Baby Driver – Alta Velocidade, em análise

Óculos escuros, iPods e velocidade. Por outras palavras, um universo cool, boa música e brutais sequências de ação. Assim é Baby Driver – Alta Velocidade, o último filme de Edgar Wright. O realizador britânico ousou no conceito, mas viu os riscos recompensados.

Auscultadores nos ouvidos, chave na ignição. Vamos lá a isto. No campo do relacionamento interpessoal é referida algumas vezes a importância das primeiras impressões. Admitamos ou não, somos seres preconceituosos. Lemos os outros, e construímos a nossa visão com base no que nos é dado, associando em muitas ocasiões as pessoas a arquétipos que já conhecemos. Também por tudo isto há algo de tão excitante quando conhecemos alguém original. Sinal de que ainda há uma faixa desconhecida num disco riscado de monotonia. Algo por descobrir.

Falo de primeiras impressões porque Baby Driver – Alta Velocidade é o exemplo perfeito de como se deve iniciar um filme. O assalto ao banco em The Dark KnightGoodfellas e o barulho no porta-bagagens. O zoom out de Stanley Kubrick em Clockwork Orange. A solidão do pugilista no ringue em Raging Bull. E aquele interrogatório de Hans Landa em Inglourious Basterds. Vários exemplos de como agarrar o espectador nos primeiros minutos ou segundos, apresentando simultaneamente o tom do filme.

Baby Driver trio

É com Baby ao volante e três dos seus colegas a fazer um assalto que arranca Baby Driver. E na fotografia perfeita daquilo que Edgar Wright quis fazer temos: a importância da banda sonora escolhida (no caso “Bellbottoms” de Jon Spencer Blues Explosion), um protagonista com quem criamos logo empatia e uma fuga que serve de lição para quem queira filmar e editar perseguições de automóvel. A música de Baby é a nossa música, o que eleva o desafio que Wright colocou a si mesmo ao criar este conceito. Daí que a crítica já tenha considerado Baby Driver um musical de ação ou um videoclipe de quase duas horas. Com Queen, Simon & Garfunkel e Barry White. T.Rex e Kid Koala. The Beach Boys e The Commodores. Entre outros.

Mas, antes de continuar, vamos fazer marcha atrás. Baby (Ansel Elgort) é o condutor destacado para todos os esquemas arquitetados pelo cabecilha Doc (Kevin Spacey). O talismã dos assaltos de Doc conduz como ninguém, mas precisa sempre da música certa no dia-a-dia. A música, sua paixão (Was he slow?), serve para abafar o zumbido constante que ouve desde um acidente em pequeno.

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Baby Driver lily james

Ao fim de escassos minutos, não demoramos a antever que, dado o conceito do filme, das duas uma: correndo bem, será épico, e uma viagem de puro entretenimento e adrenalina; mas facilmente a abordagem pode revelar-se cansativa. Embora, no fundo, acabe por ficar no meio. Baby Driver não chega a ser épico, mas nunca cansa, entretendo e deixando de sorriso na cara quem pagou o bilhete.

A alta velocidade do quotidiano de Baby abranda substancialmente quando conhece Debora (Lily James), uma empregada que desperta nele a vontade de fugir a uma prisão e dívida que, afinal, é eterna. A relação entre Baby e Debora é um dos pontos frágeis do filme, que melhora quando as linhas de diálogo forçadas são substituídas por bastante tensão.

Há basicamente três diferentes “golpes” ao longo dos 113 minutos de Baby Driver. E é o último que reúne os players já antes apresentados em diferentes momentos. A equipa-maravilha formada por Buddy (Jon Hamm), pela sua namorada Darling (Eiza González), pelo explosivo e incontrolável Bats (Jamie Foxx) e por Baby. É justo afirmar que Baby Driver é tudo o que poderíamos esperar e mais alguma coisa até ao instante em que o último assalto começa a correr mal. Daí até ao fim, Edgar Wright dá-nos o pior período da sua sexta longa-metragem, revelando-se incapaz de rematar o filme com a qualidade que tivera até esse ponto.

