Veneza em Casa | The Staggering Girl

Este ano, Luca Guadagnino compete em Veneza com “Bones and All,” um romance canibal protagonizado por Timothée Chalamet e Taylor Russell. Enquanto antecipamos essa nova obra, vamos recordar um trabalho singelo do cineasta italiano. Em 2019, Guadagnino assinou uma curta-metragem estreada em Cannes e distribuída pela MUBI. “The Staggering Girl” conta com Julianne Moore e Mia Goth nos papéis principais.

O cinema e a moda há muito dançam uma coreografia de cautelosa colaboração. O grande ecrã pode influenciar as passerelles, mas também é moldado pelas tendências. Isso é especialmente evidente quando o efeito pretendido é um sonho de glamour. Dito isso, a relação destas artes pode transcender o jogo de influências, chegando aos limiares da sinergia de criativos trabalhando juntos com objetivo comum. Pensemos na encenação cinematográfica com que Alexander McQueen montava seus desfiles, ou o modo como Tom Ford passou de designer a realizador.

the staggering girl critica veneza em casa
© MUBI

Um artista de paixões epicúrias, Luca Guadagnino sempre se interessou pela expressividade da roupagem perante a câmara. Muitos dos seus primeiros projetos trabalhavam numa plasticidade onde várias escolas artísticas podiam comungar, desde a performance até à instalação, passando pela moda. Mais do que histórias, seus filmes exploravam atmosferas e sensações, uma ideia abstrata de estilo rarefeita em sublimado desejo. Para esse efeito, Guadagnino colaborou com muitos artistas de sensibilidade semelhante, inclusive estilistas feitos figurinistas.

Esta ligação entre mundos criativos depressa levou ao trabalho com casas de moda sedentas por aliar a arte e o comércio no imaginário do realizador. Em 2005, iniciou-se uma relação com a Fendi e, anos depois, veio a criação de uma agência especializada na promoção de marcas de luxo. Já fez Guadagnino parceria com a Louis Vuitton, foi júri num Fashion Film Festival, e até assinou documentários sobre Salvatore Ferragamo. Neste paradigma, “The Staggering Girl” emerge como a interseção do cineasta com a Valentino, concebendo toda uma curta inspirada e vestida na sua coleção Outono/Inverno de 2018.

Aqui nos deparamos com um conflito de intenções e aparências. Guadagnino apresenta seu filme como um projeto cinematográfico que existe por sua mesma valia, um objeto de arte ao invés de um anúncio. Contudo, os críticos mais ferozes questionam essa asserção, acusando o cineasta de ter concebido nada mais nada menos que publicidade pretensiosa, elevada a píncaros de custo e indulgência por um elenco de luxo e equipa técnica a condizer. Sendo cinema, um vídeo promocional ou um editorial de revista em movimento, “The Staggering Girl” fascina.

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Julianne Moore é Francesca, uma escritora Italo-Americana que vive em Nova Iorque mas viaja até Roma ao encontro da mãe idosa e cega, interpretada no presente por Marthe Keller. A vista vacilante atormenta a senhora, outrora uma pintora que agora vê a arte sumir da vida – um sentimento de perda que cobre toda a história como uma mortalha. Na odisseia rumo à casa de infância, Francesca depara-se com vários homens – pai, amante e servo – todos eles interpretados por Kyle MacLachlan. Neste mundo feminino, toda a figura masculina é uma não-entidade definido pela sua função ao invés da sua pessoa.

Esse truque de casting logo nos indica uma natureza sonhadora, como se Francesca vivesse numa dimensão onde realidade e fantasia andam de mãos dadas. Tal tom onírico é reforçado pelas aparições de KiKi Layne como uma misteriosa mulher vestida em cores vivas, sempre incongruente e sempre silenciosa. Também o passado e o presente se entrelaçam, memórias rompendo pelo quotidiano da escritora e trazendo os fantasmas da adolescência à mundanidade adulta. Mia Goth interpreta a versão mais nova de Julianne Moore nestes flashbacks esfarrapados.

“The Staggering Girl” assim explora o assunto da recordação através da expressividade do celuloide, diluindo os caminhos temporais até que tudo se resume a um fluxo continuo de sensualismos. O argumento de Michael Mitnick é pouco que mais que um esqueleto orientador, pejado de clichés de cinema festivaleiro que só servem para contextualizar os jogos formalistas de Guadagnino. Ryuichi Sakamoto dá acompanhamento musical com uma banda-sonora hipnótica, enquanto Sayombhu Mukdeeprom traz um beijo outonal à imagem granulosa. No meio de tudo isto, iríamos ao ponto de nomear as peças de Valentino como o ponto fraco da fita.

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© MUBI

Apesar de serem a razão para a existência desta curta, as roupas consomem demasiado a atenção do espectador, dominando toda a composição como se cada fotograma tivesse sido concebido em função da exibição estilística. Tal submissão face ao afazer de vender roupa drena algum poder a “The Staggering Girl,” cujos mistérios se abatem sob o peso da passerelle. É claro que nada disso nega a beleza do projeto, suas luxuriantes visões e sons, seu elenco belíssimo e talentoso. No final fica a questão: “A obra funciona melhor como cinema ou publicidade?” – cabe a cada espetador fazer esse julgamento e decifrar as ambivalências, as frustrações e encantos aqui reunidos.

Podes encontrar “The Staggering Girl,” em streaming, na MUBI.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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