1º Cine Atlântico: Nicolau Breyner, O Imortal

O Cine-Clube da Ilha Terceira presta hoje à noite um tributo à memória de Nicolau Breyner, com a exibição de ‘Os Imortais’, de António-Pedro Vasconcelos. Nicolau Breyner, ator falecido em março deste ano, deu corpo e voz a grandes momentos de televisão e de comédia e foi, também, um dos grandes atores portugueses, que marcou várias gerações de espectadores.

Cine Atlântico

Infelizmente por razões de saúde, embora nada de grave, o realizador António-Pedro Vasconcelos, que além de grande cineasta é um excelente comunicador, não vai estar em Angra, às 21h30, no Recreio dos Artista de Angra, para homenagear Nicolau Breyner, o seu amigo e ator e para falar de Os Imortais.

‘Os Imortais (2003), de António-Pedro Vasconcelos é um filme sobre a fúria de de viver e sobre as reminiscências da Guerra Colonial.’

Estreado em 2003, Os Imortais, de António-Pedro Vasconcelos é um filme sobre a fúria de de viver e sobre as reminiscências da Guerra Colonial. Os protagonistas são um grupo de amigos ex-combatentes que saudosos da adrenalina do passado e para homenagear um amigo que morreu, decidem dar um golpe e passar à acção.

Vê trailer de Os Imortais

António-Pedro Vasconcelos tem sido um dos realizadores portugueses que mais tem trabalhado num cinema que procura alcançar o público e resultados de bilheteira, sem por em causa critérios de qualidade. E por isso Os Imortais é um filme que demarcar-se do cinema de autor, mas também não se cola demasiado  a uma vertente comercial e populista.

Os Imortais

Adaptado do romance Os Lobos Não Usam Coleira, de Carlos Vale Ferraz, este filme Os Imortais é um retrato da geração que esteve na Guerra Colonial e que aborda em particular a inadaptação de um grupo de ex-combatentes no seu regresso a uma vida normal. O filme conta a história de quatro ex-comandos do exército português que combateram e perderam um amigo na guerra.

‘O filme conta a história de quatro ex-comandos do exército português que combateram e perderam um amigo na guerra.’

Estes cinco homens formavam um grupo especial auto-denominado Os Imortais. O filme situa-se, temporalmente, alguns anos mais tarde depois do fim da guerra, quando o grupo desfalcado e relativamente inadaptado, se junta para uma série de assaltos a bancos no Algarve. O plano corre mal quando um deles, Roberto Alua (Joaquim de Almeida), cruza-se com a misteriosa Madeleine (Emmanuelle Seigner).

Os Imortais

À medida que a história se desenrola ficamos a saber que a francesa é casada com um ’empresário’ com ligações perigosas ligadas a África, inclusive a um dos Imortais. E em paralelo um investigador da Polícia Judiciária (Nicolau Breyner), em pré-reforma que decide investigar fora do horário de trabalho uma agressão levada a cabo por Roberto Alua, acaba por descobrir o plano do assalto ao banco.

‘Num género vagamente policial, o realizador António-Pedro Vasconcelos constrói um filme singular com suspense…’

Num género vagamente policial, o realizador António-Pedro Vasconcelos constrói um filme singular com algum suspense, procurando captar o ambiente no pós-Guerra Colonial num filme de personagens que demonstram o marasmo que era viver sem a adrenalina no Portugal dos anos 80. Neste sentido, Os Imortais é principalmente e mais do que um filme de acção um filme existencialista que vive muito à custa do seu excelente elenco: Nicolau Breyner, Joaquim de Almeida, Rogério Samora, Paula Mora, a actriz francesa Emmanuelle Seigner — curiosamente a mulher do realizador Roman Polansky — e o estreante apresentador e cómico Rui Unas, que faz aqui o papel de narrador da história.

Os Imortais

Destacam-se sobretudo as interpretações de Rogério Samora e Joaquim de Almeida e de Nicolau Breyner, que é absolutamente notável, de uma serenidade comovente e que consegue talvez o melhor papel da carreira do grande actor nos filmes portugueses. Muito boas são igualmente as pequenas (e numa cirúrgica escolha) as aparições de Alexandra Lencastre, Ana Padrão, Maria Rueff e Joaquim Nicolau, o gago e o último de Os Imortais.

Os Imortais

O final do filme é brilhante com uma solução narrativa muito interessante e muito importante para resolver todas as questões que ficam em aberto. Para além de não deixar pontas soltas, sobressai uma personagem importante não totalmente desvendada. De facto e em termos de género, não há muitos filmes portugueses como Os Imortais.

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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