“5 Minutos Más” e “Krux”: Cinco Minutos Para Salvar um Casamento, Uma Aldeia Para Aprender a Dizer Não | San Sebastián 2026 – Dia 2

© San Sebastian

Dois filmes, exactamente 92 minutos cada, dois fins do mundo completamente diferentes. Javier Ruiz Caldera põe um casamento dentro de um loop temporal e faz o Kursaal rir de nervos; Tony Vahl fecha uma aldeia alemã em 1945 e pergunta quanto custa dizer “não” quando toda a gente já decidiu obedecer.

No segundo dia do Festival de San Sebastián 2026, dois dos melhores filmes vistos até agora chegam de lugares incompatíveis: uma casa rural onde um casal à beira do divórcio (5 Minutos Más) descobre que o tempo recua cinco minutos e uma aldeia alemã de 1945 (Krux) onde a História avança depressa demais e os habitantes recebem a ordem de não deixarem nada vivo para os russos encontrarem. Um faz rir, o outro gela. Um transforma a ficção científica numa terapia de casal armada; o outro olha para o nazismo sem tanques nem batalhas. Mas 5 Minutos Más, de Javier Ruiz Caldera, e Krux, primeira longa-metragem de Tony Vahl, acabam por falar do mesmo: o momento em que obedecer deixa de ser cómodo e começa a ser mortal.

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O casamento já estava em loop

San Sebastián precisava de cinco minutos para respirar e Ruiz Caldera resolveu oferecê-los vezes sem conta. 5 Minutos Más é a primeira grande faísca espanhola desta edição e uma dessas raridades que lembram que um argumento bem escrito continua a ser um efeito especial mais eficaz do que destruir Manhattan pela décima sétima vez. Antonio (Berto Romero) e Bárbara (Belén Cuesta) chegam a uma casa isolada para tentar salvar um casamento já declarado zona de catástrofe. Recebe-os Carlos (Javier Cámara), suficientemente cordial para inspirar desconfiança, entrega-lhes as chaves e, antes de desaparecer, o tempo recua cinco minutos. Depois outra vez. E outra. O mundo entrou num loop; o casamento, convenhamos, já lá estava.

O actor Berto Romero, aqui no seu primeiro argumento para cinema, percebe a regra do brinquedo: repetir não chega, cada repetição tem de mudar aquilo que julgávamos saber. A mesma frase regressa com outro veneno, uma porta passa de porta a saída, ameaça ou armadilha, e o corpo conserva as consequências mesmo quando o relógio faz marcha-atrás. Ruiz Caldera coreografa a acção para que aqueles cinco minutos pesem também sobre a plateia. Disse em San Sebastián que o problema não era fazer planos longos, mas fazê-los durar “cinco minutos, zero segundos”. Parece mania de relojoeiro; no ecrã é rigorosa mise-en-scène.

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Romero dá a Antonio aquela mistura muito masculina de boa vontade, egoísmo e convicção de que repetir técnicas aprendidas na terapia equivale a fazer terapia. Belén Cuesta desmonta o verniz conjugal sem cair na caricatura e Javier Cámara consegue parecer simultaneamente acolhedor, patético e potencialmente perigoso. Berto resumiu-o na conferência: “A vida não tem géneros.” Foi isso que aconteceu no Kursaal (K1): havia quem risse muito e quem risse nervosamente, e provavelmente ambos estavam certos. O fantástico serve para falar do casamento, o terror do egoísmo e o apocalipse para descobrir que, quando o planeta pode acabar, continuamos perfeitamente capazes de discutir sobre quem deixou de ouvir quem.

Em Krux, o tempo não volta atrás

Depois Krux e tirou-nos praticamente a vontade de rir. Tony Vahl coloca-nos numa pequena aldeia do nordeste da Alemanha, na Primavera de 1945. A maioria dos homens está na frente; ficaram mulheres, crianças, velhos e alguns homens autorizados a permanecer. A guerra quase nunca aparece, mas está em todo o lado: nos aviões, nos panfletos lançados do céu, nos corpos que o rio devolve, no soldado que regressa e confirma aquilo que ninguém quer ouvir. O Reich acabou, o Exército Vermelho aproxima-se e o medo está prestes a tornar-se mais poderoso do que os factos.

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Vahl faz a escolha decisiva. Krux não é um filme “sobre” a Segunda Guerra Mundial no sentido literal do termo, esse em que sabemos logo onde estão os monstros. É um filme sobre o mecanismo que permite ao medo entrar numa comunidade e convencer pessoas vulgares de que a morte pode ser apresentada como dever patriótico. O presidente da  aldeia transforma a derrota numa liturgia suicida: matar o gado, destruir os bens, preparar veneno, cordas, crianças. A pátria, quando já não tem futuro, exige pelo menos cadáveres e sacrifício da vida.

Vahl investigou durante cerca de um ano estes históricos suicídios colectivos e diz que lhe interessava perceber “como é fácil dizer sim a tudo” e “como pode ser poderoso dizer não contra as massas”. É esse “não” que se torna o gesto heróico de Krux. Não há discursos de resistência feitos para conquistar aplausos. Há hesitação, medo, cobardia, fé e a recuperação lentíssima de uma coisa chamada consciência individual. A realizadora não mostra a guerra; mostra aquilo que a propaganda, o rumor e a disciplina fizeram à cabeça de quem ficou para trás.

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A comparação com O Laço Branco é inevitável e, desta vez, não é apenas mania de crítico. Vahl declarou-se admiradora do filme de Michael Haneke, embora tenha procurado afastar-se da sua estrutura. A influência sente-se na aldeia como microcosmo moral, na violência que circula antes de explodir e numa ordem que perdeu legitimidade mas conserva os rituais. E a coincidência cinéfila é perfeita: enquanto San Sebastián descobre Tony Vahl, Lisboa está precisamente a rever Haneke numa retrospectiva integral no Cinema Nimas, iniciada a 17 de Setembro.

Piotr Sobociński Jr. fotografa a aldeia sem a embelezar e Lorenz Dangel dá-lhe uma pulsação sonora que anuncia a catástrofe antes de ela chegar. Jella Haase, Clemens Schick, Lukas Miko e Martin Wuttke nunca são simples funções históricas. Krux seria muito menos perturbador se pudéssemos despachar todos para a gaveta tranquilizadora dos “nazis”. Vahl prefere mostrar quem obedece, quem duvida, quem acorda tarde demais e quem descobre que sobreviver pode ser a forma mais radical de desobediência.

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Dois filmes, o mesmo questionamento

É curioso que dois filmes tão diferentes tenham aparecido no mesmo dia e ambos durem exactamente 92 minutos. Em 5 Minutos Más, o tempo oferece sempre nova oportunidade e as personagens desperdiçam-na repetindo os mesmos erros. Em Krux, não há repetição possível: uma decisão errada pode matar uma família inteira e a História não concede mais cinco minutos. Foi esse o verdadeiro programa deste segundo dia: uma comédia espanhola que nos lembra que somos ridículos mesmo diante do fim do mundo e um drama alemão que recorda que o fim do mundo começa muitas vezes quando toda a gente decide obedecer. Entre gargalhadas nervosas e silêncio absoluto, Ruiz Caldera e Tony Vahl fizeram cinema sobre a mesma matéria-prima: medo, repetição, conformismo e a possibilidade — cada vez mais preciosa — de alguém interromper o mecanismo. Às vezes bastam cinco minutos. Outras vezes é preciso uma aldeia inteira aprender, finalmente, a dizer não.


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