Veneza 74 | O monstro de Del Toro comeu o Leão

O realizado mexicano Guillermo del Toro ganhou o Leão de Ouro por ‘The Shape of Water’. Um dos grandes vencedores desta Veneza 74, foi o francês Xavier Legrand, com ‘Jusqu’a la Garde’, que ganhou Leão do Futuro e Melhor Realizador. O israelita Samuel Moz com ‘Foxtrot’ ganhou o Grande Prémio do Júri. Surpreendente a vitória de ‘Nico, 1988’, da italiana Susanna Nicchiarelli, na secção Orizzonti.

A Mostra de Veneza, parece ter um apreço especial nos últimos pelos cineastas latino-americanos e sobretudo pelos mexicanos: depois de Alfonso Cuarón com Gravity em 2013, Alejandro González Iñárritu com Birdman em 2014 — ambos ganharam vários Óscares depois de terem passado por Veneza —, e Amat Escalante com A Região Selvagem em 2016, Guillermo del Toro tornou-se o quarto realizador a ser premiado em Veneza, depois de no ano passado o estreante realizador venezuelano Lorenzo Vigas (Desde Allá) ter ganho o Leão de Ouro e o argentino Pablo Trapero (O Clã), o Prémio de Realização.

VÊ O TRAILER DE ‘THE SHAPE OF WATER’

The Shape of Water, a fantasia poética sobre um monstro caído de amores por uma simples e silenciosa rapariga era um dos filmes favoritos — não para todos — pois esteve sempre muito bem classificado nas tabelas do público e crítica, publicadas diariamente no especial da revista Ciak. Portanto, o Leão de Ouro para The Shape of Water não surpreende, embora houvesse candidatos muito melhores, mesmo sem serem filmes de autor. Só que os jurados da Mostra de Veneza, presidido este ano por Annette Bening, pareceram novamente não ter receio de premiar filmes para o grande público e que tem chegado à corrida aos Óscares, como vai suceder certamente com The Shape of Water, vencedor do Leão de Ouro 2017 e que vai estrear brevemente nas salas de todo o mundo, incluíndo as salas nacionais.

VÊ O CLIP DE ‘FOXTROT’

No entanto, nem só o cinema de grande público é premiado em Veneza: o Leão de Prata, o segundo mais importante na hierarquia dos prémios    Grande Prémio do Júri  foi para Foxtrot, um surreal filme de guerra do israelita Samuel Maoz, que ganhou o Leão de Ouro 2009, com Lebanon. O actor-realizador francês Xavier Legrand conseguiu uma excelente dobradinha com o seu primeiro filme Jusqu’à la Garde, — uma realista história de um casal em processo de divórcio que luta pela tutela do filho menor — que ganhou o Prémio de Melhor Realizador, e com outro júri diferente o Leão do Futuro Luigi de Laurentiis para a Melhor Primeira Obra. 

VÊ O CLIP DE ‘HANNAH’

Quanto às Taças Volpi, que premeiam as interpretações dos actores: Kamel El Basha, pelo filme libanês The Insult, de Ziad Doueiri, sobre um massacre esquecido nos conflitos no Médio Oriente; e para Charlotte Rampling, na silenciosa e sofrida protagonista de Hannah, do italiano Andrea Pallaoro, e em mais um momento de emoção e consagração na noite dos prémios para a veterana actriz. 

VÊ O TRAILER DE ‘THREE BILBOARDS OUTSIDE EBBING, MISSOURI’

O Prémio de Melhor Argumento foi com muita justiça para britânico Martin McDonagh por Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, um filme protagonizado por Frances McDormand, o mais favorito de todos — público e crítica eram unânimes, o que é raro — que merecia efectivamente um prémio maior. O Prémio Especial do Júri foi para Sweet Country, um inspirado western do realizador australiano Warwick Thornton, sobre a descriminação dos aborígenes, nas suas terras de origem. O Prémio Mastroianni para o Melhor Actor Revelação foi para o jovem Charlie Plummer, protagonista de Lean on Pete, a história de amizade entre um cavalo e um rapaz. 

VÊ O TRAILER DE ‘NICO, 1988’

O realizador italiano Gianni Amelio, presidente do júri da secção Orizzonti, dedicada como é habitual aos filmes que representam as novas tendências do cinema mundial, anunciou como vencedor Nico, 1988, de Susanna Nicchiarelli, o filme de abertura desta secção e um excelente road­movie sobre os últimos anos de Christa Päffgen, a multifacetada modelo, cantora e actriz, mais conhecida como Nico, ex-vocalista dos Velvet Underground e musa de Andy Warhol, fabulosamente interpretada pela actriz dinamarquesa Trine Dyrholm (Urso de Prata 2016 em Berlim), e considerada uma das melhores actrizes europeias.

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Prémios Veneza 74

Competição

Leão de Ouro

The Shape of Water – Guillermo del Toro (EUA)

Grande Prémio do Júri

Foxtrot – Samuel Maoz (Israel/Alemanha/França)

Leão de Prata para Melhor Realizador

Xavier Legrand – Jusqu’à la garde (França)

Prémio Especial do Jurado

Sweet Country – Warwick Thornton (Austrália)

Taça Volpi para Melhor Actriz

Charlotte Rampling – Hannah (Itália/França/Bélgica/EUA)

Taça Volpi para Melhor Actor

Kamel El Basha – The Insult (Líbano/França/Bélgica/EUA)

Prémio de Melhor Argumento

Martin McDonagh – Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (Reino Unido/EUA)

Prémio Marcello Mastroianni para Melhor Actor/Actriz Revelação

Charlie Plummer – Lean on Pete (Reino Unido)

Leão do Futuro – Prémio Luigi de Laurentiis para Melhor Primeira Obra

Jusqu’à la garde – Xavier Legrand

Orizzonti

Melhor Filme

Nico, 1988 – Susanna Nicchiarelli (Itália/Bélgica)

Melhor Realizador

Vahid Jalilvand – No Date, No Signature (Irão)

Prémio Especial do Júri

Caniba – Véréna Paravel, Lucien Castaing-Taylor (França)

Melhor Actriz

Lyna Khoudri – Les Bienheureux (França/Bélgica)

Melhor Actor

Navid Mohammadzadeh – No Date, No Signature (Irão)

Melhor Argumento

Dominique Welinski, René Ballesteros – Los versos del olvido (França/Alemanha/Países Baixos/Chile)

Melhor Curta-metragem

Gros chagrin – Céline Devaux (França)

Venezia Classici

Melhor Filme Restaurado

Come and See – Elem Klimov (URSS)

Melhor Documentário sobre Cinema

The Prince and the Dibbuk – Elwira Niewiera, Piotr Rosolowski (Polónia/Alemanha)

Venice Virtual Reality

Best VR

Arden’s Wake – Eugene YK Chung (EUA)

Best Experience

La camera insabbiata – Laurie Anderson, Huang Hsin-Chien (EUA)

Best Story

Bloodless – Gina Kim (EUA)

José Vieira Mendes (em Veneza)

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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