Zodiac

Em “Zodíaco”, David Fincher parece iniciar uma fase diferente na sua carreira. As texturas frias patentes no argumento mas espelhadas nas fotografias e bandas sonoras, são um tónico dominante em todos os seus filmes pós-“Sala de Pânico” (talvez com devida excepção do estranho caso d’”O Estranho Caso de Benjamin Button”). É como se os seus filmes fossem mergulhados num banho de aço inoxidável que afasta qualquer tipo de corrosão: não há falhas, por muito nos empenhemos em tentar encontrá-las, como quem procura o Wally em Manhattan.

“Zodíaco” é uma metódica e profunda exploração do universo de “Sete Pecados Mortais”, agora num tom bem mais intenso e cínico, do que frenético e gore. É um puzzle constituído por milhares de peças com o qual decidimos brincar numa noite silenciosa.

#5 – The Curious Case of Benjamin Button / O Estranho Caso de Benjamin Button (2008)

The Curious Case of Benjamin Button

De toda a sua vasta filmografia, talvez este seja o menos Fincher de todos os Fincher.

É o próprio realizador a admitir que os seus filmes são “histórias ostensivamente negras de misantropos e serial killers ocasionais”. Aqui, a densidade psicológica e a influência noir dão lugar a uma génese diferente, onde a vida, o amor e a perda são o fio condutor. Não terá sido um dos mais aclamados trabalhos do realizador (facto que o seu número de nomeações aos Óscares – treze – parece contrariar), mas “O Estranho Caso de Benjamin Button”, baseado na obra homónima de F. Scott Fitzgerald, é porventura um dos mais pessoais e belos filmes de David Fincher. Debruçando-se sobre a vida de um homem que cresce enquanto o seu corpo regride, Fincher constrói uma ode ao tempo: o tempo que simplesmente passa, o tempo que nos fortalece, o tempo que nos educa para a vida, o tempo que nos dá amor e o tempo que nos leva.

#4 – The Girl with the Dragon Tattoo / Millennium 1: Os Homens Que Odeiam As Mulheres (2011)

The Girl with the Dragon Tattoo

Façamos, em primeira instância, um avé monumental ao genérico de abertura. Avancemos.

Baseado na aclamada obra de Stieg Larsson, David Fincher encontra aqui um dos seus projetos menos óbvios, mas mesmo assim consegue ser um dos mais surpreendentes. A necessidade de Hollywood em catapultar os sucessos internacionais para gerar riqueza interna, poderia ter dados frutos caso não fosse Fincher o homem do leme.  A atmosfera aterradora e profundamente fria que ele imprime em “Os Homens Que Odeiam as Mulheres” aliada a uma magnética prestação de Rooney Mara, é suficiente para suster a densa teia que vai embrenhando a mente do espectador por mais de duas horas e meia. Mas nem precisamos de ir tão longe na análise do conteúdo. Aqui, por estranho que pareça, o estilo está acima do conteúdo. Nas mãos de outra pessoa, seria o desastre. Nas mãos de Fincher, é poesia.

#3 – The Social Network / A Rede Social (2010)

The Social Network

Há filmes capazes de sintetizar gerações em parcas horas. Kubrick fê-lo por diversas vezes de forma sublime, James Dean foi o expoente máximo desse conceito, e até o próprio David Fincher já foi capaz de o fazer inequivocamente em “Clube de Combate”.

“A Rede Social” é possivelmente o caso mais paradigmático. Uma obra que, para além de ser um fiel caracterizador de pessoas e do modus operandi da sociedade moderna, define de forma soberba a conjuntura político-social dos princípios do novo milénio. Fincher tem talvez aqui o seu único clássico que não precisa do exame do tempo para assim ser tratado. O argumento de Aaron Sorkin é dos textos mais virtuosos em largos anos, mas é Fincher quem lhe dá o subtexto, a textura metálica, o cínico classicismo, o capitalismo, a (a)moralidade. Fincher não pede que falemos de “A Rede Social” exclusivamente no Facebook ou no Twitter. Ordena que discutamos os seus temas cara-a-cara, na esquina da rua, no café. Só assim estaremos conscientes da sua importância.

