Um Traidor dos Nossos, em análise

Um Traidor dos Nossos é uma consistente adaptação da obra de John Le Carré, servindo de crítica a algumas políticas dos dias de hoje.

Há cerca de cinco meses estreou na televisão portuguesa The Night Manager, a adaptação ao pequeno ecrã, da obra literária do mesmo nome publicada em 1993, da autoria do aclamado escritor britânico John Le Carré, pseudónimo de David John Moore Cornwell. A (mini)série, com apenas seis episódios, era uma co-produção entre a BBC e a AMC, sendo protagonizada por Tom Hiddleston, apontado como favorito na corrida de sucessão para interpretar James Bond, e por Hugh Laurie – o primeiro na pele de Jonathan Pine, um homem comum que se torna agente secreto, e o segundo como Richard Roper, um empresário corrupto que comanda o mercado negro de tráfico de armas. Quem assistiu à série depreende, desde logo, uma notável riqueza nos diálogos, uma subtileza na linguagem corporal dos atores e um sex-appeal constante por parte das estrelas femininas, além de ser capaz de provocar uma exasperante calma no telespetador, posto que decide suprimir as cenas de ação próximas da agressividade dos filmes de Sylvester Stallone ou Chuck Norris, a fim de salientar o lado mais realista das relações humanas.

Na verdade, é isso que tem sido cumprido nas vastas adaptações ao grande ecrã das obras de Le Carré. De imediato, destaque para O Fiel Jardineiro (2005), de Fernando Meirelles, com o qual Rachel Weisz ganhou o seu Óscar de melhor atriz secundária, ou ainda para A Toupeira (2011), de Thomas Alfredson, com Gary Oldman a, eloquentemente, dar vida a um reconhecido agente secreto britânico. Enquanto, no primeiro, há uma história de amor inevitavelmente trágica, que prima por uma química inigualável entre Weisz e Ralph Fiennes, que improvisaram imenso durante a rodagem, o segundo é um thriller sombrio, com alguns momentos de puro silêncio. Ora, Um Traidor dos Nossos parece misturar alguns desses aspetos, não sendo em (quase) nada diferente. Melhor dizendo, o filme de Susanna White não prima por qualquer originalidade, preferindo ser uma adaptação prudente, tendo talvez como paralelo O Homem Mais Procurado (2014) – com Philip Seymour Hoffman no principal papel -, do que um filme revolucionário num género que merece, todos os anos, uma ou outra ida ao cinema.

Um Traidor dos Nossos

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Our Kind of Traitor, no título original, segue a história de dois cidadãos britânicos, que se veem envolvidos, sem qualquer razão aparente, num esquema de espionagem e corrupção. Durante as suas férias por Marraquexe, onde tentam reacender a chama de um casamento em crise, o professor de poesia Perry (Ewan McGregor) e a advogada Gail (Naomie Harris) cruzam-se com o extrovertido russo Dima (Stellan Skarsgård), um dos destacáveis membros da máfia russa. Este, na verdade, possui informações sobre a organização a que pertence, decidindo confiar naqueles estranhos para fazer chegar um conjunto de documentos aos serviços britânicos e, em troca, receber asilo político, para si e para toda a sua família. Em terreno londrino, Perry e Gail são interrogados por Hector (Damian Lewis), um agente do MI6, que quer provar como um dos mais respeitáveis membros do governo está por detrás de um esquema de lavagem de dinheiro, dentro do centro financeiro da City of London. Aí, Ewan McGregor, em tom de bom samaritano, aliás muito ironicamente, o ator já teve oportunidade de interpretar Jesus Cristo, força a mulher a seguir com um plano arriscado para desmascarar uma série de indivíduos, e salvar outros que, do ponto de vista dela, não conhecem de parte alguma. Com efeito, inicia-se uma intriga que recai aborrecidamente para o drama, do que verdadeiramente para o thriller de ação.

