Into the Woods | Entrevista a Rob Marshall

 

Para o diretor/produtor Rob Marshall, “Into the Woods” – o novo bem-humorado e emocionante musical da Disney – explora diversos temas, como: as consequências dos desejos, a complexidade da relação entre pai/filho, a ganância, a ambição, a perda, e talvez a mais importante, o amor incondicional e o poder do espírito humano.

Com um elenco de luxo – que inclui Meryl Streep, Johnny Depp, Emily Blunt, Rob Marshall, James Corden, Anna Kendrick e Chris Pine – o filme acompanha os contos clássicos de Cinderela, o Capuchinho Vermelho, João e o Pé de Feijão e Rapunzel, unidos numa história original que envolve um padeiro e a sua mulher, o seu desejo de iniciar uma família e a sua interação com a bruxa que os amaldiçoou, num twist moderno nos contos de fadas dos irmãos Grimm.

“Into the Woods” estreia nos EUA no dia 25 de dezembro, chegando aos cinemas nacionais no 1 de janeiro de 2015.

IntoTheWoods

Rob Marshall:

Os filmes de Rob Marshall (Diretor/Produtor) foram distinguidos num total de 23 nomeações para os OSCARES®, vencendo nove, incluindo o de Melhor Filme. O seu filme mais recente, “Piratas das Caraíbas: Por Estranhas Marés”, protagonizado por Johnny Depp e Penélope Cruz, arrecadou mais de um bilião de dólares em receita de bilheteira em todo o mundo, tornando-se num dos maiores filmes da história. Os seus anteriores trabalhos de realização incluem os filmes vencedores de prémios da Academia “Chicago” e “Memórias de uma Gueixa”.

Into the Woods

Q&A:

O que o atraiu no projeto?

Sempre adorei este espetáculo, desde que vi a peça original em 1987. Era uma peça bonita, alegre e importante, e lembro-me de ser transportado por ela. Foi a combinação única das personagens se unirem e criarem uma rede de histórias clássicas, contadas de forma incrivelmente profunda, explorando o que acontece depois do “felizes para sempre”. Está tudo bem em desejar, querer, ter esperança e sonhar, mas esta peça trata da realidade do mundo e das lutas e dificuldades que enfrentamos ao longo da vida, acho hoje em dia isso é importante para as pessoas, especialmente para as crianças.

 No décimo aniversário do ataque do 11 de Setembro, estava a assistir ao discurso do Presidente Obama dirigido às famílias das vítimas. No esforço para as consolar, disse com grande compaixão, “Vocês não estão sozinhos… Ninguém está sozinho”. Esse momento ficou comigo. Depois, comecei a pensar que esta bela mensagem, que aparecia numa das canções mais comoventes de Sondheim em “Into the Woods”, podia ser um sinal de que era o momento certo para trazer “CAMINHOS DA FLORESTA” para o cinema. Então, eu e o meu parceiro criativo de produção, John DeLuca, decidimos levar esta ideia à Disney, e ficamos impressionados por estarem interessados em expandir a definição do que um conto de fadas moderno poderia ser. Assim, eu e o John, juntamente com o nosso maravilhoso parceiro de produção, Marc Platt, começamos a jornada de levar “CAMINHOS DA FLORESTA” para o cinema.

Quais são alguns dos temas abordados no filme?

 O filme explora vários temas: as consequências dos desejos, a complexidade da relação entre pai/filho, a ganância, a ambição, a perda, e talvez a mais importante, o amor incondicional e o poder do espírito humano. De muitas formas, acho que “CAMINHOS DA FLORESTA” é um conto de fadas para a geração do século XXI após o 11 de Setembro. Acredito que Sondheim e James Lapine estavam muito à frente do seu tempo quando escreveram isto. A história também aborda o conceito de família, e como a nossa noção da família típica tem evoluído ao longo dos anos. No final do filme surge essa família única e bonita, que foi criada. Isso faz perceber que as famílias são constituídas de maneiras diferentes e tal só acontece devido a certas circunstâncias. 

