Veneza 73 (Dia 9) | Jackie, Uma Princesa Americana

‘Jackie’ é um retrato de uma mulher e de um mito, feito pelo olhar do chileno Pablo Larraín, num filme a concurso, que transformou a bela Natalie Portman na misteriosa e icónica viúva do Presidente Kennedy.

Depois do biopic sobre Neruda, estreado na última Berlinale, o chileno Pablo Larraín (O Clube) apresentou aqui em Veneza 73, esta obra intitulada Jackie, a sua primeira incursão no cinema norte-americano. Trata-se de um projecto muito ambicioso que decerto vai ter grande repercussão internacional e uma aposta forte na carreira do premiado realizador latino-americano. A ideia de Larraín não foi regressar ao biopic convencional, mas antes recriar os quatro de dias traumáticos de sofrimento e dor de Jacqueline Kennedy, imediatamente a seguir ao assassinato do presidente dos EUA, um acontecimento que mudou o mundo e a vida desta mulher misteriosa, uma espécie de ‘princesa sem coroa’, que se transformou num ícone da cultura americana e numa das mulheres mais fotografadas do século XX.

Jackie

De facto após o assassinato de Presidente Kennedy, a primeira-dama Jacqueline Kennedy ou Jackie, apesar das sua aparente superficialidade, teve que lutar com grande coragem e determinação contra a sua dor recuperar a confiança, consolar os filhos Carolina e John, ainda pequenos — e depois da morte dos dois primeiros filhos ainda bebés —  e não deixar esquecer o legado histórico e político do marido.

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Foram talvez os relatos da coragem e dignidade de Jackie, que fizeram com que Larraín, — que parece ter deixado para trás os seus traumas das ditadura chilena, mas não os ambientes conspirativos de repressão e mistério —  tivesse posto de lado a ideia de contar a vida inteira da ‘princesa da América’. Mas antes centrar-se no seu testemunho numa entrevista que deu alguns meses depois a um jornalista na sua casa de Massachusetts, sobre tudo o que se passou — no seu relacionamento com o staff do Presidente e o irmão Bobby — nos quatro dias seguintes ao fatídico 22 de Novembro de 1963, entre a Casa Branca e a Catedral de St. Matthew em Washigton D.C., onde foi o velório do presidente. E enquanto o ‘cinzento’ Lyndon B. Johnson acabava, como dita a Constituição Americana, se tornar no 30º Presidente dos EUA, sucedendo assim num clima sufocante de angústia a Kennedy.

Jackie

É neste clima que se desenvolve este drama intenso, razoavelmente interpretado por Natalie Portman, que apesar das aparentemente semelhanças, se esforça demasiado para se parecer com Jackie. Portman é na verdade a décima actriz nos últimos trinta anos a interpretar Jacqueline Kennedy — e quase todas com pouco êxito, dada era a complexidade de caráter e a sofisticação da imagem de Jackie — desde Jodie Farber em JFK de Oliver Stone a Katie Holmes na mini-série I Kennedy. Ao lado de Portman e também com competência está Peter Sarsgaard em Robert (Bobby) Kennedy — um figura fundamental na relação com Jackie e nos dias que seguiram à morte do irmão — e Caspar Phillipson, numa pequena aparição como Presidente Kennedy. Produzido por Darren Aronofsky, e com a direcção de fotografia de Stéphane Fontaine — costuma trabalhar com o francês Jacques Audiard — Jackie é um competente retrato de uma mulher inflexível, tão icónica como misteriosa, e um subtil ensaio sobre a fé, história, mitologia e perda, um filme que apesar das suas fragilidades interpretativas pelo a importância do tema, vai entrar quase de certeza na corrida aos Óscares 2017.

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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