69ª Berlinale | Uma Abertura Optimista

A sensibilidade e uma visão feminina de vidas comuns abre o Festival de Berlim 2019, com ‘The Kindness of Strangers’, da dinamarquesa Lone Scherfig na Competição Oficial. Logo a seguir ‘A Portuguesa’, de Rita Azevedo Gomes estreia na secção Forum, não-competitiva.  Mas há mais representantes portugueses na Berlinale 2019, espalhados pelas várias secções e iniciativas até 17 de fevereiro.

É com ‘The Kindness of Strangers’, imbuído da enorme sensibilidade feminina e optimismo realista da realizadora dinamarquesa Lone Sherfig (‘Italiano para Principiantes’) que abre o Festival de Berlim 2019. A sensibilidade dela com personagens, emoções fortes e um humor subtil prometem um ótimo início para o festival, afirmava há dias Dieter Kosslick, o diretor artístico do Festival de Berlim, que termina este ano o seu mandato. À partida concordamos já que esta opção de abertura pode dar o mote e trazer um final feliz para a longa carreira do veterano director que vai agora para a reforma; e por outro lado uma escolha que pode marcar uma certa diferença num festival que tem fama de apresentar quase sempre uma programação politizada, pesada e alternativa.

Berlinale Agnès Varda
Agnès Varda

Mas a Berlinale 2019 não deixa por isso de manter essa sua vertente ‘engagée’ e activista já que novamente estão bem destacadas na sua Selecção Oficial, que culmina com a entrega do Urso de Ouro a 17 de fevereiro, as grandes questões do momento, como as migrações, a igualdade de géneros, e afirmação das mulheres em todos os campos da actividade artística e profissional. Inclusive com algumas iniciativas paralelas que acompanham os filmes, as secções e sobretudo com duas simbólicas homenagens: um Prémio de Carreira que será atribuído à actriz britânica Charlotte Rampling, com um programa de dez filmes que inclui ‘Os Malditos’, de Luchino Visconti, ‘O Porteiro da Noite’, de Liliana Cavani e ‘Sob a Areia’, de François Ozon;  e quase no final do Festival a cineasta francesa que se tornou pela sua idade quase uma lenda, Agnès Varda vai mostrar fora de concurso o seu documentário ‘Varda por Agnès’, contando toda sua vida de realizadora de 1954 até à actualidade.

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Juliette Binoche
Juliette Binoche

O júri da Competição Internacional, composta por dezasseis longas-metragens será presidido como já foi amplamente anunciado pela consagrada Juliette Binoche, premiada entre tanto prémios na sua carreira, com o de Melhor Atriz da Berlinale, em ‘O Paciente Inglês’ (1996), de Anthony Minghella. A francesa será acompanhada nas decisões por um grupo de figuras internacionais como Justin Chang (EUA), crítico de cinema do Los Angeles Times, pela actriz Sandra Hüller (Alemanha), que foi protagonista de ‘Toni Erdman’, pelo realizador de ‘Uma Mulher Fantástica’, Sebastián Lelio (Chile), Rajendra Roy (EUA), curadora-chefe da secção de cinema do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque e por último pela actriz de teatro e televisão britânica Trudie Styler (Reino Unido).

Berlinale The Kindness of Strangers
‘The Kindness of Strangers’ é um conto de fadas moderno.

A cineasta dinamarquesa Lone Scherfig, um talento europeu bem consolidado entre a Europa e Hollywood, com filmes como ‘Uma Outra Educação nomeado para os Óscares em 2010, ou pela adaptação do romance Um Dia (2011), com Anne Hathaway, estreia agora na Berlinale 2019, The Kindness of Strangers (‘A Bondade dos Desconhecidos’), um conto de fadas moderno com uma história bastante optimista, segundo as notas que foram divulgadas à imprensa. O filme quase como sempre aparenta ter um tom agridoce e passa-se principalmente durante um frio inverno em Nova York quando um grupo de personagens anónimas vai encontrar ‘amor e ternura’ e ‘massajar’ as almas uns dos outros, algo que está cada vez mais difícil no mundo moderno e sobretudo ao dia-a-dia nova-iorquino. O elenco é internacional à imagem da grande metrópole americana composto por Zoe KazanTahar RahimCaleb Landry JonesJay BaruchelAndrea Riseborough e Bill Nighy, e The Kindness of Strangers, apesar de ser o filme de abertura vai integrar a competição oficial como candidato ao Urso de Ouro.

Berlinale Grâce à Dieu
‘Grâce à Dieu’, é sobre a pedofilia no seio da igreja católica.