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Do trabalho de Stephen Sondheim o que lhe parece mais desafiante?

 Stephen Sondheim é o maior compositor vivo que temos. Os atores adoram cantar o seu material, porque de certa forma, ele é um ator. Escreve para e sobre as personagens (os seus desejos, necessidades, medos, vulnerabilidade, alegrias, etc.). O que é bonito numa música de Stephen Sondheim é que nunca é apenas sobre algo genérico, retrata algo muito específico e as circunstâncias mudam durante a música. O início da não é o mesmo que o fim… É uma viagem de vários tipos e é por isso que a música não sai de cena, mas vive no interior da peça de modo integral, o que faz parte da genialidade do seu trabalho.

Fale-nos de como é trabalhar com James Lapine.

 Foi maravilhoso trabalhar com o James porque sempre admirei o seu trabalho durante anos e, é claro, ele era o autor da peça de teatro. Senti que era importante trabalhar com os criadores originais da peça, a fim de manter a integridade e a substância do trabalho, enquanto o readaptava para filme. Fiquei tão impressionado com a forma como o James estava recetivo a experimentar coisas novas e como instintivamente ele percebeu que o que funciona no palco não se traduz necessariamente em filme. Ele tratou realmente de tudo como se fosse uma nova peça. Por exemplo, a cena da Cinderela “na Escadaria do Palácio”, foi escrita originalmente como uma canção de apresentação onde a personagem fala diretamente com o público, explicando o que acaba de acontecer com ela. Obviamente isso não pode ser feito no filme, por isso reestruturámos a música para que tudo acontecesse no momento atual, quando a Cinderela fica presa nos degraus. Ela tem uma fração de segundos para tomar uma decisão, por isso congelámos a ação para que tudo acontecesse dentro desse segundo e a música se tornasse um monólogo interno. Stephen Sondheim ajustou as letras para que tudo isso acontecesse no presente de forma brilhante. 

Que outras alterações existiram entre a produção original de teatro e o filme?

Tento sempre manter o máximo possível da produção de palco, principalmente nesta peça. Tudo funcionou tão bem que não queríamos mudar nada se não fosse mesmo necessário. No entanto, acredito que o maior dano que se pode fazer ao passar de um musical de teatro para um filme é não pensar nele logo de início como um filme. Se nos mantemos muito fiéis ao original, pode acabar por não funcionar. Considerámos meticulosamente todas as alterações. Eliminámos algumas personagens, porque já tínhamos tantas, com tantas histórias, que queríamos manter tudo tão fluído quanto possível. Uma das razões pelas quais eu adoro esta peça e pensei que iria funcionar como filme, é por causa da forma como os números musicais se movem dentro e fora de um diálogo, de maneira tão perfeita. É também incrivelmente cinematográfica, porque vamos andar para trás e para a frente, entre todas estas diferentes histórias.

Fale-nos sobre a “FLORESTA” como uma personagem.

 A “FLORESTA” é uma metáfora para muitas coisas na vida: é o lugar onde vamos para encontrar os nossos sonhos, satisfazer os nossos desejos, enfrentar os nossos medos, perdermo-nos, encontrarmo-nos, crescermos e aprendermos a seguir em frente. É o ciclo da vida, no sentido em que crescemos e percebemos que a vida não pode ser tudo o que pensamos que seria, mas é algo que temos que experimentar… Não há nenhum atalho. Então vamos para a floresta para encontrar tudo isto e esperarmos sair de lá pessoas melhores.

Conte-nos sobre o conjunto de talentos de luxo que foi reunido.

