O Fundador, em análise

Quando foi anunciado, O Fundador parecia ser o filme que ia finalmente ganhar a Michael Keaton o Óscar mas, entretanto, esses sonhos caíram por terra.

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Para a pequena interseção de pessoas que nutrem um interesse obsessivo com os Óscares ao mesmo tempo que são verdadeiros cinéfilos, devotos à maravilha que é a sétima arte, deverão existir poucos nomes mais odiosos que Harvey Weinstein. Juntamente com o seu irmão mais novo, Weinstein foi um dos fundadores originais da Miramax e, nos anos 90, revolucionou o mercado cinematográfico americano ao investir de um modo sem precedentes na distribuição de cinema independente. Efetivamente, muitos autores europeus e asiáticos devem a sua fama mundial à Miramax, apesar da venenosa interferência de Weinstein no seu produto final (chegou mesmo a reeditar filmes chineses antes de os distribuir). Enfim, apesar da sua fachada de santo padroeiro do cinema independente, a Miramax nunca deixou que interesses artísticos suplantassem preocupações mercenárias mas, interessantemente, não foi tanto a procura por lucro desmesurado que motivou muito do trabalho de Harvey Weinstein, mas sim a busca por prestígio.

Veja-se o modo como Weinstein foi lentamente conseguindo ganhar domínio dos Óscares, culminando em 1997, quando O Paciente Inglês varreu a cerimónia e inaugurou uma nova era na história da Awards Season, em que o cinema dito de prestígio se tornou rei. A ajudar a esta ascensão, estavam as campanhas promocionais selváticas que Weinstein organizou e que se tornaram tão intensas, abrangendo até o envio de cartas a difamar os outros filmes e artistas em competição para votantes da Academia de Hollywood, que os Óscares se viram obrigados a mudar as regras do jogo de 2001 para 2002. Isso não parou Weinstein, que consegiu vender a Miramax por completo à Disney e depois fundou The Weinstein Company. É maioritariamente a ele que devemos o grotesco modo de distribuição que reserva para os últimos meses do ano todos os dramas de prestígio para o público adulto, pois supõe-se que tais táticas sejam garantias da atenção da Academia.

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Esta introdução muito enfurecida sobre Harvey Weinstein é necessária para se falar de O Fundador pois, recentemente, este magnata das distribuidoras norte-americanas veio criticar os seus colegas pelas suas táticas mercenárias de distribuição, inclusive os padrões de estreias para a Awards Season que o próprio Weinstein criou. No cúmulo da hipocrisia, ele chegou mesmo a usar O Fundador como o exemplo das suas preocupações artísticas com o cinema, promovendo o filme como um rebelde da Awards Season que iria estrear no final do verão, ao invés de em dezembro para provar, de uma vez por todas que a Weinstein Company estava acima de tais mesquinhices e que o mercado cinematográfico americano se devia envergonhar das suas táticas irresponsáveis. No final, quando se apercebeu do potencial do filme que tinha em mãos, Weinstein esqueceu toda a sua pontificação moralista e mudou a sua data de estreia para a última semana de dezembro e, num rasgo de justiça kármica, o filme acabou a Awards Season de mãos completamente vazias.

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Numa primeira vista de olhos muito casual, tal destino poderá não parecer grande tragédia. Afinal, todo o projeto parece ser mais um daqueles filmes biográficos inspiradores cujo único propósito é celebrar a sua personalidade central e garantir umas estatuetas doiradas. Para muitos críticos, O Fundador não passou mesmo de um veículo falhado com o qual Michael Keaton estava a tentar finalmente ganhar o Óscar que Eddie Redmayne lhe açambarcou quando derrotou a prestação de Keaton em Birdman com o seu trabalho em A Teoria de Tudo. A realidade está bem longe de tais suposições mal-encaradas e, de facto, Keaton não teria sido um mau vencedor do galardão para o Melhor Ator de 2016.

