Berlinale 66 (Dia 6): Os Génios Não Têm Preço

 

O realizador norte-americano Spike Lee apresentou, fora da competição, Chi-Raq, uma inesperada e colorida sátira-musical, sobre a violência no South Side de Chicago. Muito aguardado era também Genius, do encenador londrino Michael Grandage com um elenco de grandes estrelas.

Chi-Raq, é o nome dado a Chicago, pela cena hip hop da América, um nome que está directamente relacionado com a má fama do South Side da cidade, uma zona considerada como a capital com maior número de crimes à mão armada e assassinatos dos EUA. Entre 2001 e 2015, morreram cerca de 7.356 pessoas (mais mortes do que nas intervenções americanas no Iraque e Afeganistão), como resultado da violência armada nas ruas, entre gangues (ou organizações) rivais. Tornou-se quase que uma ‘emergência nacional’, por cobro a esta situação. E esta é talvez a justificação para este novo filme de Spike Lee, que em grandes letras vermelhas, faz referência logo no início de Chi-Raq. No entanto, Chi-Raq não é um drama naturalista violento ou documental. É antes uma divertida sátira e jeito de musical da Broadway, muito bem filmado, sobre a situação nas ruas de Chicago, mas usando como base Lisístrata, a comédia clássica do dramaturgo grego Aristófanes.

'Chi-Raq'
O rap e a violência em Chicago.

‘…. decidem combater a espiral de violência com dolo e o forte poder feminino das mulheres: uma greve ao sexo (No peace, No pussy!) .’

Enriquecida com muita e boa música soul e um conjunto de actores notável onde se destacam os habituées Wesley Snipes e a sempre bela Angela Basset. Após as guerras de rua entre os gangues rivais dos ‘troianos’ e ‘espartanos’, que mais uma vez levaram à morte de crianças e adolescentes inocentes, um grupo de mulheres, liderada pela bela Lisístrata (a esplendorosa Teyonah Parris), decidem combater a espiral de violência com dolo e o forte poder feminino das mulheres: uma greve ao sexo (No peace, No pussy!) . Esta greve destina-se a obrigar todos os jovens negros, incluindo o namorado de Lisístrata, o rapper Demetrius Dupree (Nick Cannon), a renunciar a seu ódio impulsivo e à sua violência incontrolável. E em pouco tempo, o apelo de Lisístrata, para quebrar o ciclo de vingança e violência espalha-se muito além das fronteiras de Chicago. Um filme delicioso, muito bem filmado, a começar pelo grande plano sequência inicial, que tem como mestre de cerimónias Samuel L. Jackson. Absolutamente inesperado e genial.

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'Genius'
Colin Firth (Perkins) e Jude Law (Thomas Wolfe).

‘O filme decerto modo convencional, mas muito bem interpretado, é baseado na numa premiada biografia, sobre o mundo literário norte-americano…’

Era muito aguardado Genius, a estreia na realização de mais um dos grandes encenadores do teatro londrino: Michael Grandage. Quanto mais não fosse pelo elenco que inclui um quarteto de protagonistas notável: Nicole Kidman, Laura Linney, Jude Law, Colin Firth e ainda Guy Pierce. O filme decerto modo convencional, mas muito bem interpretado, é baseado na numa premiada biografia, sobre o mundo literário norte-americano e intitulada Max Perkins: Editor of Genius, de A. Scott Berg, adaptada pelo famoso argumentista John Logan (007 Skyfall), que estava ao lado do realizador na CI e parece ter tido grande importância na definição desta trabalho, primeiro obra do homem do teatro. Genius é uma viagem aos loucos anos 20 de Nova Iorque, com Max Perkins (Colin Firth), editor literário da famosa Scriber & Sons, a primeira a assinar exclusivos de edição com escritores como Ernest Hemingway  (Dominic West) e F. Scott Fitzgerald (Guy Pearce), entre outros.

'Genius'
Dois génios a trabalhar.

‘…Thomas Wolfe cai em suas mãos de Perkins este fica convencido que descobriu um génio…’

O filme gira no entanto em volta da relação de Max com Thomas Wolfe, (Jude Law), um génio literário algo dominado por uma manipuladora mulher (Nicole Kidman). Quando um caótico manuscrito de 1.000 páginas de um escritor desconhecido chamado Thomas Wolfe cai em suas mãos de Perkins este fica convencido que descobriu um génio literário. E juntos, os dois homens começam a trabalhar numa versão para publicação, com Max a travar uma luta interminável contra o caos criativo de Wolfe. Durante este processo, Perkins, um gentil pai de família e Wolfe, um autor e uma personalidade excêntrica,  tornam-se obviamente muito próximos pondo em causa a relação com as respectivas mulheres (Linney e Kidman). No entanto, os livros Look Homeward, Angel (1929) e Of Time and the River (1935), tornam-se sucessos retumbantes, ao mesmo tempo que o escritor vai ficando  cada vez mais paranóico. Também na competição oficial foi apresentado Soy Nero, do realizador iraniano Rafi Pitts, um filme estranho, que curiosamente conta a história de um jovem mexicano que dá o salto para os EUA e que para conseguir a cidadania americana e o ‘Green Card’, acaba perdido nas montanhas desertas do Médio Oriente, integrado numa das forças militares de intervenção americanas.

JVM

 

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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