Veneza 73 (Dia 6): El Ciudadano Ilustre atiça o Leão

O filme argentino ‘El Ciudadano Ilustre’, da dupla Gastón Duprat e Mariano Cohn, uma comédia negra sobre um escritor que regressa às suas origens, é uma pequena obra-prima nesta competição.

El Ciudadano Ilustre

Ninguém é profeta na sua terra é um velho ditado popular que serve de leitmotiv a El Ciudadano Ilustre, uma comédia inteligente, protagonizada por um dos mais conhecidos e melhores actores argentinos: Oscar Martínez (Relatos Selvagens, El nido vacío) e portanto temos obviamente uma grande interpretação. A equipa de El Ciudadano Ilustre, não tem na verdade grande historial no cinema de autor, nem festivais internacionais, pois a dupla de produtores e realizadores, Gastón Duprat e Mariano Cohn, são mais conhecidos por serem os responsáveis por um dos projectos audiovisuais mais inovadores do seu país: a Television Aberta; e pelo filme El Artista (2008), um curioso drama sobre um cuidador de idosos, aspirante a intelectual, que circulou pelas mostras latino-americanas europeias. E como o simples se pode tornar uma forma de generosidade artística — diz-se num dos diálogos deste filme , assim o é El Ciudadano Ilustre, um filme sóbrio com um argumento eficaz de Andrés Duprat, — como aliás a maioria dos filmes argentinos  — que dá corpo a uma comédia genial, que tem de ser levada muito a sério — foi muito aplaudida na sessão de imprensa na competição Veneza 73, ainda mais com Sam Mendes na  liderança do júri oficial.

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Um cínico escritor argentino Daniel Mantovani (Oscar Martínez) — curiosamente com um carácter que poderia ser misto de Saramago com António Lobo Antunes — vive na Europa há trinta anos e tornou-se famoso não só pelas suas obras, mas por ter ganho um Prémio Nobel da Literatura. Pôs-nos a pensar como foi quando Saramago, que vivia em Lanzarote, regressou à Golegã, depois de alguns anos de ausência?

el ciudadano ilustre

Os famosos romances de Mantovani — curioso apelido tirado de de um dos compositores clássicos, mais popular da história da música — descrevem a realidade de Salas, uma pequena vila não muito longe de Buenos Aires, onde o escritor cresceu, mas onde nunca mais foi desde que se foi embora para a Europa. O Município de Salas convida-o a regressar para lhe atribuir a mais alta condecoração do país: a Medalha de Cidadão Ilustre. A viagem que à partida prefigura-se como um retorno triunfal às suas origens e ao seu país natal, transforma-se primeiro num regresso nostálgico ao passado para reencontrar amigos, admiradores, velhos amores e as paisagens do interior, que marcaram a sua infância. E igualmente uma viagem ao coração da escrita de Mantovani, à sua verdadeira fonte de inspiração, nos seus romances escritos à distância. Uma vez em Salas, o escritor acaba por confirmar afinal as poucas afinidades que o ligam à sua terra, transformando-se pouco a pouco num elemento estranho às questões da vila, um microcosmos do seu País. A calorosa recepção dos seus conterrâneos vai desaparecer rapidamente substituindo-se por conflitos, que revelam visões incompatíveis do mundo.

El Ciudadano Ilustre

Por um lado vê-mos a visão do protagonista, um escritor que viveu no estrangeiro durante décadas; por outro a dos seus compatriotas, que têm uma posição nacionalista e conservadora e por vezes ridícula. O estilo de vida despreocupada deste escritor cosmopolita, confronta-se com a exaltação dos costumes locais do seu país e com uma sociedade que rejeita uma ideia de mudança. El Ciudadano Ilustre é uma comédia incómoda, cheia de ambiguidades, que persegue um jogo de identificação, obrigando-nos a ver a Argentina em frente a um espelho. Mas é sobretudo um filme que revela vários temas universais e contemporâneos: o conceito de cultura e o seu financiamento, a liberdade de expressão, a escrita, a arte e a crítica, o progresso e a corrupção, a vaidade e por vezes até a auto-indulgência de alguns artistas. Podemos igualmente adicionar tudo isto e em paralelo, a uma ferida aberta há muito no orgulho da Argentina: um país de grandes escritores, tendo entre outros ilustres um Jorge Luis Borges, mas que nunca ganhou um Prémio Nobel de Literatura. El Ciudadano Ilustre, apesar da sua aparente simplicidade é um filme sólido e grandioso e uma bela homenagem à cultura argentina, uma das mais importantes da América Latina, tanto na literatura como no cinema, feita através deste elegante e ficcionado protagonista chamado Daniel Mantovani.

JVM (em Veneza)

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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