IndieLisboa ’26 | Le cris des gardes, a Crítica
Persiste, no cinema de Claire Denis, um forte sentimento de desacerto, uma qualquer inquietação que se enterra na consciência do espectador e o assombra sem que este consiga articular o porquê dessa aflição. Assim é desde o início, desde aquele “Chocolat” com que a cineasta se estreou na competição pela Palme d’Or na Cannes de 1988. Esse foi um projeto com o seu quê de autobiografia, brotando de uma autoficção que refletia sobre a presença colonial francesa em África. Trata-se de um tema a que a realizadora iria regressar muitas vezes na carreira, tanto de forma direta como indireta, tanto pelo recurso à memória pessoal como à literatura adaptada.
Em sua primeira longa-metragem, Denis punha a descoberto uma infância em terra estrangeira e, desde logo, pressionava o dedo na ferida de uma psique gálica encurralada entre culpa e orgulho. Um estado colético entre as presunções do sonho imperialista e a confrontação com a própria odiosidade e mesquinhez, com a violência subjacente ao poder europeu sobre reinos por si conquistados, dominados e explorados. Olhando para trás, vemos uma sofisticação formalista ainda meio subalterna a estruturas narrativas mais ou menos convencionais. Com cada novo projeto, com cada novo passo no percurso artístico, Denis afastar-se-ia dessa convenção.
A obra-prima que é “Beau Travail,” o “White Material” que levou Huppert a África e a desventura de “Stars at Noon” pela América Latina continuaram a pesquisa sobre temas pós-coloniais. Agora surge “Le cris des gardes,” também conhecido como “The Fence,” e, em certa medida, parece que a realizadora está tanto a prosseguir estas explorações de forma linear como a desenhar um círculo de volta ao sítio onde tudo começou. Por um lado, estamos perante um objeto polido e afiado, como obsidiana, com produção internacional e financiamento da Saint Laurent e imagens na vanguarda do digital. Por outro lado, nota-se uma modéstia no aparato, uma pequenez que fascina.
Talvez sinta isso devido à simplicidade da fita enquanto texto que Denis adaptou, juntamente com Andrew Litvack e Suzanne Lindon, a partir da peça “Combat de Nègre et de Chiens” que Bernard-Marie Koltès escreveu nos anos 80, no meio das suas muitas meditações sobre o exílio. As origens teatrais estão patentes no filme onde quatro figuras circulam em volta do mesmo espaço durante uma tarde a enegrecer em noite antes da alvorada iluminar inexpiáveis pecados. Mais do que uma história, “Le cris des gardes” retrata uma situação, um conflito singular que condensa em si a sinédoque para todo um discurso pós-colonial.
Claire Denis é uma das grandes cineastas da contemporaneidade.

Algures no continente africano, uma empresa britânica desenvolve um vasto projeto de construção civil. Para o empreiteiro-chefe, Horn, hoje é um dia especial, pois a sua noiva vem juntar-se a ele. Só que, nessa manhã, um trabalhador local morreu sob a supervisão de Cal, um engenheiro irascível com quem Horn tem partilhado a sua existência solitária desde há tempos imemoriais. O que devia ser uma noite de festa nupcial é interrompida pela aparição de Alboury, o irmão do morto, que insiste em levar o cadáver consigo para que a família possa realizar os ritos fúnebres. Mas os espectros brancos na loucura do seu poderio, recusam-se a entregar o corpo.
Ciente do perigo, quiçá numa demonstração de autoridade inflexível, Alboury mantém-se no espaço liminar entre duas vedações erguidas à volta do projeto estrangeiro. Por muito que Horn insista, o senhor de luto não entra nos domínios que o homem branco reivindicou nem se deixa seduzir por falsas promessas de hospitalidade. Noções de masculinidade em crise fazem-se sentir na dinâmica das personagens mais pálidas, como se toda a postulação interpessoal entre o casal e seu companheiro volátil fosse uma performance em lenta implosão. Não há rescaldo desta ansiedade, nenhum porto salvo em que a audiência se possa resguardar ou, simplesmente, respirar.
As tensões são altas e a dramaturgia é estranha, com diálogos deformados pelas cicatrizes de traduções palimpsésticas e um trabalho de ator que puxa por uma tonalidade ainda mais bizarra. É frágil, como se todas as figuras em cena fossem porcelanas quebradiças, com articulações perras, destinadas a estilhaçar toda a figura no momento em que alguém lhes tentar forçar a pose. Pelo menos, assim são Matt Dillon como Horn, Mia McKenna-Bruce como Leonie e Tom Blyth na mais fascinante façanha da sua carreira, interpretando o perigoso Cal. O Alboury de Isaach de Bankolé é muito diferente, um contraposto severo e resoluto e em perfeita sintonia com as estratégias audiovisuais da realizadora.