Importa referir que o elenco, e sobretudo Ewan McGregor, Naomie Harris e Damian Lewis, conseguem safar-se num filme cujo argumento e, muito lamentavelmente, quase todos os aspetos técnicos tendem para a exaustão. Competentes, McGregor e Harris conseguem, ainda de forma apelativa, explorar as fragilidades que atingem vários casais contemporâneos, mesmo que bem sucedidos profissionalmente. Em simultâneo, Harris, que interpretou Eve Moneypenny nos últimos dois filmes da saga 007 (dirigidos pelo eloquente Sam Mendes), parece oferecer algum equilíbrio à interpretação quiçá nervosa de McGregor, que surge pouco confortável no género, afinal é no drama que tem sido aplaudido. Entretanto, Lewis, ator conceituado de séries de TV como Homeland e Billions, consegue mostrar as suas habilidades como agente secreto, escapando de algumas convenções atribuídas aos titulados ‘bons’ da fita. Vemo-lo, evidentemente, como o mais humano dos retratos, e por ser aquele tipo de personagem em que ninguém consegue confiar a cem porcento. Primorosamente, é  reconhecível  o esforço do ator para chamar a atenção dos estúdios que produzem as aventuras de James Bond, a fim de que consiga seguir as pisadas de Daniel Craig – o próprio já afirmou que teria todo o gosto de interpretar o agente criado por Ian Fleming.

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O mesmo não se poderá dizer de Stellan Skarsgård, com um desempenho forçado, perdendo-se na tentativa de falar melhor inglês com sotaque russo desprovido, tanto sarcástico quanto mórbido. É lamentável observar um ator de um certo calibre, que ofereceu uma curta, mas assombrosa transformação em The Girl with the Dragon Tattoo, de David Fincher, a não ter muita margem de manobra no cinema mainstream. Quase todas as suas personagens (destaque para Erik Selvig do Universo Marvel) tendem para um misto entre drama e comédia que nem sempre conquista a audiência. A valer as suas expressões parecem sempre forjadas, com excepção dos minutos finais do filme.

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A nível da realização, Susanna White que dirigiu Nanny McPhee e o Toque de Magia (2010), pretende, como já indicado, aproveitar-se da influência de outros filmes do que em ser realmente original. O seu olhar é competente, mas genérico, a par da fotografia de Anthony Dod Mantle, aclamado pelo seu trabalho em Quem Quer Ser Bilionário (2009), que salienta cores mais frias, mesmo em cenários que as contradizem. No argumento pode Hossein Amini pode manter o espetador a ansiar sempre por mais alguma coisa, mas só no final é que consegue transmiti-lo. É que, a documentação tão comentada no ecrã parece, por mera e incrível coincidência, uma referência aos Panama Papers, esse recente escândalo das contas offshores, que permitiu finalmente derrubar o mundo das avultadas transações em paraísos fiscais e que envolveu várias líderes internacionais e celebridades, inclusive algumas do mundo da sétima arte.

Outra coincidência, será o Brexit, e uma chamada de atenção que o filme trespassa, quando em plano geral filma alguns edifícios da cidade londrina, vista ainda como porto de refúgio para muitos cidadãos que buscam metamorfosear a sua identidade. Afinal, até que o filme inspirado na obra de John Le Carré, com suporte nas intrigas da Guerra Fria, consegue projetar-se para este presente, predizendo alguma coisa. De facto, embora não atinja facilmente o espetador, Um Traidor dos Nossos servirá para comprovar como o cinema não toma diretamente um lado (não escolhe entre o Ocidente e o Oriente), mas examina objetiva e efusivamente certas realidades que precisam de ser trazidas ao de cima, custe o que custar.

Um Traidor dos Nossos

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O MELHOR: Damian Lewis e Naomie Harris. 

O PIOR: O argumento prefere seguir uma herança segura dos filmes de espionagem, sem nunca impor um terreno certeiro de originalidade. 


 

Título Original: Our Kind of Traitor
Realizador:  Susanna White
Elenco: Ewan McGregor, Stellan Skarsgård, Damian Lewis e Naomie Harris
NOS | Thriller | 2016 | 108 min

Um Traidor dos Nossos

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VJ

 

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