 Uma das minhas filosofias sobre castings é se fizerem tudo bem, não têm que fazer a escolha… É feita por vocês mesmos. Noutras palavras, alguém chega e reivindica o papel dizendo: “Este é meu”, e foi exatamente isso que aconteceu durante todo o processo de casting do filme. Por exemplo, Chris Pine, que interpreta o príncipe da Cinderela, entrou na sua cena, mas eu não sabia se ele cantava, se era cómico. Apenas sabia que ele era um ator maravilhoso e um homem incrivelmente bonito. Rapidamente descobri que ele podia fazer tudo isto e muito mais.

Sinceramente, pensei que a Emily Blunt seria perfeita no papel de mulher do padeiro, mas nunca pensei que ela conseguisse cantar da forma como o faz. E ela entrou e cantou “Moments in the Woods” e foi um desempenho tão completo que tive dificuldade em acreditar. No final da canção, dei por mim literalmente a chorar, estava tão contente por ter encontrado alguém com as características ideais para desempenhar o papel da mulher do padeiro. A personagem tem que ser extremamente calorosa e acessível, divertida, tem que ter um grande coração e ser capaz de cantar bem e ela tinha tudo isso.

James Corden tinha feito uma interpretação para nós, como Padeiro, e era claro para todos que ele era o nosso homem. Estava realmente à espera de encontrar alguém que pudesse interpretar o homem comum, ele é um ator extraordinário e o alcance do seu talento é verdadeiramente esmagador. Tem um humor incrível e possui a comédia física que todos nós conhecemos do seu trabalho em palco, mas desconhecia a grande profundidade que ele tem como ator… E também sabe cantar. Adoro o humor e a cordialidade que a Emily e o James têm como casal… Sentimos a sua dor e a sua alegria. Quando fizemos os castings para estes papéis, estava à procura de pessoas que realmente se preocupam, com a Emily e o James importamo-nos com o que lhes acontece.

Para mim, Meryl Streep foi o ingrediente chave do filme. Não podia imaginar fazer este filme sem ela. Traz tudo o que se possa imaginar para o trabalho muito mais. A sua profundidade, vulnerabilidade, imaginação, humor e espontaneidade são incomparáveis. Sem mencionar a sua voz… Uau! Impressionou-me. Tinha conhecimento que ela sabia cantar, mas assim? Não fazia ideia. A verdade é que não há nada que ela não saiba fazer.

Anna Kendrick vem do teatro, tinha grandes esperanças em como ela seria fantástica como Cinderela. A sua voz é tão bonita e aparentemente sem esforço. Acredito que todas as empresas olharam para ela por causa disso. O que me emocionou na sua performance foi a sua vulnerabilidade e complexidade que trouxe para o papel, assim como o humor e a sensibilidade moderna que ela tem por natureza.

Convidei o Johnny Depp para interpretar o Lobo, no seguimento do nosso trabalho conjunto em “Piratas das Caraíbas: Por Estranhas Marés”. Respondeu imediatamente que sim. Não existe ator mais inventivo, divertido, ousado e emocionante hoje em dia. Já para não mencionar a sua generosidade e bondade. Estava animado com a ideia de fazer parte de um elenco destes e de trabalhar em mais um musical de Sondheim.

Christine Baranski é uma das minhas atrizes favoritas, acho que o James Lapine descreveu-a perfeitamente quando disse: “Ela é ouro”. Pode pegar em qualquer coisa e acrescentar-lhe muito. E a Tracey Ullman é tão especial. Ela tem muitos dons musicais, bem como o de atuar e obviamente o dom da comédia. Foi muito bom trabalhar com ela.

Num musical, os atores são chamados para fazerem coisas únicas e variadas, e este elenco conseguiu atingir constantemente todas essas marcas, cada um deles. Foi extraordinário trabalhar com eles.

Pode falar sobre como o elenco esteve ligado durante a pré-produção?

 Uma das alegrias de trabalhar num filme musical é o período de ensaio: neste filme tivemos mais de um mês de ensaios antes mesmo de começarmos a filmar, foi durante esse período que os laços foram criados. Uma vez que este filme é uma peça em conjunto, foi importante para todos trabalharem juntos e criarem uma peça coesa. E todos ficaram emocionados por fazerem parte deste grupo.

