"A Múmia de Lee Cronin" | © Cinemundo

A Múmia de Lee Cronin, a Crítica

Em 1922, a descoberta do túmulo de Tutankhamon despoletou frenesim mediático, tornando-se num fenómeno cultural que elevou grandemente o interesse no Antigo Egito e em egiptologia enquanto disciplina. Em certa medida, foi um retorno às mesmas obsessões que haviam levado nobres ingleses no século XIX a fazer festas em que consumiam partes de múmias, ou a indústria que fazia tinta através desses cadáveres. Enfim, nos anos 20, já se falava em “Tutmania” antes da história começar a ganhar dimensões sinistras. A morte de vários membros da equipa arqueológica em rápida sucessão levou a especulações acerca de uma maldição e, depressa, o interesse nestes temas retorceu-se num fascínio lúgubre.

Dez anos depois, quando Hollywood entrava no negócio do terror, essas obsessões egípcias, essas psicoses orientalistas, serviram de base para a criação de “A Múmia”. Ao contrário do “Drácula” ou “Frankenstein” da Universal, dos filmes inspirados na obra de Edgar Allan Poe, este projeto não tinha qualquer base literária. Efetivamente, a história que Nina Wilcox Putnam e Richard Schayer formularam serviu de base para a múmia enquanto ícone do terror. Todo o conto e o reconto em torno desta figura, deste arquétipo, estão em dívida em relação ao filme de 1932. Tanto aqueles que repescaram a especificidade de personagens como Imhotep e Anck-es-en-Amon, como os que somente empregaram a ideia de uma múmia reanimada como vilão.

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Entre os grandes estúdios de Hollywood e as produções britânicas da Hammer Film, já se fizeram cerca de 30 fitas com a múmia como monstro. Até este ano, os exemplos mais recentes seriam as brincadeiras do “Hotel Transilvânia” e o desastre que foi “A Múmia” do Dark Universe, com Tom Cruise no papel principal. Mas, de repente, parece que os cineastas ganharam novo interesse nestas histórias. Não só se anunciou a continuação do franchise protagonizado por Brendan Fraser como também a Blumhouse emergiu com um projeto do género, encabeçado pelo realizador Lee Cronin, que já tinha tido muito sucesso com a reinvenção de “Evil Dead” enquanto saga cinematográfica.

Só que, por muito que “A Múmia de Lee Cronin” nos surja nestes contextos históricos, o filme foge ao modelo narrativo por eles estabelecido. De facto, estamos perante algo mais próximo do cinema de exorcismo e possessão demoníaca que a obra-prima de William Friedkin inspirou nos anos 70 antes de ressurgir na primeira década do século XX. Diria mesmo que “A Múmia de Lee Cronin” tem mais em comum com “O Exorcista” do que as sequelas oficiais desse filme, incluindo aquele “Exorcista: Crente” que David Gordon Green nos presenteou há uns anos. Essa mixórdia de inspirações não favorece o novo filme, diga-se de passagem.

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“A Múmia” repensada à imagem do “Exorcista”.

a mumia de lee cronin critica cinemundo
© Cinemundo

Pelo contrário, puxa-o para uma zona de anonimato estilístico e narrativo, de derivação perniciosa e inescapável redundância. O prólogo, centrado numa família egípcia, inspira alguma esperança no espectador. Afinal, todas estas histórias de terror com múmias à mistura tendem a focar-se em personagens do Norte Global, com destaque para americanos e ingleses, jamais considerando a fundo uma perspetiva local. Em pouco tempo, Lee Cronin foge à regra e ganha pontos por originalidade ao apresentar um pai brincalhão e uma mãe severa, com três filhos na flor da inocência. Chegados a casa, no seu pomar de nectarinas, o idílio deles morre num abrir e fechar de olhos.

O pássaro de estimação está morto, e alguma força maligna emana da câmara subterrânea onde os pais mantêm um misterioso sarcófago de chumbo e pedra escura. A múmia acordou. Infelizmente, estas personagens são descartadas para dar lugar aos verdadeiros protagonistas do filme. São eles a família Cannon, sediada no Cairo, enquanto o patriarca, Charlie, trabalha como repórter correspondente para um canal de televisão americano. Encontramo-los num momento de possível transição, quando o pai antecipa uma nova oportunidade profissional que o levará a ele, à esposa, Larissa, e seus filhos, Katie e Sebastián, de volta aos EUA.