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Em O Fundador, o ator, em tempos conhecido pelas suas façanhas cómicas, interpreta Ray Kroc, um vendedor de máquinas de batidos com o cérebro de um empreendedor na boa tradição capitalista americana que, um dia em 1954, depara-se com uma encomenda muito estranha que o leva a descobrir o restaurante dos irmãos McDonald em San Bernardino na Califórnia. Os dois irmãos, Mac (John Carroll Lynch) e Dick (Nick Offerman), desenvolveram o que é, na sua essência, o primeiro restaurante fast-food do mundo, onde qualquer ordem demora apenas segundos a ser completa devido a um sistema Fordiano emparelhado com um menu reduzido ao essencial – batatas fritas, um hamburger no pão e bebidas a acompanhar. Maravilhado com o que vê, Kroc convence os irmãos a lhe deixarem tornar a sua ideia num franchise e, durante o resto do filme, observamos como a McDonald’s se torna no famoso e gigante sucesso da restauração mundial ao mesmo tempo que Ray trai tudo e todos no seu caminho para o sucesso, acabando mesmo por roubar o direito do uso do nome aos próprios irmãos McDonald.

Ou seja, ao invés de fazer mais um biopic inspirador, o realizador John Lee Hancock e o argumentista Robert D. Siegel pegaram no esqueleto dessa fórmula cinemática e perverteram-no. Ao início, o filme segue todos os passos do filme biográfico do costume, com alguns toques de montagem idiossincrática como a magistral sequência em que a criação do primeiro McDonald’s é apresentada como um verdadeiro ballet do hamburger. No entanto, à medida que a história vai perdendo o brilho inocente e descomplicado do sonho americano em modo Rockwelliano, também a forma do filme se vai mutando, de uma celebração risonha a uma dissecação trágica da alma de uma nação onde o sucesso económico e a integridade moral há muito se parecem ter tornado inimigos mortais.

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O resultado nem sempre é elegante, sendo que, em particular, a crescente amorfia cronológica da estrutura rapidamente deixa de ser interessante para se tornar numa irritante mostra de incompetência técnica. O visual do filme também não é de muito valor, apesar de boas recriações históricas e a fotografia de John Schwartzman dificilmente seria mais sensaborona. Pelo que lhe compete, o compositor Carter Burwell tenta injetar interesse musical nos procedimentos narrativos, mas as suas contribuições raramente fazem mais do que distrair a audiência do drama humano em ação. Tudo isto pode parecer indicador de um poço de mediocridade com algumas ideias interessantes na sua base textual mas ainda não mencionámos um dos ingredientes principais desta receita cinematográfica, o seu elenco. E que elenco!

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Desde papéis secundários facilmente menosprezáveis à figura central da narrativa, O Fundador é o exemplo de um trabalho de casting impecável. De destacar estão Lynch e Offerman que tornam os irmãos McDonald’s num duo tragicómico que serve de âncora emocional a todo o filme, assim como Laura Dern que torna uma personagem muito subdesenvolvida num drama miserabilista de Ingmar Bergman contido num só corpo perdido entre uma narrativa maior. Mas, é claro, a verdadeira estrela é Michael Keaton que injeta tanto carisma na sua repugnante personagem que é difícil não o admirar ao mesmo tempo que testemunhamos a sua amoralidade crescer e a o consumir por inteiro. Parte herói incompreendido de Frank Capra, metade Charles Foster Kane, Ray Kroc revela-se como uma personagem diabolicamente apelativa que, não obstante todas as suas atitudes e escolhas, olha sempre para si mesmo como o epíteto desse tão elusivo conceito que é o sonho americano.

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O MELHOR: A prestação formidável de Michael Keaton, especialmente nas cenas mais tardias do filme, onde o ator recusa-se veemente a interpretar Kroc como um antagonista mas também nunca tenta limar as suas arestas mais aguçadas.

O PIOR: Esquecendo momentaneamente a figura de Harvey Weinstein, há que se apontar como, não obstante o bom trabalho das atrizes, Siegel não sabe escrever e não parece ter nenhum interesse em personagens femininas.



Título Original:
The Founder
Realizador:
John Lee Hancock
Elenco:
 Michael Keaton, Nick Offerman, John Carroll Lynch, Laura Dern, Linda Cardellini, Patrick Wilson
PRIS Audiovisuais | Drama, História | 2016 | 115 min

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