MOTELx ’16 | De Palma, em análise

De Palma é um documentário sem muita inovação formal que, no entanto, é um inexorável êxtase de prazer cinéfilo, especialmente para quem for fã de Brian De Palma e dos seus controversos filmes.

de palma motelx

Já perto do final de De Palma, o cineasta titular afirma que, a seu entender, ele é o único verdadeiro herdeiro cinematográfico do legado de Alfred Hitchcock. Não é por acaso que o filme abre e fecha com cenas de Vertigo, um filme do grande mestre do suspense que Brian De Palma basicamente refez em Obsession, mas essa simetria estrutural dentro do documentário não torna menos alarmante a segurança do entrevistado na aceção da sua própria importância. É claro que, depois de mais de hora e meia a ouvir este provocateur americano falar da sua filmografia e posição em Hollywood, o espetador já não esperaria menos do desenvergonhado e genial De Palma.

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É possível que muitos espetadores em busca de uma análise profunda e multifacetada sobre o trabalho deste iconoclasta se sintam traídos por De Palma, mas este documentário nunca esconde que é, na sua mais pura essência, uma homenagem apaixonada ao cinema deste homem, cujas obras já vieram a causar tanta polémica ao longo das passadas cinco décadas. Aliás, uma das melhores decisões dos realizadores Noah Baumbach e Jake Paltrow é a sua exclusão de qualquer indicador da sua presença. Nunca os ouvimos perguntar nada ao mestre De Palma, de quem são ambos amigos, e toda a conversa está filmada de um modo tão direto, simples e desprovida de marcas estilísticas que quase temos a ilusão de que é para nós pessoalmente que o realizador de Carrie e Scarface está a falar.

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Essa decisão formal também permite que De Palma pareça ser algo próximo da autobiografia. Ao eliminarem-se a si mesmos da equação Baumbach e Paltrow depuraram o filme a algo imensamente simples, Brian De Palma a falar da sua carreira e a ilustração do seu discurso a partir de clips de filmes, fotos e o ocasional home movie, como é o caso de uma deliciosa filmagem de Steven Spielberg a desejar um feliz aniversário ao amigo no início dos anos 70. Assim, com as palavras e a perspetiva de De Palma no controlo total desta viagem pelos seus filmes, a falta de questionamento ou escrutínio sobre as suas afirmações, mais do que ser um exemplo de frustrante falta de empenho documental, revela-se como mais uma pincelada no retrato que De Palma está a, intencional e inadvertidamente, pintar de si mesmo enquanto cineasta, cinéfilo e pessoa.

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Note-se, por exemplo, como o discurso do realizador está pejado de curiosas contradições. A mais notória destas é a sua constante afirmação de que nunca tentou ir de encontro aos gostos das audiência e que o seu cinema sempre foi feito com outras intenções, algo que é paradoxal ao modo como De Palma está sempre a dar mais atenção às suas obras mais populares e financeiramente triunfais. Podemos, obviamente, alegar que isto é um truque da montagem, mas ninguém forçou o cineasta a caracterizar e avaliar, por várias vezes, os seus filmes com base na quantidade de dinheiro que eles fizeram. Isto diz muito, especialmente quando examinamos as informações que ele fornece sempre tendo em consideração que apesar das suas polémicas provocações cinemáticas, De Palma sempre foi um realizador americano a trabalhar no panorama de Hollywood. Não nos esqueçamos que, apesar de nunca ter tido o mesmo sucesso generalizado dos seus colegas, De Palma foi um amigo e contemporâneo de Spielberg, Scorsese, Coppola e Lucas, tendo todos eles entrado na indústria de Hollywood durante a era em que o cinema de autor e ideias vanguardistas tiradas do cinema europeu se tornaram, por alguns anos, uma presença habitual nas salas americanas.

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Não, as contradições no discurso de Brian De Palma não são nenhuma perniciosa e matreira obra de montagem. O que é, pelo contrário, o resultado direto dessa referida montagem é o ritmo alucinante a que o filme vai atirando montanhas de informação ao espetador. Baumbach e Paltrow nunca dão tempo à audiência de respirar, chegando mesmo a usar jump cuts para desbastarem o discurso do entrevistado de quaisquer pausas ou momentos de ponderação demorada. Isto poderia ter resultado numa catastrófica pilha de factos e opiniões de difícil assimilação e, consequentemente, um documentário frustrante, aborrecido e difícil de ver, mas isso não ocorre. O que acontece, na verdade, é que De Palma é um filme impossivelmente excitante e eletrizante para algo que é somente uma entrevista filmada de modo banal.

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Em termos de gramática cinematográfica e sofisticação formal, De Palma não é uma obra de particular mérito, sendo, no máximo das generosidades, eficiente. Por outro lado, o conteúdo que apresenta é como uma potente droga para cinéfilos interessados no trabalho de De Palma. Para fãs do realizador, ver este filme deve ser mesmo uma espécie de nirvana, um êxtase religioso ou uma overdose de prazer cinemático. Em conclusão, pode não ser uma obra revolucionária no panorama do cinema documental, mas De Palma é um dos mais essenciais documentários dos últimos tempos e é visionamento obrigatório para quem quer que, na sua vida, tenha apreciado ou se sentido fascinado por um filme de Brian De Palma.

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O MELHOR: Os detalhes inéditos que o filme nos oferece sobre os vários filmes assinados por De Palma, assim como sobre o seu pensamento acerca do cinema e Hollywood.

O PIOR: A falta de atenção aos anos mais tardios da sua carreira é entendível e justificado dentro do discurso do realizador, mas isso não deixa de ser um desapontamento.


 

Título Original: De Palma
Realizador:  Noah Baumbach, Jake Paltrow
MOTELx | Documentário | 2015 | 107 min

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