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É durante uma chamada com os patrões que Charlie se distrai e deixa a menina sozinha no jardim. Isso é suficiente para que ela seja raptada. Oito anos depois, a jovem reaparece quando um avião se despenha e, entre os destroços, surge aquele sarcófago de chumbo com Katie lá enclausurada. Logo aqui se começa a perceber um dos grandes problemas nesta “Múmia de Lee Cronin”. Sua estrutura é um pesadelo de saltos temporais, demorando mais de meia hora antes de se estabelecer a ação principal, que entrecorta entre a família Cannon no Novo México a tentar reabilitar a filha outrora perdida e uma detetive egípcia na procura da verdade por detrás do desaparecimento.

Atente-se que “A Múmia” original de 1932 nem uma hora e vinte tinha, grande exemplo de economia narrativa e as prioridades rítmicas do terror enquanto género em cinema. Este novo filme é indulgente e esticado além do suportável, caindo, vezes sem conta, em passagens repetitivas e desnecessárias complicações de enredo. Na sua essência, esta é uma simples história de possessão, onde Katie serve de veículo para que um demónio mais antigo do que o Antigo Egito destrua os Cannon. Com sua pele ressequida, feridas por todo o corpo e fisicalidade contortida, é difícil não a comparar com a pobre Reagan que Pazuzu atormentou no “Exorcista”.

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A história aborrece, mas os efeitos sangrentos surpreendem pela positiva.

a mumia de lee cronin critica cinemundo
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Mas Katie é mais silenciosa também, ainda mais carente em detalhes de personagem, sendo que a malignidade do além raramente comunica verbalmente, reduzindo o monstro a uma presença não muito diferente de um adereço. Essa simplicidade não é necessariamente um defeito. Só se torna num problema quando está inserida num filme com mais de duas horas de duração. Nada em “A Múmia de Lee Cronin” justifica tal envergadura. Nem mesmo a estratégia audiovisual que, em seguimento de “Evil Dead Rise”, parece uma reciclagem empobrecida do que o realizador já havia feito no filme anterior.

A única surpresa, única singela novidade, será o uso abusivo de dioptrias divididas. Para quem não sabe, essa técnica baseia-se num filtro que separa o foco na lente, permitindo trabalhar em profundidade focal limitada e, ao mesmo tempo, ter dois objetos distantes bem definidos na mesma imagem. É um gesto espampanante que depressa deixa de ser especial, visto que Cronin o repete dezenas de vezes e, ocasionalmente, com algumas máculas meio vergonhosas para um blockbuster de estúdio. Também os temas aborrecem e recordam “Evil Dead Rise” de uma forma que em nada favorece este pesadelo de origem egípcia.

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De novo, Cronin baseia todo o texto no colapso da família, definindo o vilão como um demónio especificamente dedicado à destruição desses laços de sangue. A comparação com o outro filme ainda faz com que “A Múmia de Lee Cronin” pareça covarde, não se atrevendo a chegar às mesmas conclusões desesperantes que deram fama ao cineasta. Há ainda um teor desconfortável, a roçar o racismo, no retrato destes horrores do Norte de África a abater-se sobre uma pobre família americana. A personagem da detetiva redime partes do texto, mas isso não é suficiente. Esse desconforto em todas as versões da “Múmia”, é claro. No entanto, esperava algo menos retrógrado num filme de 2026, em comparação com o clássico de 1932.

Enfim, as queixas são muitas, mas “A Múmia de Lee Cronin” também tem qualidades que valem a pena mencionar. Se a fotografia e a cenografia são enfadonhas, o trabalho de maquilhagem compensa pela extravagância e pela visceralidade dos seus efeitos. Cronin adora construir cenas com base na mortificação dos corpos, atrevendo-se a excessos grotescos, a sujeitar a audiência a visões que reviram o estômago e quase inspiram o vómito. O filme é nojento e isso é um elogio. A cena que envolve um corta-unhas deverá ser um dos momentos mais inquietantes que o cinema mainstream produziu nos últimos anos, trazendo esta história de possessão para o patamar de “body horror”. Nesse sentido, os fãs ferrenhos do género hão de ficar bem satisfeitos com o que Lee Cronin aqui construiu.

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A Múmia de Lee Cronin

Conclusão:

“A Múmia de Lee Cronin” repensa as histórias de maldições egípcias à imagem do “Exorcista” com efeitos especiais e maquilhagem a condizer. Esses aspetos mais viscerais representam o melhor desta nova produção da Blumhouse, sendo que, em termos narrativos e temáticos, não há muito que se aproveite. O elenco faz o que pode e há uma plasticidade tonal interessante, a tombar no humor negro, mas não é suficiente para redimir o argumento que o próprio Lee Cronin escreveu ou a montagem letárgica de Bryan Shaw. Depois de tantos filmes da “Múmia”, já era altura de Hollywood saber o que funciona e o que não resulta nestes contos de terror.

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5.5/10
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