The Affair, terceira temporada em análise

The Affair concluiu a sua terceira temporada há algumas semanas. Infelizmente, a série parece ter perdido parte da sua alma neste novo capítulo. 

Aquando da sua estreia, The Affair demonstrou ser uma série verdadeiramente promissora. A ideia de explorar um caso extraconjugal e as suas consequências podia soar repetitivo. Porém, The Affair conseguiu ultrapassar este obstáculo através da estrutura que aplicava nos seus episódios. Em cada capítulo, o espectador teria a história relatada no ponto de vista dos dois protagonistas. Uma parte da narrativa era contada na perspectiva de Noah, e outra na perspectiva de Alison. O interessante era ver de que forma as duas versões se contradiziam, e descobrir onde é que estava a verdade naquilo que os personagens estavam a contar.

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A narrativa principal da primeira temporada esteve sempre estruturada com estas duas perspectivas. Mas para além disso, a série tinha um enredo secundário focado numa investigação criminal. Entre flashforwards e flashbacks, encontramos os dois protagonistas ora a viver o seu caso amoroso, ora a serem interrogados por um detective. Através destes questionários ficamos a conhecer o passado recente do casal, como é que o caso extraconjugal teve início e o que aconteceu às vidas de Noah e Alison entretanto. Eventualmente descobrimos também o crime que está a ser investigado. Um dos personagens da história morreu e levanta-se a questão: quem foi o culpado?

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A segunda temporada procura responder a essa pergunta, e é dessa maneira que o lado mais criminal e misterioso de The Affair permanece na narrativa. Continuamos a ter as duas versões de Noah e Alison, mas neste novo capítulo, temos direito a mais duas perspectivas, nomeadamente de Helen, a esposa de Noah, e Cole, marido de Alison. Esta adição fez todo o sentido e possibilitou uma maior dramatização da série. Para além de passarmos a conhecer melhor o lado das pessoas que foram traídas pelos seus cônjuges, é claro.

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No terceiro capítulo de The Affair, o caso que tínhamos acompanhado nas temporadas anteriores ficou resolvido e já não existe um culpado para encontrar. Portanto a grande questão que pairava no ar era: como é que a série irá continuar a sua história? A esperança era que a série acreditasse mais nos seus personagens. Que não tivesse medo de arriscar em continuar a narrativa sem estar dependente de uma linha narrativa secundária que iria aparentemente tornar tudo mais aliciante. O forte de The Affair sempre foi e sempre será os seus personagens. Quando a série se foca inteiramente neles, nos seus problemas, nas suas personalidades complexas, na maneira como as personagens se relacionam, ela atinge o seu auge.

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A terceira temporada da série do Showtime acontece alguns anos depois dos eventos da temporada anterior. Noah (Dominic West) saiu da prisão e está a tentar reorganizar a sua vida. Helen (Maura Tierney) não sabe se deve deixar Noah no passado e continuar com a sua vida junto do seu novo namorado, Vic. Alison (Ruth Wilson) está de volta a Montauk depois de estar internada numa clínica de reabilitação, e luta pela custódia da filha, Joanie. Cole (Joshua Jackson) encontra-se na melhor fase da sua vida. O seu negócio corre às mil maravilhas, tem uma família feliz junto de Luísa e de Joanie, mas o regresso da sua ex-mulher vai agitar a tranquilidade da sua vida.

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Um dos primeiros problemas com esta nova temporada, é o facto de não explorar devidamente a justaposição das perspectivas dos personagens. Nas temporadas anteriores, esta ideia estava tão bem conseguida, graças às incríveis interpretações dos atores e a uma excelente realização, que se tornava, por si só, altamente agradável de se ver. E neste novo capítulo, embora continuemos com vários pontos de vista (incluindo de personagens que não são assim tão relevantes, como Juliette), já não conseguimos fazer tantas vezes a confrontação das várias memórias. Isto porque os personagens estão mais distantes uns dos outros. Há momentos em que cada memória funciona individualmente. E por não termos uma segunda perspectiva dessa recordação, somos obrigados a acreditar que aquela é a verdadeira versão.

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Ainda assim, a série consegue manter-se cativante na sua componente dramática. Novamente, graças aos seus personagens. Quando a história se foca nas figuras de Alison e Cole, sentimos que a alma de The Affair ainda está viva e que a série ainda consegue mexer com as emoções do espectador. É doloroso ver como Alison se esforça por fazer parte da vida da filha. E é angustiante testemunhar como a morte do seu primeiro filho a afeta na forma como ela interage com Joanie. No lado de Cole, é impossível não sentirmos empatia pelo personagem nesta temporada.