Nos mais filmes e realizadores a concurso e numa das mais variadas representações internacionais de sempre, estarão nomes como o canadiano Denis Côté com ‘Répertoire des villes disparues’; o francês François Ozon, com ‘Grâce à Dieu’, um filme protagonizado por Melvil Poupaud e Denis Ménochet sobre a pedofilia no seio da igreja católica; um aguardado regresso do — já premiado aqui na Berlinale — realizador germano-turco Fatih Akin, com ‘Der Goldene Handschuh’, a história de um serial killer passada em Hamburgo; os chineses Zhang Yimou, com ‘One Second’, e Wang Xiaoshuai, com ‘So Long, My Son’. Para além destes estarão poucas novidades, sobretudo vindas do outro lado do Atlântico, assentando mais a competição num grupo de cineastas habituados a participarem no circuito dos festivais europeus e com filmes como: ‘Mr. Jones’, da polaca Agnieszka Holland; ‘Öndäg’, do mongol Wang Quan’an; ‘La Paranza dei Bambini’, do italiano Claudio Giovannesi, adaptação de um livro de Roberto Saviano; ‘Systemsprenger’, da alemã Nora Fingscheidt; ou ‘Out Stealing Horses’, do norueguês Hans Petter Moland. Ao lado destes na competição, estarão ainda ‘Der Boden unter den Füßen’, da austríaca Marie Kreutzer; ‘Elisa y Marcela’, da espanhola Isabel Coixet; ‘God Exists, Her Name is Petrunya’, da macedónia Teona Mitevska, um filme que pelas suas origens pode ser uma lufada de ar fresco, dentro desta selecção; ‘A Tale of Three Sisters’, do turco Emin Alper, e depois ainda os filmes da alemã Angela Schanelec, com o titulo de ‘Ich War Zuhause, Aber’, e por último do israelita Nadav Lapid, que estreia a sua terceira longa, intitulada ‘Synonymes’.

Fora de concurso, exibem-se ainda o documentário ‘Amazing Grace’, um aclamado registo de um concerto gospel de Aretha Franklin de 1972, que saiu dos arquivos onde estava guardado há décadas, e foi concluído por Alan Elliott a partir de material filmado por Sydney Pollack; ‘Vice’, a história de Dick Cheney contada por Adam McKay, com Christian Bale e Amy Adams; ‘L’adieu à la nuit’, do veterano francês André Téchiné, com Catherine Deneuve e a estreia na realização do actor brasileiro Wagner Moura (‘Tropa de Elite’), com ‘Marighella’, protagonizado pelo músico Seu Jorge.

Mas há muitos mais filmes que vão ser exibidos nas secções não-competitivas que merecem destaque como o documentário ‘Watergate’, de Charles Ferguson e o novo filme do cineasta indiano Ritesh Batra (‘A Lancheira’), intitulado ‘Photograph’ (na secção Berlinale Special); o documentário de Seamus Murphy sobre P. J. Harvey, com o título ‘A Dog Called Money’, a estreia na realização do actor Jonah Hill, com ‘Mid90s’, e ‘What She Said: The Art of Pauline Kael’, um retrato documental da célebre crítica de arte norte-americana (Panorama). Como verdadeiros ‘guilty pleasures’, estão a possibilidade de assistir às versões restauradas de ‘Ordet’, de Carl Theodor Dreyer e de ‘A Cidade Turbulenta’, de George Marshall, com James Stewart e Marlene Dietrich (na Berlinale Classics).

Berlinale
Seu Jorge é ‘Marighella’, na estreia de Wagner Moura como realizador.

A propósito de filmes do outro lado do Atlântico e ao contrário de edições anteriores da Berlinale, em que a representação é sempre muito forte, este ano não há nenhum filme latino-americano (e português) na competição principal. Quantos aos portugueses já lá vamos, mas é importante referir que esta ausência latino-americana não é completa: no júri da competição oficial está o cineasta chileno Sebastian Lelio, que em 2013, estreou aqui ‘Glória’ (Urso de Prata de Melhor Actriz para Paulina Garcia) e em 2017 novamente ‘Uma Mulher Fantástica’, que foi Óscar de Melhor Filme de Língua Estrangeira, no ano passado. Muito aguardado é também o filme brasileiro ‘Marighella’, que será exibido fora da competição, realizado pelo actor — estreia-se com como realizador — Wagner Moura (‘Tropa de Elite’). O filme conta os últimos cinco anos de vida do guerrilheiro e resistente à ditadura militar brasileira Carlos Marighella, interpretado por Seu Jorge. Curiosamente a cineasta brasileira Maria Augusta Ramos, cujo o documentário ‘O Processo’, sobre o impeachment de Dilma Rousseff, estreado aqui o ano passado e foi premiado no Festival Visions du Réel, na Suíça, faz parte do júri que vai escolher o Melhor Documentário da Berlinale 2019.

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colabora no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’, ( 2014). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’,(2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’, (2012) Mostras de Cinema da América Latina 2010 e 2011, 'Vamos fazer Rir a Europa', 2014 e Mostra de Cinema Dominicano, 2014 e Cine Atlântico, Terceira, Açores. É o Director de Programação do Cine’Eco- Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela desde 2012. É membro da FIPRESCI.

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