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69ª Berlinale | ‘The Golden Glove’ e ‘Mr. Jones’

A competição da Berlinale 69, está agora sensivelmente a meio, mas não tem criado entusiasmo, nem trazido grandes novidades. Destaques para dois filmes baseados em histórias verídicas: ‘The Golden Glove’, de Fatih Aki, sobre um serial killer em Hamburgo dos anos 70 e ‘Mr. Jones’, de Agnieszka Holland, sobre o lendário jornalista que revelou os falhanços do Estalinismo na URSS, dos anos 30.

‘The Golden Glove’, (‘Der Goldene Handschuh’) marca o regresso do realizador germano-turco de Fatih Akin, à Berlinale depois de ter ganho o Urso de Ouro 2004 com o notável ‘A Esposa Turca’. Filme esse que abriu as portas ao cineasta para a fama no cinema mundial. Com ‘The Golden Glove’, Fatih Akin, procura uma nova afirmação — num concurso que tem sido até agora pouco entusiástico, — e tem hipótese de pelo menos ganhar um prémio nesta Berlinale 2019. De origem turca mas criado na cidade de Hamburgo, Akin relata um caso criminal que fez correr muita tinta nos jornais alemães da década de 70.

TRAILER | ‘THE GOLDEN GLOVE’

Trata-se de uma rigorosa reconstrução histórica de um caso verídico centrado na zona dos bares de má-vida do porto de Hamburgo que faz lembrar um pouco o nosso Cais do Sodré, em Lisboa na mesma época. Fritz Honka, interpretado por Jonas Dassler, é um serial killer que segue quase sempre o mesmo método: depois de se embebedar e conhecer as vítimas num bar que se chama, justamente, ‘Der Goldene Handshuh’, leva-as para casa, onde as mata, esquarteja e armazena as várias partes do corpo. Honka terá morto cerca de quatro prostitutas entre 1970 e 1975, nesse bairro de St. Pauli, em Hamburgo. St. Pauli era na altura um bairro de diversão noturna, povoado de figuras decadentes: bebedores habituais e prostitutas, viciados em jogos de azar e outras almas penadas e solitárias, como Fritz Honka, um homem baixinho, quase o ‘quasimodo’ com óculos grossos de aro de tartaruga e um rosto infeliz e deformado (que aliás no filme é no filme uma caricatura do indivíduo original). Solitário e trabalhador desqualificado Honka — segundo ele filho de um pai comunista e com apelido de origem finlandesa — engatava mulheres sozinhas e mais velhas, alcoólicas inveteradas, nesse peculiar bar local. Apesar da sua aparente fragilidade ninguém percebeu que ele matava violentamente essas mulheres no seu apartamento num sótão de um prédio decadente, as desmembrava e guardava os seus restos atrás da parede do sótão, que causava um imenso fedor, apesar de espalhar sprays e purificadores pela casa. No entanto, culpava a família grega vizinha de baixo pelos cheiros penetrantes das suas comidas tradicionais.

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Fritz Honka, interpretado por Jonas Dassler, é um serial killer, em Hamburgo nos anos 70.
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‘The Golden Glove’, (‘Der Goldene Handschuh’) é um filme violento mas é cuidadosamente marcado também por uma encenação ‘fake’ e exagerada para não ferir a susceptibilidade ao espectador e por outro lado as situações têm um humor muito característico que faz lembrar os filmes de Quentim Tarantino. Contudo, ‘The Golden Glove’, (‘Der Goldene Handschuh’) é além de baseado no caso verdadeiro do assassino em série é igualmente inspirado num romance policial de 2016 da autoria de Heinz Strunk. Com estas duas referências da realidade e ficção Fatih Akin criou assim um retrato de um criminoso violento socialmente depravado, impulsionado pela misoginia, frustração, obsessão sexual e sentimentalismo. O filme de Akin é igualmente um estudo social sobre o suposto milagre económico alemão, e sobre uma sociedade marcada pelo alcoolismo como fuga de indivíduos desequilibrados e traumatizados pela guerra e pela turbulência pós-guerra que habitavam uma Alemanha cinzenta e industrializada, totalmente desprovida de confiança e esperança; é ainda a memória de um bairro e da sua cidade, Hamburgo que mudou muito graças a uma extraordinária experiência de requalificação urbana nas últimas décadas. A banda-sonora como sempre nos filmes de Fatih Akin — que trabalha muitas vezes como DJ — é uma verdadeira delícia com êxitos populares de canções alemãs da rádio da década de 70.

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Gareth Jones é interpretado por James Norton, estrela das séries ‘Happy Valley’ e ‘McMafia’.

‘Mr. Jones’, da polaca Agnieszka Holland é também um filme baseado numa história verídica. Desta vez sobre o jovem jornalista galês Gareth Jones — interpretado por James Norton, estrela das séries ‘Happy Valley’ e ‘McMafia’, da BBC TV — que em busca de uma reportagem única, infiltrou-se num comboio de Moscovo para Kharkov, na Ucrânia, em março de 1933. Jones, um ambicioso jornalista com formação diplomática e fluente em russo, saltou numa pequena estação no meio do nada e continuou a pé clandestinamente numa viagem de terror por um país destroçado e onde experimenta pela primeira vez na vida, os horrores da fome e miséria. Em toda parte Jones vai encontrar pessoas mortas de fome e frio, ao mesmo tempo que se cruza com agentes dos serviços secretos soviéticos determinados a impedi-lo de fazer e publicar uma reportagem que denunciava esse ‘holocausto ucraniano’. Apoiado por Ada Brooks (Vanessa Kirby, a Princesa Margarida da série ‘A Coroa’), uma correspondente do New York Times em Moscovo, Jones acaba por conseguir espalhar as notícias chocantes no Ocidente, colocando assim contra o seu poderoso rival, Walter Duranty (Peter Sarsgaard), um jornalista pró-Estaline, vencedor do Prémio Pulitzer, e personagem-chave para o reconhecimento dos EUA, do regime da URSS. Efectivamente a política de colectivização forçada da agricultura, determinada por Estaline resultou na miséria e ruína das populações, ao ponto de se tornar no equivalente a um verdadeiro assassinato em massa.

TRAILER | ‘MR. JONES’ COM JAMES NORTON

Filmado em diversas localizações na Polónia, Escócia e Ucrânia, o filme de Agnieszka Holland — faz lembrar um pouco ‘Cold War-Guerra Fria’ — relembra o lendário jornalista Gareth Jones (1905-1935) que, apesar da feroz resistência, não se deixou dissuadir de dizer a verdade; mas é igualmente uma homenagem aos princípios do jornalismo de investigação. As grandes questões do filme confrontam o jornalismo com a propaganda, a diplomacia e as actividades dos serviços secretos e informação e até que ponto todos se cruzam e misturam, quando falta a ética e a deontologia. Curiosa é também ao autor da narração e que se encontra com Jones no filme: trata-se de George Orwell, que parece dar a entender que foi a reportagem do jornalista galês que inspirou o escritor a conceber a parábola distópica ‘O Triunfo dos Porcos’ (1945). ‘Mr. Jones’, da polaca Agnieszka Holland é um filme clássico e convencional, mas prende o espectador do principio ao fim.

José Vieira Mendes (em Berlim)

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colabora no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’, ( 2014). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’,(2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’, (2012) Mostras de Cinema da América Latina 2010 e 2011, 'Vamos fazer Rir a Europa', 2014 e Mostra de Cinema Dominicano, 2014 e Cine Atlântico, Terceira, Açores. É o Director de Programação do Cine’Eco- Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela desde 2012. É membro da FIPRESCI.

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