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Ele surge nesta fase da história na sua forma mais humana e transparente possível. Cole tem uma vida de sonho. Mas a certa altura começa a pôr tudo em causa. E imagina como teria sido a sua vida se tivesse feito as coisas de maneira diferente. Por um lado, não conseguimos compreender como é que o personagem arrisca destruir tudo em seu redor por causa de memórias e sentimentos do passado. Mas por outro, sentimos uma certa empatia, porque somos humanos. E qualquer pessoa já se questionou a certa altura se tomou as decisões corretas na sua vida.

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Mas o drama de The Affair não fica por aqui. A jornada de Helen nesta temporada também é muito complicada de testemunhar. Mesmo depois de ter sido traída pelo marido. Mesmo depois de este a ter rejeitado. Helen continua a amar Noah, e a ser-lhe fiel. Se isto já era complicado de acompanhar, tudo piora quando vemos a representação de Helen nas memórias de Noah. O sentimento de pena e compaixão que se sente pela personagem é inevitável.

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Embora a série tenha conseguido manter uma réstia do seu potencial graças às histórias de Alison, Cole e Helen, a verdade é que esta nova temporada ficou muito aquém do que era esperado. Já referimos uma das falhas e agora está na altura de falarmos dos outros problemas que encontrámos na terceira temporada de The Affair. Este capítulo do drama focou-se demasiado em Noah. O que é surpreendente, já que de todos os personagens da história, ele é possivelmente o menos interessante. A série concentrou-se imenso na instabilidade do personagem assim como no seu processo de luto pela morte da mãe.

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Esta abordagem até poderia ter sido positiva para The Affair, caso os criadores não tivessem usado estes elementos para justificar as atitudes que Noah teve até agora na história. Parece que o seu passado e a morte da sua mãe servem de desculpa para tudo o que o personagem disse ou fez. E nós, espectadores, somos obrigados a sentir pena do protagonista e a perdoá-lo por causa disso? Não. Depois de termos visto um comportamento deplorável ao longo de duas temporadas, não é possível perdoarmos tudo só porque de repente o personagem se sente culpado pela morte da mãe. O que é curioso é que só agora, nesta fase da narrativa, é que esta questão do passado de Noah se tornou relevante. Se este era um elemento importante para o personagem, porque é que nunca tivemos nenhuma pista nas temporadas anteriores?

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Como praticamente tudo nesta temporada girou em torno de Noah, há duas personagens que surgem na história para favorecer o seu percurso na narrativa. Uma delas é a francesa Juliette, que até tem direito ao seu próprio ponto de vista na história. Embora esse perspectiva não tenha apresentado grande utilidade para o drama em geral. A outra figura é o guarda-prisional John Gunther, interpretado incrivelmente por Brendan Fraser (A Múmia). A introdução desta personagem na série remete-nos novamente para a questão da necessidade que The Affair sente de ter um enredo secundário misterioso e criminal.

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Gunther é um guarda que Noah conhece enquanto está a cumprir a sua pena. Curiosamente, descobre que ele e John são da mesma terra. Inicialmente parece que o guarda vai ajudá-lo no se dia-a-dia na prisão. Mas pouco depois, percebemos que Gunther tem uma estranha obsessão por Noah e acaba por atormentá-lo enquanto ele está preso. Quando o protagonista sai da prisão, sente que alguém o está a perseguir e desconfia imediatamente de John. Mais tarde, Noah acaba por ser esfaqueado na sua própria casa. Quem será o atacante? E assim The Affair volta a trazer a sua faceta criminosa e enigmática para a narrativa, quase por obrigação. Porque sem este elemento parece que os criadores não são capazes de ter uma história que progrida. Infelizmente, a resolução deste caso é totalmente previsível e não tem nem metade do impacto que possivelmente os criadores pretendiam.

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E agora perguntamos. Como será a quarta temporada? Será que The Affair não é capaz de construir a sua história dramática única e exclusivamente em torno das vivências dos personagens? Ou terá de incluir sempre um elemento extra para tornar a narrativa mais cativante? Mesmo que esse dito elemento não acrescente nada de positivo à série? The Affair tem sido uma série de enorme qualidade e excelência. A sua premissa sempre esteve no estudo dos personagens. E conseguiu fazer este estudo brilhantemente até agora. Mesmo que esta temporada tivesse sido mais turbulenta. A próxima temporada será o verdadeiro teste para The Affair. Esperemos que a série consiga reorganizar as suas ideias e regresse ao cerne do seu drama.

