Um Quente Agosto, em análise

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  • Título Original: August: Osage County
  • Realizador: John Wells
  • Elenco: Meryl Streep, Julia Roberts, Ewan McGregor, Chris Cooper, Margo Martindale
  • Género: Drama
  • EUA | 2013 | 121 min

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Tenho um fascínio particular pelos episódios peculiares e honestos que caracterizam uma família disfuncional. Se é que efectivamente sei o que é um ambiente disfuncional. Será aquele que foge aos padrões mais ortodoxos? Ou será que, no fundo, todas as relações familiares terão a sua dose de “deterioração emocional” ou “descaminho fatídico”? Ou, porventura, seja uma questão de grau, percentagem, etapas na pirâmide do embate de personalidades ou no despiste do que será suposto suceder numa vida…

Mas a minha admiração não existe porque sim. Ela tem uma razão de ser. O que se respira no seio de uma tensão que, lentamente, se vai abatendo num lar, nunca está poluído. A sua génese é pura, pois cada um dos elementos que compõem a (des)união transmite exactamente o que quer transmitir – pelo menos, naquele momento, e muito embora movido pelo factor da impulsividade – sem reservas mentais ou subterfúgios.

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A realização de John Wells, “August: Osage County” é, de tal forma, rica e humana, que me convida, quase irresistivelmente, a escrever intensamente sobre cada uma das suas personagens. Bom, conseguiria conter-me e limitar-me a Violet (M. Streep) e a Barb (J. Roberts). Aqui, partilharei as minhas reflexões sobre ambas, sim, mas, com certeza, não divagarei metade do que o seu mundo projecta.

Violet padece de um cancro. A par da doença, vê-se agora impelida a lidar com uma ocorrência trágica no seio familiar. Reunidos todos os elementos do clã, atira farpas certeiras a cada um, pois, como afirma – e não obstante a distância que se interpõe entre si e as vítimas da sua insanidade (ou sinceridade?) e ferocidade – nada lhe escapa. Contudo, esses tiros ao alvo, embora crus, despidos de fingimentos, e em grande parte originados pela medicação excessiva de que depende e se administra diariamente, não deixam de ser cruéis e geradores de episódios explosivos e angustiantes, aos quais J. Wells e o script – adaptado de uma peça de teatro de Tracy Letts – também adicionam diálogos cativantes e espirituosos. É até possível ficarmos num impasse: deverei achar piada a este pedaço de agressão ou será ele até um veículo para, nostalgicamente, alcançarmos um pouco dos anos que já lá vão, termos visões fugidias dos nossos antepassados ou do que estará por acontecer no convívio com eles?

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Barb é o alicerce da construção que se nos apresenta durante estas duas horas. Não há episódio em que a sua intervenção, maior ou menor, se não faça notar. A sua capacidade de omnipresença é, inegavelmente, ilimitada.

Ivy (Julianne Nicholson) e Karen (Juliette Lewis) são as outras filhas de Violet. A primeira, aparentemente menos conhecedora do mundo exterior, vive com a mãe. A segunda, a mais excêntrica, infantil e emocionalmente inconstante, aparece acompanhada pelo mais recente namorado, Steve (Dermot Mulroney). Todas elas, rodeadas pelos restantes [respectivas famílias, e ainda, a tia, Mattie Fae (Margo Martindale); o tio, Beverly Weston (Chris Cooper); o primo, Little Charles (Benedict Cumberbatch)], abraçam, engendram, tecem o que estará por vir, umas mais empenhadas do que outras. Olhando, cuidando e amando Violet. E a si mesmas. Às suas existências. Também.

O que mais me fascinou em “August: Osage County”, filme com o qual criei uma empatia de relevo, foi a humanidade. Não há artificialismos. Não há declarações não sérias. Ninguém peca por cinismo.

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Mas também me preencheram duas personagens. Violet, porque representa, em parte, uma parte de mim, e talvez alguma de vós. Ela, em parte, é a mãe de todos. Não é que as nossas mães sejam dependentes de drogas. Não é que as nossas progenitoras nos atirem aos lobos de cada vez que nos oferecem jantar. Mas o olhar perdido e desprotegido, as pontas dos dedos pousadas nos lábios. Violet poderia ser, em parte, a minha mãe.

E Barbara é um muro que jamais cairá. A sua resistência deveria ser a de todas as mulheres. Faz lembrar aqueles bonecos que se encontram pregados ao chão e, levem os abanões que levarem, estão sempre em pé, equilibrados e a olhar para a frente. Se conseguirá curar todos os males, sarar todas as feridas, impedir todas as tragédias. Pois com certeza que não. Nem sequer partirá com a firme ideia de que agiu, em todas as circunstâncias, sem ponta de mácula. Algum de nós?

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Quanto a Meryl Streep, um furacão. E nunca, nunca mais direi que esta senhora já não me surpreende.

“The great gift of human beings is that we have the power of empathy,”

Meryl Streep

Parabéns, J. Wells

Sofia Melo Esteves

 

 



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