Aquarius, em análise

Sônia Braga brilha como nunca brilhou antes em Aquarius, o novo filme de Kleber Mendonça Filho que causou furor no festival de Cannes do ano passado.

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Antes de se dizer ao que quer que seja sobre Aquarius, o novo filme de Kleber Mendonça Filho, há que deixar algo bem claro: Sônia Braga é estupenda, fabulosa, divinal. A sua grandeza é tal que é difícil encontrarem-se adjetivos dignos de descrever a sua imensidão de talento, carisma e pura e dura presença de estrela de cinema. Apesar de já ser famosíssima há décadas, começando nos anos 70 com papéis como Gabriela e Dona Flor, e de ter inclusive conquistado aclamação crítica internacional em filmes como O Beijo da Mulher-Aranha, podemos afirmar com relativa justiça que a sua prestação em Aquarius como Clara é o píncaro artístico da sua carreira como atriz, um desempenho tão titanicamente soberbo que ainda é doloroso pensar como Braga saiu de mãos a abanar da Awards Season. Enfim, não há nada a fazer e, para além do mais, Aquarius não vive somente do trabalho luminoso de Braga. Curiosamente, o filme até começa sem ela.

Especificamente, Aquarius abre com um prólogo passado nos anos 80, aquando da festa de aniversário de tia Lúcia e é durante estas celebrações que conhecemos os dois elementos principais desta narrativa. Primeiro, temos Clara, uma jovem crítica musical com três filhos, que está a recuperar de cancro da mama. Em segundo lugar, temos a casa onde a ação decorre, pertencente a um bloco de apartamentos chamado Aquarius, situado no Recife. Definir um espaço como um elemento tão central a uma narrativa como a sua protagonista poderá parecer um pouco abusivo, mas, em seguimento de O Som ao Redor, Kleber Mendonça Filho continua a mostrar, com uma precisão reminiscente de Proust, como os espaços e objetos materiais com que vivemos se tornam em si recetáculos das nossas memórias, da nossa existência e do legado histórico do mundo.

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No prólogo, o realizador salienta isto com um dos momentos mais eletrizantes do cinema recente, quando a tia Lúcia vislumbra uma peça de mobiliário e a audiência é momentaneamente transportada para o palácio das suas memórias, onde vemos a mobília como o palco de um tórrido encontro sexual de uma juventude há muito passada. Uma singela cómoda torna-se assim num santuário de experiência humana e significado pessoal que, efetivamente, apenas tem valor para quem nela depositou esse significado. Esse tipo de ideias contrastantes, do valor humano contido no universo material e sua falta de valor objetivo vão representar uma das forças motrizes do conflito principal do filme.

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Saltando umas quantas décadas na direção do futuro, Aquarius mostra-nos Clara a viver no mesmo apartamento do prólogo, agora enviuvada e sozinha com os objetos que foi acumulando ao longo de uma vida enquanto proeminente figura crítica no mundo cultural e artístico. Depois de ter perdido o seu cabelo devido ao cancro, agora ela exibe uma cabeleira luxuriante que, juntamente com a sua geral postura e atitude, lhe confere uma sensualidade terrena e inegável, mesmo que figuras femininas na casa dos sessenta raramente tenham direito a ser vistas como criaturas sexuais no cinema moderno. Para além de tudo o mais, Clara é teimosa, orgulhosa e detentora de um sentido de superioridade intelectual que vem, em igual medida, da sua vocação como do tipo de elite intelectual e privilegiada de onde ela é originária.

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Efetivamente, esse privilégio, também manifesto a nível socioeconómico, é o que lhe permite resistir obstinadamente aos apelos e ataques da Construtora Bonfim, que recentemente comprou todos os apartamentos do Aquarius menos o de Clara. Eles querem deitar abaixo o edifício para no mesmo local construírem uma alternativa moderna e mais lucrativa, personificando o tipo de neocapitalismo que apaga as marcas da história humana em nome de uma falsa ideia de progresso económico e gentrificação. Clara, que passou a vida a lutar contra um regime ditatorial que a queria calar, não é nenhuma estreante no que diz respeito à resistência passivo-agressiva face a um poder hostil, cujas táticas incluem a vandalização do edifício e a organização de orgias noturnas às quais Clara responde com a contratação de um gigolo para a noite.

Seria fácil assumir que Mendonça Filho abordasse a figura de Clara como uma indiscutível heroína, mas o cineasta tem a sagacidade de evidenciar alguma ambivalência na apresentação da sua protagonista e respetivas ações. Veja-se, por exemplo, como a teimosia de Clara afeta os seus vizinhos que já venderam as casas e saíram do Aquarius mas quem enquanto Clara não capitular, não recebem o dinheiro prometido pela Construtora Bonfim. Para Clara, envolta no seu relativo privilégio, isso não é um problema, mas, para pessoas menos afortunadas, esse dinheiro não é algo menosprezável e o filme sublinha bem isso. De modo semelhante, a rebeldia obstinada da protagonista e a dor da morte do marido ainda criam barreiras entre ela e os filhos, um elemento narrativo que, nas mãos de outras pessoas poderia ser melodramático, mas aqui é simplesmente lacerante.

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Para além do mais, Clara é interpretada pela já muito elogiada Sônia Braga que, para além de conferir uma dignidade imperiosa à personagem, também lhe confere uma boa dose de abrasiva anti sentimentalidade. Se há uma característica de Clara que salta logo à vista na sua versão mais madura é certamente a fúria e indignação que, a todo o momento, parecem borbulhar debaixo da superfície da sua expressão calma. Quando a Bonfim finalmente vai longe demais, a explosão que há muito antecipamos é deveras magnífica e, num ato de genial contenção formal, o realizador simplesmente filme a face de Braga em grande plano pouco vistoso de modo a deixar que seja a sua energia e o veneno das suas palavras a realmente dominar o momento. Se formos honestos, é bem visível quão Mendonça Filho respeita e venera a atriz no centro do seu projeto. E é fácil entender porquê.

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Toda esta conversa sobre o trabalho de Braga e a narrativa edificada por Kleber Mendonça Filho podem sugerir um filme de desinteressante formalidade, mas a realidade não podia estar mais distante de tais banalidades. Na verdade, Aquarius é um pequeno milagre de exímia execução formal, com uma cenografia maravilhosamente sugestiva de vivência materializada em espaço habitacional, uma fotografia solarenga e sensual, uma banda-sonora simplesmente divinal e uma montagem que, através de transições elípticas e bizarras escolhas rítmicas, dá a Aquarius uma deliciosa idiossincrasia no panorama cinematográfico geral. Os momentos finais do filme são especialmente fantásticos na sua súbita rapidez e na fúria que vibra do ecrã e impacta a audiência como uma poderosa estalada.

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O MELHOR: Sônia Braga!!!

O PIOR: Toda a polémica em volta do filme desde a sua politicamente tumultuosa estreia em Cannes. Se quiseres saber mais, vem ler a nossa análise do filme na Awards Season.



Título Original:
Aquarius
Realizador:
Kleber Mendonça Filho
Elenco:
Sônia Braga, Maeve Jinkings, Fernando Teixeira, Barbara Colen, Allan Souza Lima
Midas | Drama | 2016 | 146 min

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Ana Rodrigues
Ângela Costa
Catarina d'Oliveira
Cláudio Alves
Daniel Rodrigues
José Vieira Mendes
Filipa Machado
Maria João Bilro
Marcos Mendes
Miguel Simão
Rui Ribeiro
Virgílio Jesus
 


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