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Crónica | 007 Temos Homem?

‘007: Sem Tempo Para Morrer’ não foi concebido para alinhar com a obsessão do politicamente correcto ou de um ajuste de contas com um personagem violento e machista. É antes uma emocionante despedida de Daniel Craig, como James Bond, que abre portas para uma dimensão mais humana e tolerante da personagem e das histórias do 007, mais à medida dos novos tempos. 

‘007: Sem Tempo Para Morrer’, de Cary Joji Fukunaga, o quinto e último filme de Daniel Craig, o último ator da saga Bond e completa o arco narrativo da personagem, que torna o infalível agente secreto num herói, mais humano, sensível e familiar; as bond girl já não são tão permeáveis e sedutoras, uma espécie de prostitutas ou agentes duplas ao serviço dos maus, seduzidas por Bond, mas antes mulheres de acção que lutam como os homens, para salvar a sua pele, ao serviço das boas causas; é talvez ao que me recorde o único filme de Bond, onde duas crianças são personagens-chave da história; e o frio e aparentemente insensível agente secreto, tem de fazer tudo não só para salvar a sua vida, mas vê-se também obrigado a sacrificar-se pela sua família. E muita coisa já disse sem o spoiler, já que por detrás de toda a interessante e actual trama (propositada ou não?) já não estão a Guerra Fria, as ameaças nucleares, a guerra biológica ou química, o domínio de um recurso essencial (a água), mas antes a batalha pelo poder de manipulação de DNA, que pode conceber um vírus (Heracles), que tem tanto a habilidade de dizimar uma amostra precisa, como toda a população mundial. Mais actual do que isto não podia ser este 25º filme da personagem criada por Ian Fleming, que termina com uma longa expectativa e espera de um ano cheio de adiamentos, provocados pela pandemia. Se este 007 olha para o futuro, é também muito vintage, do guarda-roupa ao Aston Martin….

TRAILER ‘007-SEM TEMPO PARA MORRER

Para além de todos estes propósitos narrativos, este ‘007: Sem Tempo Para Morrer’, o quinto e último filme de Daniel Craig, interpretando o espião com licença para matar, tornou-se numa emocionante despedida do actor britânico; e talvez uma das melhores e mais convincentes interpretações no papel, desde 007: Casino Royale (2006), quando exactamente assumiu ser James Bond. Ao mesmo tempo, este filme funciona como um, relativamente coerente, — continuamos obviamente no domínio da acção e da fantasia — desfecho da história iniciada há 15 anos, e que aos poucos tornou este herói que sobrevive a todos os perigos, numa personagem mais humana e muito mais interessante. Com tantas importantes tramas e histórias paralelas para resolver, ‘007 : Sem Tempo Para Morrer’ tem alguns gaps narrativos e uma certa instabilidade, ao longo das 2 horas e 43 minutos de duração. Porém, as sempre excelentes cenas de ação, os momentos íntimos que aprofundam os relacionamentos entre as personagens novas e velhas da saga, aliada a uma extraordinária e diferenciada interpretação de Daniel Craig, ajudam o agente secreto a superar a maioria dos obstáculos que lhe aparecem pela frente e a recuperar a ansia e expectativa dos espectadores.

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007-Sem Tempo Para Morrer
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‘007: Sem Tempo Para Morrer’ começa exactamente com James Bond já reformado (e já um pouco amadurecido) numa ilha paradisíaca das Caraíbas. E ao lado da bela Dra. Madeleine Swann, personagem já interpretada por Léa Seydoux em ‘007: Spectre’ (2015). Ambos fazem juras de amor um ao outro — a segunda de Bond na saga depois da trágica relação com a bela Vesper Lynd (Eva Green) de ‘007: Casino Royale’ — e aparentemente parecem viver uma vida tranquila, embora algo atormentada por certos fantasmas dela. Até que o casal é descoberto pela Spectre, a organização criminosa dos filmes anteriores — ainda comandada por Blofeld, o génio do mal, interpretado por Christoph Waltz , desde a prisão de alta-segurança — numa complicada trama que envolve traições, reviravoltas e o velho sarcasmo de James Bond, que procura ainda explorar uma nova humanidade e a uma suposta mortalidade.

