Os melhores guarda-roupas da TV | 6. Westworld

Em Westworld, a artificialidade dos figurinos é uma parte essencial do seu jogo de contrastes e mistérios entre o que é real e o que é irreal.

 


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Não será surpresa para ninguém, saber que os visuais de Westworld são uma parte integrante do seu jogo de dissimulação, artificio humanizado e mirabolantes reviravoltas narrativas. Afinal, quem estiver diabolicamente atento aos figurinos da série poderá, por exemplo, deduzir quem, de entre os vários trabalhadores do parque de diversões titular, é na realidade um robot, ou quem é uma versão mais nova de outra personagem. No entanto, tentaremos não revelar nenhum grande mistério nesta nossa exploração do guarda-roupa da série.

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Ao invés de nos desbocarmos em insolentes spoilers, tentaremos, pelo contrário, explorar o modo como os figurinos concebidos por Trish Summerville e Ane Crabtree criam um discurso visual paralelo e complementar ao pesadelo futurista edificado pelos criadores de Westworld. Para esse efeito há que se ter algo muito importante em consideração: O mundo de Westworld é um mundo artificial e, portanto, não é suposto ser apresentado como uma recriação exata do passado histórico do Oeste Americano. Afinal, estamos a falar de um parque de diversões povoado por robots – ninguém espera veracidade histórica quando passeia pela Frontierland nos parques da Disney.

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Ter isso em mente é importante porque os figurinos de Westworld têm muito pouco que ver com qualquer realidade histórica. Mais especificamente, as roupas envergadas dentro do Oeste fantasioso de Westworld devem muito mais ao legado deixado pelos clássicos do cinema western do que a qualquer tipo de investigação histórica. O vestido azul que Evan Rachel Wood veste no início da série, antes de o trocar por uma camisa e calças infinitamente mais práticas, está longe de ser uma peça de museu. Por outro lado, em termos dramatúrgicos, é um perfeito sinal de atraente inocência feminina. Afinal, o azul claro é há séculos uma cor associada à Virgem Maria – não estamos perante nenhum milagre de subtileza.

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Mas também, se formos sinceros, subtileza é a última coisa de que os criadores de Westworld estão há procura. É certo que a série tem muitos mistérios, como já referimos, no entanto, toda a sua construção formal brinca e depende do modo como a audiência lê e assimila a sua informação visual. Homens vestidos de preto dos pés à cabeça são vilões, homens de chapéu de cowboy branco são heróis, mulheres em corpetes coloridos adornados com renda preta e saias curtas são prostitutas, o jovem atraente e bem vestido é o herói e a donzela virginal vestida num charmoso traje azul é a rapariga destinada a acabar a história nos braços do herói.

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Pelo menos, é assim que as pessoas que visitam e criam o parque de diversões titular pensam, e é assim que nós, a audiência, estamos programados para pensar depois de uma vida a consumir cultura popular americana. Acusar estas soluções visuais de serem clichés é não entender o modo como Westworld joga com a perceção do seu público e os seus próprios preconceitos e ideias pré-formadas. Isto não são clichés, mas sim arquétipos conjugados de modo cortante e inteligente. Não têm nada de subtil e apresentam tanto realismo como os musicais de Gene Kelly, mas é precisamente aí que está o génio destas criações estilísticas.

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Como nota final, gostaríamos de destacar como o jogo de falsidade, artificio, e noções sonhadas de autenticidade se estende ao vestuário das pessoas que trabalham para o parque e seus visitantes. Reparem nos trabalhadores que constroem os robots e como suas pequenas idiossincrasias rompem com a uniformidade geral e revelam facetas inesperadas da sua personalidade e natureza, assim como o seu estatuto hierárquico. Tenham atenção às loucuras anacrónicas que alguns dos visitantes do parque de diversões – tal como Maria Antonieta se vestia em máscaras de camponesa em seda, renda e musselina delicada, também estas pessoas envergam fantasias fetichistas que apenas ilustram a sua desconexão das realidades que pretendem emular. Finalmente, delicia-te com as armaduras de samurai do último episódio de Westworld e junta-te a nós, enquanto esperamos ansiosamente pela próxima temporada.

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Depois desta viagem por um futuro distópico obcecado com a mitologia do Oeste Americano, na próxima página regressamos ao passado, para explorar as modas urbanas da Nova Iorque de 1976. Não percas!

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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