Venice Sala Web | Una Hermana, em análise

Uma jovem desaparece numa província da Argentina e a sua irmã tenta desesperadamente encontrá-la num dos melhores filmes da Biennale College, Una Hermana. Tal como todos os filmes presentes no Venice Sala Web, esta obra foi exibida no Festival Internacional de Veneza e está, de momento, disponível no Festival Scope.

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Há quem defenda que o cinema, na sua forma mais pura e poderosa, é uma máquina de empatia, uma ferramenta de expressão artística que nos permite experienciar, como nenhum outro meio consegue, a vida de outras pessoas. Ignorando muitos contra-argumentos formalistas e outras questões levantadas por essa afirmação, há que admitir que, por vezes, encontramos filmes que nos abrem janelas para realidades alheias das quais temos uma enorme distância, e assim nos dão a oportunidade de tentar entender a vida da perspetiva de outrem. Una Hermana é um filme em que essa janela se abre sobre Alba, uma jovem que vive numa parte provinciana do interior argentino. Quando o filme começa, a sua irmã desapareceu sem deixar rasto e ela vai tentando encontrá-la ou, pelo menos, forçar as autoridades a não esquecer o caso da desaparecida Guadalupe, cujo filho fica aos cuidados da avó e Alba e que passa a maior parte do filme num chamamento, nunca respondido, pela sua mãe.

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Por muito chocante que nos possa parecer, este tipo de desaparecimento constitui algo horrivelmente comum na Argentina contemporânea, sendo que foi precisamente a monstruosa quantidade destes casos que motivou as realizadoras Verena Kuri e Sofía Brockenshire a abordarem o tema em Una Hermana. Aqui, a desesperada busca levada a cabo por Alba é uma luta implacável contra a indiferença generalizada. As suas discussões com várias entidades burocratas lembram uma versão menos grotesca do Processo kafkiano, e nem a sua exaltação parece obter mais do que um olhar reprovador e mais uma mostra de desumana falta de interesse no desaparecimento de uma jovem. Chegamos a um ponto, em que até a audiência não vê propósito ou racionalidade na busca de Alba, sendo que a atmosfera de conformidade e resignação já se enraizou no mundo do filme e no próprio espetador, que observa, passivo, o modo como Alba vai perdendo a esperança.

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Para estabelecerem o mundo em que o filme decorre, as cineastas escolheram uma estética bastante realista, mas pontuaram a narrativa e a estrutura com pormenores que sugerem algo fora desta realidade, um limbo entre a materialidade física e o etéreo irreal dos nossos desejos e sonhos. Um perfeito exemplo desta abordagem é o local onde toda a trama se desenrola. Ao invés de escolherem um centro urbano ou se focarem no burburinho de uma comunidade ameaçada, Kuri e Brockenshire situaram o seu filme em matas, descampados e casas dispersas à volta de uma linha de comboios por onde praticamente nada circula. Estes espaços são quase não-lugares, ambientes de transição ou indefinição onde não esperaríamos que ninguém habitasse de forma permanente. A atmosfera de incerteza e mistério alimenta-se desta ambivalência existencial no cenário, criando uma incerteza e insegurança que permeia por todo o filme como uma névoa grossa. Quando Alba numa noite não consegue encontrar Mateo, quase dá para imaginar que o menino se tenha simplesmente esfumado na névoa.

Esses toques de estranheza, atingem a sua apoteose em duas figuras, a de um caçador, que testemunha o arder de um carro que, mais tarde, descobrimos ser a viatura que Guadalupe guiava quando desapareceu, e a própria jovem ausente. Ele é sempre visto nas matas e campos locais, acompanhado por dois galgos, quase como um silencioso espírito que circula a terra dos vivos sem nunca interferir, enquanto ela se manifesta em passageiros sonhos de Alba ou, num eletrizante final, numa materialização que nunca sabemos se é mágica ou apenas uma manifestação dos desejos da sua irmã arrebatada pela mágoa e pela angústia.

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Esse final é algo inesquecível, mas nunca trai a premissa de um mistério de impossível solução ao estilo de Peter Weir. Aliás, é exatamente na reticência que Una Hermana marca a sua posição como um filme onde o desaparecimento não é a força motriz, mas sim a triste aceitação de que talvez não haja nada a fazer. Por vezes, vislumbramos um corpo no meio das ervas ou vemos rasgos de falsidade no discurso de testemunhas, mas o nosso conhecimento é tão limitado como o de Alba. Isto porque, Una Hermana é um estudo sobre Alba, sobre o seu desespero face à realidade aonde está presa, uma vida confinada a um local de transição onde nada acontece.

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Numa memorável ocasião, Alba vai até um clube noturno sozinha e aí o filme parece soltar-se finalmente do desespero. Por momentos, o som torna-se amorfo e a banda-sonora ganha uma excitante intensidade, as cores e as luzes vibram e transmutam a atmosfera sombria em algo mais suportável, algo onde há hipótese de prazer e esquecimento da dor. Mas, como num sonho, Alba e a audiência têm de acordar e regressar a um mundo, onde Guadalupe nunca voltará a ser mais que uma memória ou uma lenda local, e onde Alba está presa num estado de desesperante inércia. Una Hermana não é, como se pode constatar, um filme agradável ou feliz, mas é uma experiência de grande precisão cinematográfica e comovente tragédia.

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O MELHOR: Depois de ter encontrado Mateo na escuridão da noite, Alba anda com ele na rua e, quando a sua face está encoberta pela sombra, ela chora. Antes que a luz revele o seu sofrimento ela para, pois o sobrinho também começou a chorar. Sem nunca transgredir a dignidade de Alba, o filme captura assim um momento de devastadora dor e vulnerabilidade.

O PIOR: Com tantos filmes a serem criticados por terem durações excessivas é um estranho prazer poder apontar a brevidade como uma fragilidade. Não é que isto seja um grande problema, mas mais vinte minutos poderiam ter dado tempo para se desenvolver mais o ambiente familiar e algumas das personagens periféricas a Alba.


 

Título Original: Una Hermana 
Realizador:  Sofía Brockenshire, Verena Kuri
Elenco: Sofía Palomino, Adriana Ferrer, Saúl Simonet, Sebastián Carbone
Festival Scope | Drama, Mistério | 2016 | 68 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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