69º Festival de Cannes (Dia 1) | O Café de Woody Allen

Woody Allen abre daqui a pouco a passadeira vermelha de Cannes com o seu novo ‘Café Society’, uma comédia romântica fora de uma competição onde há filmes de cineastas-autores, com elencos de grandes estrelas.

Café Society

Café Society de Woody Allen, com Kristen Stuart, Jesse Eisenberg, Steve Carell (fora de competição)

A história: Na Nova Iorque dos anos 30, o jovem Bobby Dorfman (Jesse Eisenberg), parece sentir-se asfixiado pelos conflitos permanentes entre os pais, um irmão gangster e  a joalharia da família herdada do avô judeu. O rapaz decide então tentar a sua sorte em Hollywood, onde seu tio Phil (Steve Carell), se tornou entretanto um poderoso agente de estrelas, acabando por contratá-lo como paquete. Em Hollywood, Bobby não leva muito tempo a apaixonar-se por Vonnie (Kristen Stuart), uma colega de trabalho. Infelizmente, a rapariga está comprometida e vai ter de se contentar com a sua amizade. Até que um dia Vonnie chega a sua casa para lhe dizer que seu namorado acabou com a relação. De repente, as luzes brilham no horizonte para Bobby e amor parece cair-lhe nas mãos…mas a vida dá muitas voltas, com um promissor regresso de Bobby a Nova Iorque.

A análise: O cinema de Woody Allen é tanto melhor quando se torna mais imoral. Embora  o realizador goste por vezes de se tornar sentimental como por exemplo em Manhattan (1979) ou em Radio Days (1987), nem sempre o faz com tanto talento e perversidade. Este último até se trata de uma bela história sobre infância perdida, ou sobre algo que se perdeu pelo destino, e que está igualmente na base, mas em outro contexto, deste Café Society, passado igualmente nos anos 30. No entanto, neste seu novo filme Woody Allen desenvolve uma história de arrependimentos sobre aquilo que se devia ter feito e não se fez, e sobre os amores perdidos e desencontrados, entre Bobby (Jesse Eisenberg) e Vonnie (Kristen Stewart) (ele está bem e já se tornou um alter-ego do realizador, ela está linda mas parece pouco à vontade no papel), passada em Hollywood, dois nomes de personagens que rimam como uma canção. Só que em Café Society tudo parece muito doseado, inocente e sem imoralidades: apenas um plano sensual de Kristen Stuart, de calções e camisa atada, vestida num guarda-roupa bem hollywoodiano, a mostrar a cintura e as longas pernas, dentro do descapotável em Beverly Hills, e depois apenas beijos e mais beijos quase inocentes e românticos.

Café Society

Levamos algum tempo até a perceber como tudo se encaixa neste Café Society, porque é tudo demasiado simples, enquanto em voz off Woody Allen se vai divertindo e excitado com os fetiches que marcam o seu cinema: um pouco da inocência perversa que ocuparam a Hollywood dos anos 30, um pouco do bandido aparentemente regenerado em dono de clubes de jazz de Nova Iorque e um pouco da familia judia tradicional dos bairro pobre de Brooklyn, que está nas suas origens. E depois afinal é uma história de sucesso de um tipo falhado nos amores, mas que se torna numa das figuras da noite de Nova Iorque, sem fazer grande coisa por isso e que acaba nem bem nem mal.

Café Society

Uma cidade muito bem fotografada (de dia e noite), pelo mestre Vittorio Storato (Apocalypse Now), como aliás todos os planos de Café Society, e portanto muito mérito para esta colaboração. Café Society é um filme interesante, bonito e intimista, entretenimento suave, mas um pouco mais contido que muito dos filmes anteriores, talvez porque parecem começar a vir ao de cima os 80 anos de Woody Allen.


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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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