Fale-nos sobre o visual do filme.

Fiquei muito feliz por trabalhar com uma equipa incrível de pessoas com sensibilidades artísticas, que foram capazes de levar a história para longe e transformá-la em algo maravilhoso e belo, em níveis diferentes. Sabia desde o início que queria que o visual do filme estivesse em linha com a ideia da realidade aumentada. Também queria que houvesse uma textura e uma sensação de algo real, porque é disso que esta peça trata: uma combinação maravilhosa de um conto de fadas com uma história real e pessoas reais que se preocupam. Fomos capazes de criar uma combinação entre madeiras reais e fabricadas, porque é onde grande parte do filme se passa, enquanto incutíamos um sentimento de admiração e magia nos movimentos de iluminação e da câmara. Tentámos ser muito estratégicos sobre como usamos os nossos cenários, pois precisámos de ter a certeza de que serviam a história e o filme.

Felizmente tivemos acesso a um palco enorme de som nos Shepperton Studios, onde construímos a floresta, o ponto central do nosso filme. Naquela floresta, precisámos de muitas áreas diferentes. Trabalhámos de forma incansável para examinar onde cada cena se iria desenrolar e determinar o local correto. Também foi logo decidido que iríamos evitar o uso de telas verdes, tanto quanto possível, porque acredito que é mais difícil para os atores se imaginarem num mundo tão específico, quando não conseguem ver onde estão. A maioria dos nossos sets é muito prática. Há ainda algum trabalho de CGI no filme, mas parece tudo muito real, resultado da nossa incrível equipa de efeitos visuais e do nosso supervisor de efeitos visuais, Matt Johnson, porque entenderam como devia funcionar e apenas utilizaram os efeitos quando eram mesmo necessários.

A chave para um bom musical é garantir que seja fluído para o público, já que não queremos que a cena pare antes que a música comece. Isso tem a ver com a forma como a câmara se move. O nosso diretor de fotografia, Dion Beebe, entende isto profundamente. Ele é um pintor de luz e movimento. Temos feito muitos filmes juntos e entendemo-nos bem, por isso foi inegável tê-lo na equipa. E a Colleen Atwood é uma magnífica designer, uma artista incrível, e uma colaboradora de longa data. Ela foi capaz de criar mundos e looks diferentes para cada uma das personagens, mas ainda assim mantê-las unidas e criar uma visão unificada. Felizmente para nós, não havia realmente regras… Queria que as pessoas se sentissem muito livres para criarem o próprio espaço dentro do conto de fadas. Dennis Gassner, o nosso designer de produção, tem um olho extraordinário e sabe como colocar as coisas em conjunto e integrar esses diferentes mundos, especialmente os dois mundos de madeiras reais e dos cenários. E o nosso editor, Wyatt Smith, é um homem extraordinário porque percebe muito de música.

Peter Swords King, o nosso cabeleireiro e responsável de maquilhagem é maravilhoso, porque ninguém trabalha melhor com os atores do que ele. É capaz de perceber o que os atores sentem sobre as suas personagens e dar-lhes vida, implementando ao mesmo tempo o seu próprio gosto e arte. Roy Helland, que trata do cabelo e maquilhagem da Meryl Streep há anos, foi capaz de trazer uma abordagem única para os diferentes visuais da Bruxa. O objetivo de Roy era fazê-lo o mínimo possível para que a verdadeira transformação fosse feita pela Meryl.

O que espera que o público tire do filme?

 O que adoro neste filme é o facto de existir muito entretenimento em diferentes níveis. É uma viagem emocionante, pois contém todas estas diferentes personagens que se cruzam na floresta, com canções maravilhosas, mas também com algo profundo, comovente e importante sobre a vida.

 

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