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the affairTítulo Original: The Affair
Criadores: Hagai Levi, Sarah Treem
Elenco: Dominic West, Ruth Wilson, Maura Tierney
Showtime | Drama | 2014 | 60 min

Ângela Costa
Beatriz Barroca
Filipa Machado
Joana Ferreira
Marcos Mendes
Miguel SImão
Rui Ribeiro
 


Filipa Machado

 

Filipa Machado

Licenciada em Estudos Artísticos e uma grande apaixonada (e viciada) por Literatura, Televisão, Cinema e, em especial, por Animação Japonesa.

4 thoughts on “The Affair, terceira temporada em análise

  • A primeira e segunda temporada foram excelentes, porém a terceira foi bem abaixo.
    Justificar as atitudes, a personalidade do Noah, no meu ponto de vista (rs), foi contra tudo que foi apresentado nas temporadas anteriores.
    Impulso, desejo, expectativas.. Relacionamento não possui manual, padrão, certo ou errado… Acredito que o objetivo de todos seja alcançar a felicidade, mas a essa é relativa para cada um.. a mistura de universos, ações, e consequências foi o que me atraiu na série.
    Quem não se encaixa em alguma parte da trama?
    Quem não se apaixona pelo amor é dedicação dá Helen?
    Que a quarta temporada recupere o caminho dessa excelente série!
    Abraço

  • Adorei seu comentário. Vc falou tudo o que eu estava pensando. Achei demasiadamente chato Noah, essa tal de Juliete muito sem graça! Amei o Cole, queria que ele ficasse com Alison… Mas entendi.

  • ESSE COMENTÁRIO CONTÉM SPOILERS. The Affair me decepcionou mais por não ter acabado. Enquanto eu via a terceira temporada eu pensava nos furos, mas imaginava que a série caminhava para o seu fim e que seria perdoável alguns tropeços na reta final depois de uma primeira temporada arrebatadora e uma segunda “tolerável, que leva a primeira para o grande final”. Até imaginei que ela poderia ter acabado, terminei o episódio sem muita certeza, vim pesquisar sobre e achei esse texto – ótimo, por sinal. Como você bem disse, a série não sabe dançar sem uma música, mas não toleraríamos uma segunda repetição da mesma música. Quando eu estava na ponta da poltrona vendo como os personagens iam se deteriorando (especialmente Helen e Noah), a série dá um pulo temporal e eu fiquei como uma criança que tem o pirulito tomado. Como assim? Noah estava a ponto de morrer, um trapo e aí aparece todo pleno em Paris? “Você me salvou”. Sério que essa frase dita para Juliette é a resolução de tudo? Acho que a série correu com tudo. Correu com essa “recuperação” dele, correu com a aceitação dos filhos de Helen pela verdade do acidente, correu com o problema Vic/Helen… dava para ter focado nisso e a personagem de Juliette e todo seu universo, apesar de ter simpatizado pela atriz, é completamente descartável. Achei que a série terminaria sombria… um Cole preso por honra a uma vida que não queria para si, uma Alison que nunca tem certeza se não passa de um desastre ou não, uma Helen que ainda não trabalhou toda a informação que ela recebeu – do acidente e do diálogo sensacional com a irmã de Noah e, finalmente, um Noah completamente destruído mentalmente por um episódio no passado e pelo comportamento errático que este episódio provocou ao longo de sua vida. Mas aí ela dá uma guinada inesperada. Noah parece bem (mas o final deixa isso em aberto, com o motorista de táxi perguntando para onde ele iria e ele percebendo que não tem mais para onde ir, com quem ficar) e a série vai ter que se virar para continuar daí. Um comentário fora do assunto: pesquisei sobre o sumiço do Brendan Fraser e fiquei bem triste por ele. Já quero mais dele na televisão! Gostei da personagem dele e acho que ela foi essencial para demonstrar o declínio mental de Noah – confesso que essa parte de ele ter feito o que fez no passado e isso ter “explodido” num alto grau de estresse não me incomodou tanto. Obrigada pela análise! Um abraço!

  • Muito obrigada pela tua opinião e pelo feedback positivo à análise!

    Vamos ver como corre a quarta temporada, que está atualmente em exibição 😉

    Abraço,
    Filipa Machado

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