007: Sem Tempo Para Morrer | © NOS Audiovisuais

007: Sem Tempo Para Morrer, em análise

007: Sem Tempo Para Morrer” é uma saída airosa de Daniel Craig na pele de James Bond, que apesar do glamour e exotismo da sua imagem, esvazia a sua personagem num paupérrimo enredo. “Sem Tempo Para Morrer”, não tem tempo para saber viver.

Quando falamos do cognome numérico mais conhecido de todo o mundo (007), referimo-nos não só à personagem icónica (James Bond) criada por Ian Fleming nos anos cinquenta, mas ao inestimável legado imortal de “pop culture” por ele deixado, que transcende qualquer tempo, moda ou lugar. Assim, crescemos inebriados por este “male symbol” e “sex symbol” recalcado por Fleming dos fogosos e impetuosos tempos da Guerra Fria, em que a espionagem era um ofício tão apaixonante quanto letal. E depois de vinte e cinco rodagens e sete distintos rostos na pele do carismático e galanteador espião britânico com licença para matar, chegou a hora de Craig enterrar o machado de guerra de Bond com o seu martini tão bem mexido que acaba por perder parte do sabor da sua substância. Isto porque o desleixado argumento é digerido por demasiadas gargantas com voto na matéria, incluindo a do criador de “O Alienista” e “True Detective” (Cary Joji Fukunaga), chamado à última hora para dirigir o seu primeiro filme de alto perfil, como é o caso deste 007.

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Previsivelmente, esta entrada na história de Bond encerra o arco narrativo iniciado à década e meia com “Casino Royale“, tentando deste modo arrumar com as pontas soltas deixadas pelos capítulos subsequentes, sendo que este oferece um “closure” direto em relação à misteriosa organização “Spectre“, que deu nome à metragem precedente. E como é apanágio de todos os 007 arrancar com aquele aperitivo imageticamente impressionante, que normalmente envolve sempre uma daquelas proezas acrobáticas quase sobre-humanas à Bond, desta vez Fukunaga nem se acanhou em cortar com essa linha de montagem procedimental, dando palco a outros dois intervenientes numa surpreendente nota mais fria e intimista. Na verdade, o poderoso e emotivo prólogo de “Sem Tempo Para Morrer” é uma gélida recordação traumática da infância de Madeleine (Léa Seydoux) e do seu pavoroso agressor Lyutsifer Safin (Rami Malek), filmado na petrificante paisagem norueguesa com aquela teatral e lúgubre tonalidade “hitchcockiana”, que pisca o olho artístico a grandes clássicos como “Dr. No” ou “Goldfinger“.

007: Sem Tempo Para Morrer Corpo
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De facto, percebe-se a decorosa intenção de Fukunaga em fazer da despedida de Daniel Craig uma carta de amor aos fãs, sobretudo os de Sean Connery, munindo este Bond dos tempos modernos com referências icónicas, quer estilísticas, quer materiais, no sentido de encerrar este ciclo da saga. Assim, o lendário Aston Martin DB5 está de volta para tourear a sinuosa calçada da histórica cidade italiana de Matera, instigando uma daquelas velozes e vertiginosas perseguições automobilísticas com fumaça a voar do tubo de escape e metralhadoras gatling a sair dos farolins posteriores, mesmo típico de uma fita James Bond. Não podemos negar, que Fukunaga acerta em cheio na coreografia das exuberantes cenas de ação, mas fica um certo amargo de boca nas entrelinhas, como se saltássemos de contexto e cenário de forma algo forçada. E é com essa ingrata e desconsolada sensação que absorvemos um guião que se esforça em oferecer-nos uma versão de Bond menos misógina e mais sentimental, agora que tenta assentar e constituir família junto da bela e misteriosa Madeleine. Aliás, o fio condutor da história de “No Time To Die” é mais acerca dela, do que propriamente de Bond, embora se tente explorar aqui o elo emocional entre ambos. De resto, Léa Seydoux bem tenta recriar a mesma química hipnotizante que Craig tinha com Eva Green em “Casino Royale”, mas nem lhe consegue chegar aos calcanhares. E é aqui que o barro não cola devidamente à parede em termos de naturalidade representativa, lobotomizando Bond com uma estranha dimensão agressivamente lamechas, que cospe cá para fora uma espécie de super marido, ou invés de um super espião.

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Mas não é só a figura de Bond que transparece uma questionável falta de entrega e improviso emocional em momentos chave da trama, o restante elenco padece igualmente de um défice de energia e fervor amplamente denunciado pelo quase ridículo guião para crianças. As falas de Mallory (Ralph Fiennes) são tão más que quase aniquilam a sua relevância na intriga, e até Q (Ben Wisham) é desconsiderado pelos argumentistas, ao recriarem um momento caseiro completamente caído do céu, em que Q prepara uma refeição para alguém a quem se refere apenas como “ele”. Não é que tentar normalizar a vida profissional de agentes secretos seja per si uma má ideia, mas empurrá-la à força só porque sim, sem qualquer referência prévia, sem qualquer profundidade contextual, parece-nos em toda a linha descabido. A única lufada de ar fresco neste rol de equívocos mal executados é a “anti-bond girl” Paloma (Ana de Armas), que entra literalmente a matar com pontapés marciais em stilettos, e a rebolar sensualmente pelo chão com semi-automáticas no bar do “Gran Hotel Palacio Velazquez” em Cuba.