007-Sem Tempo Para Morrer
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Bond vê-se quase obrigado a regressar à acção. Entre vários saltos no tempo, e as habituais cenas em várias partes do mundo, Bond regressa a Londres ao MI6, mas acaba por encontrar a jovem agente-secreta Nomi, ocupando o seu lugar e com o número de 007 (a anglo-nigeriana Lashana Lynch). Pelo caminho reencontra os velhos amigos e inimigos:  Moneypenny (Naomi Harris), M (Ralph Fiennes), o solitário Q (Ben Whishaw), que definitivamente ‘sai do armário’; e o vilão Blofeld (Christoph Waltz), que evidencia uma aproximação inevitável, mas talvez um pouco forçada de um desfecho, para encerrar o arco narrativo; aliás, como a sua ligação com o passado com a jovem francesa Madeleine (Léa Seydoux), que parece empolgar no início do filme, mas que acaba por perder-se entre as várias pistas do enredo. Assim, Bond vai encontrar-se com o antagonista Lyutsifer Safin (interpretado por Rami Malek, o Fred Mercury de Bohemian Rhapsody), mais um vilão que encaixa nos padrões clássicos da saga: a marca da cicatriz na cara e pouco mais. Bond vai impedir que este novo vilão, com sede de vingança, utilize o tal misterioso vírus, que pode dizimar grande parte da população mundial.

007-Sem Tempo Para Morrer
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O argumento escrito pelo realizador Cary Joji Fukunaga (True Detective, 1ª temporada), Neal Purvis e Robert Wade (ambos escrevem os capítulos da saga desde 007: O Mundo Não Chega) e Phoebe Waller-Bridge (a genial argumentista de Fleabag) consegue um equilíbrio razoável. Contudo o filme, tem momentos absolutamente desnecessários e sem muito sentido para o drama principal. Há por exemplo, uma festa-reunião dos muitos vilões globais da Spectre, realizada num país das Caraíbas, que não serve para nada. Porém perderíamos uma das melhores, mais afirmativas e divertidas participações de uma bond girl na história recente da saga, interpretada pela magnífica cubana Ana de Armas. Mas há outros momentos, que à partida podem parecer inúteis, mas que acabam por ajudar de alguma forma a construir essa ‘nova imagem’ de James Bond. Não sendo igualmente, dos argumentos mais originais da saga Bond, serve na perfeição para que Craig demonstre pela última vez, aos 53 anos, os seus dotes físicos, e uma extraordinária e relevante interpretação. Além de ultrapassar as excelentes cenas de acção, Craig apresenta-nos pela primeira vez esse Bond mais vulnerável, apaixonado e marcado pelo passado.

Lashana Lynch
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Há efectivamente muitos buracos na história, muitas ‘gorduras’ e além do filme poder desiludir muita gente, cair na tentação de ser acusado de piegas ou vacilar nessa ideia de que alinha com um ‘assassínio’ do personagem, motivado pelo politicamente correcto e os sinais dos tempos. Porém, ‘007: Sem Tempo Para Morrer’, para além de deixar muitas coisas em aberto, — a própria personagem e si, porque tudo é possível no domínio da fantasia — pode constituir e sustentar até um grande ensaio e um objecto de estudo sobre a evolução da personagem de James Bond, nas últimas décadas e na sua filmografia. Certo é que já nada será como antes, o mundo continuará a ser um lugar perigoso e a precisar de um James Bond. O rosto de Bond vai mudar — mas já mudou várias vezes — e qualquer que seja a identidade, ou o género, de quem assumir o papel de 007 no futuro, irá certamente dominar as muitas discussões e notícias sobre a cultura pop, nos próximos tempos. Seja quem for, que vá assumir 007, vai encontrar sem dúvida, uma personagem muito mais rica, humana e tolerante. Mesmo que Ian Fleming dê umas voltas no túmulo!

José Vieira Mendes

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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