#2 – Fight Club / Clube de Combate (1999)

Fight Club

Num registo algo distinto, é muitas vezes comparado a “Laranja Mecânica” de Stanley Kubrick, e em cada segundo, a experiência é tão surreal como o clássico dos anos 70. Embarcando num interessante fenómeno evolutivo, “Clube de Combate” é um ácido comentário cada vez mais atual sobre uma sociedade castrada pelo consumo e cada vez mais desprovida de espírito e humanidade. É, na mais básica das suas asserções, a história da viagem espiritual de um homem vulgar em busca do seu lugar no mundo, e a obra desafiadora de Fincher requer apenas dos seus espectadores o respeito e dedicação para olharem para lá do seu visual exterior ciclónico e sangrento. No final, interiormente e nos nossos momentos mais negros, todos desejamos encontrar o nosso próprio Clube de Combate. [texto por Catarina D’Oliveira]

#1 – Se7en / Sete Pecados Mortais (1995)

Se7en

E chegamos ao número um, o pai do thriller moderno.

Corrosivo, denso, enigmático, provocador. “Sete Pecados Mortais” é David Fincher no auge das suas capacidades. Um exame detalhado da psique humana e da malvadez que há dentro de cada um de nós, relatado através de um perverso crime em série que não é mais do que uma alegoria social. É provavelmente o Fincher mais inquietante e visceral que alguma vez vimos. Morgan Freeman é soberbo, mas é Brad Pitt que nos fica gravado na memória por causa daquela imprevisível mas diabolicamente perfeita cena final.

 

Concordam com as nossas escolhas? Quais as vossas? Digam-nos nos comentários a este artigo ou então no nosso Facebook.

Em Parte Incerta” já se encontra em exibição em Portugal. Podes ler a análise ao mais recente filme de David Fincher aqui.

Daniel E.S.Rodrigues

Sonho como se estivesse num filme de Wes Anderson, mas na verdade vivo no universo neurótico de Woody Allen. Sou obcecado pela temporada de prémios, e gostaria de ter seguido a carreira de cartomante para poder acertar em todas as previsões dos Óscares, Globos de Ouro (da SIC), Razzies, Troféus TV7 Dias e Corpo do Ano Men's Health. Mas, nesse universo neurótico e imperfeito em que me insiro, acabei por me tornar engenheiro. Sigam-me no Instagram para mais bitaites sobre Cinema, Música, Fotografia e outras coisas desinteressantes.

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3 thoughts on “Top MHD | Os filmes de David Fincher

  • Excelente trabalho de Daniel Rodrigues. Fazer um top de preferências nem sempre é fácil. Como grande e fanático admirador da obra de David Fincher concordo em termos gerais com a escolha embora tivesse trocado The Game ou Zodiac com The Social Network que me parece uma obra menor na carreira do realizador. Não foi considerado o novo e genial Gone Girl que, na minha modesta opinião entra directamente para o 1º luigar do top, a par com Seven. Gone Girl é o expoente máximo na obra de Fincher e até agora é, para mim, o filme do ano.

  • Bom dia Luís.

    Os tops são se facto uma matéria complicada, porque recebemos inputs de pessoas diferentes com modos de ver os filmes diferentes. Com gostos e estéticas diferentes.
    Gone Girl não foi considerado porque o Top foi publicado no dia de estreia do filme e nem todos os membros da equipa Magazine.HD tiveram oportunidade. O Top foi feito como que para servir de prefácio à estreia do Gone Girl.
    de o ver.

    Obrigado pelo seu comentário.
    Votos de bom fim de semana.

    P´la Magazine.HD

    Sofia

  • Difícil, muito difícil :).
    David Fincher, é um dos meus cineastas preferidos.
    Concordo com o 1 e 2 lugar, pela mesma ordem.
    Outros não.
    Por ex, gosto mais de” The game” comparando com “Zodiac”.
    ” Gone girl” é soberbo! Desde logo uma das melhores obras de Fincher.
    Mas ultrapassar “Se7en” e “Fight club” vai ser tarefa quase impossível 😉 .
    Óptimo artigo. Cumprimentos

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