007: Sem Tempo Para Morrer Corpo
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E não foi por mero acaso que “007: Sem Tempo Para Morrer” escolheu os ventos tropicais das Caraíbas como postal idílico da merecida reforma deste Bond. O pedido veio expressamente da produtora (Barbara Brocolli), que achou por bem homenagear o local (Jamaica) onde Ian Fleming rabiscou as primeiras aventuras de James Bond. A logística das filmagens noturnas foi desafiante, com a novata agente de código “007” (sim, leram bem) Lashana Lynch (Nomi), a mostrar todo seu poder de fogo de uma varanda em gesso, iluminada com nove caixas de luz e dez guindastes móveis. É aqui que Bond bebe o seu cocktail da praxe, emana o seu charme para a colega de serviço, dá dois dedos de conversa ao velho camarada da CIA, Felix Leiter (Jeffrey Wright), e vai à caça do mauzão (Safin), que resolve roubar uma arma biológica de um laboratório em Londres. Ou seja, tudo muito batido e não mexido, mesmo como James Bond gosta, o que para os nossos dias é manifestamente curto e usual. Isto já para não falar no vilão de circunstância razoavelmente interpretado por Malek e na parcimoniosa intervenção de Christopher Waltz (Blofeld), que caem na narrativa quase como adornos cosméticos sem alma, apenas para cumprir os caprichos básicos do epílogo.

007: Sem Tempo Para Morrer Corpo
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“007: Sem Tempo Para Morrer” teve tempo para o lado técnico e estilístico da sua componente de ação, mas ficou sem tempo para preparar um discurso convincente, que não arrastasse o espetador por quase três horas de interações que não raras vezes pareciam ensaiadas encima do joelho. É como se a produção deste “007” se tivesse focado somente em oferecer a Bond o seu derradeiro parque de diversões, deixando a essência do roteiro para segundas núpcias. Ainda assim, existe aqui interesse suficiente em apreciar mais uma enormíssima performance de Craig no seu último papel como James Bond, num desfecho adequado, senão polémico. Para a posteridade, ficam duas memoráveis prestações em “Casino Royale” e, claro “Skyfall“, e a certeza de que o próximo candidato (ou candidata) ao lugar, terá de preencher uma forma de sapato bem grande, como dizem os ingleses.

My name is Craig, Daniel Craig…

007: Sem Tempo Para Morrer | Em Análise
007: Sem Tempo Para Morrer Póster

Movie title: 007: No Time To Die

Movie description: James Bond deixou o serviço ativo e está a desfrutar de uma vida tranquila na Jamaica. Mas a sua paz termina rapidamente quando o seu velho amigo Felix Leiter, da CIA, aparece com um pedido de ajuda. A missão de resgatar um cientista raptado acaba por ser bastante mais traiçoeira do que o esperado, o que leva Bond a perseguir um misterioso vilão, armado com uma nova tecnologia perigosa.

Date published: 13 de November de 2021

Country: Reino Unido; Estados Unidos

Duration: 2h43min

Author: Miguel Simão

Director(s): Cary Joji Fukunaga

Actor(s): Daniel Craig, Léa Seydoux, Ana de Armas, Rami Malek, Ralph Fiennes, Lashana Lynch, Christoph Waltz

Genre: Ação, Aventura, Thriller

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  • Miguel Simão - 68
  • Manuel São Bento - 80
  • Rui Ribeiro - 92
  • Cláudio Alves - 55
  • Ana Inês Carvalho - 75
  • Maggie Silva - 50
  • Rui Ribeiro - 90
73

CONCLUSÃO

“007: Sem Tempo Para Morrer” não é, nem de perto, nem de longe um dos melhores filmes de James Bond. Aliás, o argumento é tão fácil e preguiçoso, que prejudica o trabalho dos atores que fazem o que podem com um material tão desinspirado. É brilhante na sua fotografia e nas montagens coreográficas das cenas de ação, mas espalha-se ao comprido em ideias descontextualizadas e uma fraca narrativa a pedido, que só reflete o quão desgastada se encontra a franquia “007” neste momento. Daniel Craig e James Bond saem de cena, e saem pela porta média em alta rotação.

MS

Pros

  • Belíssima cinematografia
  • Coreografias de alto calibre
  • Cenas de ação impactantes

Cons

  • Argumento medíocre
  • Discurso forçado
  • Ideias fora de contexto
  • Demasiado longo
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Miguel Simão

Jurista e Poeta em algumas horas vagas. Cinéfilo incurável com forte pancada pelo sci-fi, que se perde algures pelo vício noturno de umas quantas séries televisivas de renome; amaldiçoado pelo perfecionismo estético de uma resma de palavras mais ou menos caras. Podem encontrar-me a divagar entre a Terra e o Espaço no meu blogue premiado Última Transmissão Humana.

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