Nesta quarta colaboração entre o ator costa-marfinense e Claire Denis, ele excede a grandiosidade já alcançada em filmes como “Chocolat” e “S’en fout la mort,” surgindo-nos qual monumento nascido das sombras na paisagem noturna. Há algo de escultórico na sua presença, como se a caracterização fosse partilhada entre o trabalho de ator e sua sinergia estética com a fotografia de Eric Gautier. O contraste com Dillon e Blyth é especialmente sentido, uma retidão resoluta em furioso desafio aos homens que tentam todas as desculpas e mais algumas para não lhe dar os restos do trabalhador morto.
Isaach de Bankolé em estado de graça.

Entenda-se, contudo, que esta dignidade confrontacional jamais promove a identificação do espetador com Alboury, sempre mais próximo da iconografia do que da humanidade. Um dos aspetos mais curiosos no cinema pós-colonial de Denis é como ela não segue o caminho da empatia para com o povo oprimido. Pelo contrário, sua crítica constrói-se sempre do ponto de vista do invasor que está a mais no ambiente, o violador de uma qualquer ordem natural e humana. A câmara de Denis adora de Bankolé e dá razão à sua personagem, mas articula essa conclusão ao posicionar o espectador no desconforto inerente à perspetiva do colonialista.
“Le cris des gardes” sustenta seu argumento com base na alienação e, nessa exangue escolha, evita a condescendência que tantas vezes afeta o cineasta privilegiado ao tentar falar pelos marginalizados. Há certa amoralidade em tais soluções, um distanciamento cruel na centralização do colonialista em gesto de autocrítica ressentida. Horn, Cal e companhia limitada odeiam o olhar de Alboury porque, no seu reflexo, a malignidade destes exploradores estrangeiros aparece com uma claridade capaz de cortar e sangrar, deixando uma cicatriz daquelas que ficam connosco até ao nosso último dia. Ele é a verdade amarga que os poderios europeus tentam adocicar com o mito do colonialismo suave.
Se procuram um cinema em que o artista por detrás da câmara esbanja afeto sobre suas personagens, suas criações, então fujam a sete pés desta assombração. Ao longo de 107 minutos, “Le cris des gardes” retorce-nos, abre feridas e espreme sumo de limão sobre a carne viva. No fim, nem se digna a oferecer o bálsamo da catarse. Só fica a insatisfação planejada com a qual Denis nos dá uma última chapada na cara. É um filme extremamente violento sem mostrar quase nenhuma agressão direta, uma máquina de gerar angústia cuja aparência comedida, cujo aparente minimalismo formal, só redobram o poder desses flagelos cinematográficos.
Longe de competir nos grandes festivais europeus, Claire Denis estreou “Le cris des gardes” no Festival de Toronto do ano passado sob o título anglófono, “The Fence.” Agora, a fita percorre o circuito internacional. Diríamos que procura a sua audiência, mas essa descrição pinta a cineasta numa pose suplicante que nada corresponde à verdade da sua atitude. Até em Toronto ela se manteve ríspida e indiferente, criticando o sistema de som do cinema ao invés de aliciar o público. Porque Claire Denis não faz cinema para seduzir o nosso afeto enquanto audiência. Ela simplesmente exige o que lhe é devido, respeito e atenção. E nós não temos alternativa senão dar-lhe isso mesmo. Escusado será dizer que este é um dos melhores filmes em exibição no IndieLisboa.
Le cris des gardes
Conclusão:
Claire Denis chega à secção Rizoma do IndieLisboa com mais um diamante negro em forma de filme. “Le cris des gardes” reluz com reflexos de sangue e a penumbra da noite africana, uma história de fantasmas que a câmara de Eric Gautier captura com sofisticação e uma elegância que perturba mais do que deleita. Trata-se de mais uma meditação sobre temas coloniais, entendendo a malignidade da presença europeia em África através de um sentimento visceral, de uma narrativa simples na sua violência e suas teses de certidão quase cósmica.
Isaach de Bankolé está em estado de graça e Tom Blyth finalmente mostra ser um ator merecedor da atenção da cinefilia internacional. Afinal, não é só uma cara bonita.