Baby Driver Spacey

Tudo somado, não chega a ser frustrante. Baby Driver é uma proposta bem pensada e bem executada. O brilhantismo da transição entre cenas, um dos traços característicos da assinatura Edgar Wright, volta a evidenciar-se (tiremos o chapéu a Paul Machliss e Jonathan Amos) e não surpreende que a Sony queira uma sequela. Aliás, a abertura do realizador para dar resposta a esse desejo só reforça a noção de que o último quarto da narrativa é uma condução acidentada, sem certezas sobre o melhor destino possível.

Pela positiva, a personagem de Ansel Elgort é uma das melhores do cinema em 2017. Não tem a presença sofrida e misteriosa de Ryan Gosling em Drive (um daqueles filmes de culto instantâneos), mas é apaixonante e original. Confiante, tranquilo, dono de uma infinita coleção de óculos escuros e criador de remixes invulgares. Depois, numa opinião estritamente pessoal, é lamentável que Jon Bernthal não tenha uma presença mais significativa.

Baby Driver grupo

Os espectadores que valorizam muito o final na sua avaliação de uma obra, poderão ter dificuldade em esquecer algumas decisões questionáveis, como o papel de Doc na resolução. No entanto, observando o todo, Baby Driver merece que seja enaltecido o seu lado mais favorecido. Tem uma das melhores bandas sonoras (não originais) do ano, uma energia contagiante, e um humor e estilo consistentes. Desde a cabeça do realizador de Shaun of the DeadHot FuzzScott Pilgrim vs. the World à sala de montagem de Machliss e Amos.

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Acelerem para um cinema perto de vocês. Criticar Baby Driver é ser picuinhas. Devemos antes estar gratos por ter filmes destes numa fase do calendário civil que não costuma ser das mais famosas, e é cada vez mais raro vermos os grandes estúdios a terem a capacidade de confiar e arriscar num conceito novo, ao invés da reciclagem de remakesreboots instalada no setor.

Baby Driver – Alta Velocidade sabe o que é, e mostra-o bem cedo. Podem até não gostar de filmes de ação, mas neste casamento improvável de géneros é garantido que, sentados no banco de trás, vão gostar da viagem.

Trailer | Conduz com a música certa em Baby Driver – Alta Velocidade

Já foste ver Baby Driver – Alta Velocidade ao cinema? Que lugar ocupa para ti entre os filmes de Edgar Wright?

Baby Driver - Alta Velocidade

Movie title: Baby Driver - Alta Velocidade

Director(s): Edgar Wright

Actor(s): Ansel Elgort, Jon Hamm, Lily James, Kevin Spacey, Jamie Foxx

Genre: Ação, Crime, Música

  • Miguel Pontares - 80
  • Daniel Rodrigues - 75
  • Catarina d'Oliveira - 80
  • Maria João Bilro - 80
79

CONCLUSÃO

Baby Driver - Alta Velocidade apoia-se num conceito excitante e bem executado para nos oferecer uma peça de puro entretenimento, com um humor e estilo como só Edgar Wright sabe.

O MELHOR: As brutais sequências de ação, magnificamente editadas e sincronizadas com uma das melhores bandas sonoras do ano. Este Baby de Ansel Elgort pode ser um passo importante na carreira do ator e deve-se destacar ainda a sequência inicial, enérgica e contagiante.

O PIOR: O último quarto do filme é uma condução acidentada, sem certezas sobre o melhor destino possível. Seria bom, até pelo impacto que tem quando aparece, Jon Bernthal ter tido uma presença mais significativa e prolongada.

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Sobre Miguel Pontares

Licenciado em Comunicação Empresarial, estudou ainda Escrita de Argumento para Cinema e Televisão. É um dos autores do blog Barba Por Fazer.