A Idade das Sombras, em análise

A Idade das Sombras de Jee-woon Kim é mais um elegante triunfo do cinema coreano, desta vez no registo clássico de um drama de espionagem á moda antiga.

a idade das sombras

Normalmente, uma audiência ocidental que não esteja familiarizado com cinema coreano poderá olhar para um novo filme da Coreia do Sul com uma certa noção pré-concebida de alienação. Em suma, espera-se que haja uma considerável distância entre o espetador e a cultura presente no ecrã, especialmente quando falamos de um filme como A Idade das Sombras, onde a narrativa é explicitamente focada na História da ocupação japonesa da Coreia no século XX. No entanto, apesar de estar longe de merecer a desagradável categorização de “universal”, o novo filme de Jee-woon Kim é um drama de espionagem num modelo tão clássico, reminiscente do film noir, que será difícil encontrar algum espetador que pense neste projeto como algo demasiado exótico para consumo.

Para além do mais, A Idade das Sombras não é somente um fabuloso thriller centrado em espiões coreanos mas também um excitante filme de ação. Veja-se, por exemplo, a abertura da história, com uma venda ilícita que corre mal e despoleta uma desenfreada perseguição que inclui dezenas de polícias a saltar de telhado para telhado sob a luz da lua, uma confrontação dramática de antigos aliados e um clímax de uma violência tão gráfica que vai testar os estômagos de muitas pessoas. Saliente-se que esta bombástica sequência de eventos é apenas a introdução em que somos apresentados a Lee Jung-Chool, um investigador das autoridades japonesas que é de origem coreana e está secretamente a trabalhar como um agente duplo para as forças da resistência anti nipónica.

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A perseguição inicial mostra-nos também que alguém nessa organização revolucionária traiu os seus companheiros e é essa traição que vai propulsionar muito do enredo. Durante o resto do filme, estamos mergulhados num mundo de intriga e traições constantes, onde a dúvida é um estado mental permanente. Esse ambiente é proporcionado tanto pela história pessoal do agente duplo, como pela narrativa, mais processual, de Kim Woo-Jin, o jovem líder dos rebeldes que está a planear um ataque bombista saído de um filme de Tarantino ao mesmo tempo que é perseguido pelas forças japonesas e tenta descobrir a identidade do traidor com a ajuda de Lee Jung-Chool. Isto pode parecer um pouco convoluto e, honestamente, o filme é francamente confuso se o espetador não estiver a prestar constante atenção a todas as fugazes informações que são concedidas pelo meio dos inúmeros logros.

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A Idade das Sombras é, efetivamente, um projeto que exige muito empenho ao seu público mas, apesar da complexidade do seu enredo, até poderá existir um certo prazer em simplesmente aceitar rendição face à narrativa. Dizemos isto pois este é um thriller requintado, cheio de momentos a transbordar de sufocante tensão que não necessitam de um completo entendimento dos fatores em ação, pois, independentemente dos pormenores, é óbvio que as personagens estão em perigo. De certo modo, este tipo de experiência possibilitada, em grande parte, pelo exímio trabalho do realizador Jee-woon Kim, coloca-nos no próprio estado mental dos intervenientes. Um bom análogo cinematográfico é The Departed ou o filme de Hong Kong em que foi baseado, Infernal Affairs, onde a confusão do espetador pode ser parte do jogo de suspense.

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O mais glorioso exemplo deste tipo de espetacularidade e suspense ocorre, mais ou menos, a meio do filme quando Jee-woon Kim encena toda uma sequência de perseguição no interior claustrofóbico de um comboio em movimento onde, a certa altura, todos os rebeldes e polícias principais se encontram a apenas alguns passos uns dos outros. Desde o fausto da cenografia e figurinos, passando pelas sombras aguçadas da fotografia, a energia da banda-sonora e chegando até à magistral montagem, estes são dos vinte minutos mais excitantes que o cinema de 2017 terá para oferecer aos cinéfilos portugueses.

Apesar do filme nunca voltar a alcançar os rarefeitos píncaros de perfeição cinematográfica dessa sequência, A Idade das Sombras não está carente deste tipo de momentos altos. Relembramos a abertura explosiva, mas há também que mencionar um sangrento tiroteio que resulta na prisão de um dos agentes revolucionários, uma perseguição através das esqueléticas árvores de um bosque esfaqueado por iluminação dramática e o verdadeiro clímax da intriga, quando, ao som do Bolero de Ravel, o filme se deixa inebriar no seu próprio virtuosismo formal e oferece ao espetador um singular crescendo de suspense pontuado com um triunfo há muito antecipado. O melhor de tudo é que, apesar destas serem as ocasiões mais deliberadamente vistosas, cada momento do filme apresenta o mesmo tipo de brio formalista, mesmo uma simples conversa entre dois homens de negro no meio da neblina que parece fazer referência a The Third Man de Carrol Reed.

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Já muito elogiámos a ação excitante deste thriller e sua faustosa execução técnica, mas convém salientar que, ao mesmo tempo que é um drama de espionagem, A Idade das Sombras também constitui um poderoso estudo de personagem. Em parte, essas duas facetas são personificadas pelas duas personagens principais: Kim Woo-Jin o thriller de espionagem e intriga revolucionária, enquanto Lee Jung-Chool protagoniza o lado mais trágico do drama humano. Dito isto, é interessante ver como as abordagens dos atores, Yoo Gong e Kang-ho Song respetivamente, mostram abordagens ligeiramente contraintuitivas no que diz respeito ao seu papel dentro da estrutura do filme. Enquanto Song, uma superestrela do cinema coreano, telegrafa todo o seu conflito interior a partir de expressões tão subtis como claras, Gong esconde-se atrás de uma cifra de herói amoral mas devoto e, em momentos cruciais, torna-se numa figura completamente opaca, da qual é impossível tirar qualquer conclusão segura.

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Podem tratar-se de dois desempenhos peculiares, mas são fantásticos e inteligentes, tal como o resto do elenco. Ji-min Han, que dá vida a uma mortífera femme fatale sem recorrer a nenhum dos clichés habituais deste arquétipo, e Tae-goo Eom, como o severo e diabólico colega japonês de Lee Jung-Chool, são merecedores de particular destaque. Em suma, nem mesmo os atores mostram qualquer fragilidade na sua exímia execução de uma proposta dramática que, apesar de ter pouco de original ou inesperado (como já dissemos, é um thriller de espionagem clássico na tradição do film noir), merece ser valorizada pela sua eficácia e virtuosismo. Nesse sentido, A Idade das Sombras é o perfeito exemplo de um filme do cineasta Jee-woon Kim que, depois também de The Good the Bad the Weird e Eu Vi o Diabo, se está a tornar num dos melhores realizadores coreanos e cuja aparente especialidade é executar versões extremamente polidas de conceitos narrativos carentes de alguma originalidade, mas ricos em emoções fortes e reviravoltas explosivas. Resumidamente, é um filme a não perder!

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O MELHOR: Toda a execução formal é merecedora de apaixonado louvor, especialmente a cenografia que conjura uma visão simultaneamente visceral e elegante do tumultuoso passado da Coreia no início do século XX.

O PIOR: A já referida falta de originalidade subjacente a todo o projeto.



Título Original:
Mil-jeong
Realizador:
Jee-woon Kim
Elenco:
Kang-ho Song, Yoo Gong, Ji-min Han, Tae-goo Eom, Byung-hun Lee
Films4You | Ação, Drama, Thriller | 2016 | 140 min

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CA

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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