70º Festival de Cannes (Dias 5 e 6) | Estranhos em Casa

O retrato da família Laurent, a família burguesa de ‘Happy End’, pode valer e não tenho dúvidas pelo menos até agora, mais uma Palma de Ouro, a terceira a Michael Haneke. Colin Farrel e Nicole Kidman são os protagonistas de ‘The Killing of a Sacred Deer’, do grego Yorgos Lanthimos, mais um conto negro inspirado numa tragédia grega.

Vencedor das Palmas de Ouro 2009 (O Laço Branco) e 2012 (Amor), e de muitos mais prémios, o realizador austríaco Michael Heneke, entrou hoje na competição com Happy End, um excelente drama familiar com Jean-Louis Trintignant, Isabelle Huppert, Mathieu Kassovitz e Toby Jones. E pelos vistos para ser para já o principal candidato à Palma de Ouro do Festival de Cannes 2017.

'Happy End'
Isabelle Huppert é Anne Laurent.

Happy End traça o retrato íntimo de uma família burguesa que é o ponto central da história e não um filme sobre a crise dos refugiados, como tem sido divulgado. Trata-se antes de uma sátira, cínica e macabra sobre um possível final feliz para uma família, em que cada um dos membros parece ter algo a esconder, apesar do dinheiro e do seu estatuto social e empresarial, na cidade de Calais, que como é sabido albergou o maior campo de refugiados da Europa.

Vê excerto 1 de Happy End

O filme começa com uma imagem gravada no Messenger a partir de um telemóvel. Enquanto uma mulher escova os dentes o espectador vai-se confrontado com o diálogo de mensagens. De novo e como em Caché (2005) vai-se desenvolvendo, em cada um  dos personagens um mistério abstracto que assenta aparentemente na culpa de serem quem são. O filme conta quase que num instante — apesar da sua 1h47 de duração — uma cínica e irónica parábola sobre esta família poderosa e endinheirada, que parece viver alheia a tudo o que não seja o quotidiano de cada um.

'Happy End'
Jean-Louis Trintignant é o patriarca dos Laurent.

O patriarca (Jean-Louis Trintignant) contempla e esconde-se na sua doença de Alzheimer, para assistir à derrocada da família, com os descendentes (filhos e neto), incapazes de lhe seguirem os passos; a neta pequena (uma extraordinária interpretação da pequena Fantine Harduin), vinda de um primeiro casamento do filho médico (Mathieu Kassovitz), recém-chegada a um núcleo familiar paterno, que praticamente desconhecia, vai observando com perspicácia um vida absurda e um comportamento dissimulado dos adultos que a rodeiam; no meio, está a filha (Isabelle Huppert) implacável que dirige com braço de ferro os negócios familiares (faz lembrar a personagem de Ela, de Paul Verhoven), com a ajuda do namorado, um advogado inglês (Toby Jones); o tal filho médico (Kassovitz) está entregue a uma vida dupla, comunicando com a amante através do facebook; e há ainda os estranhos criados marroquinos (Hassam Ghancy e Nabiça Akkari), que se comportam com servidão e o outro neto (Franz Rogowski) completamente desnorteado.

'Happy End'
Mathieu Kassovitz é Thomas Laurent.

A câmera é como sempre observacional, e directa e os silêncios valem ouro na narrativa. A certa altura o velho patriarca sua cadeira de rodas — numa cena certamente montada de improviso e com participantes improvisados — fala com os imigrantes na rua. Não se ouve nada porque a conversa perde-se toda nos ruídos da passagem de automóveis na rua com movimento. Há ainda outra cena e um diálogo notáveis na biblioteca-escritório do patriarca Laurent com a neta de 13 anos, em que ambos confessam os seus segredos, onde se fala sobretudo de morte e suicídio.

Vê excerto 2 de Happy End

Happy End concretiza uma espécie de antologia das obras anteriores Michael Haneke, embora seja um filme extraordinário e de uma subtileza cirúrgica e dramática. Em uma boa parte os temas tratados, são todos os que têm perseguido o realizador e de alguma forma todos nós nesta sociedade europeia, em mudança vertiginosa entre a agricultura, a indústria, versus a alta tecnologia digital. A participação de Jean-Louis Trintignant Isabelle Huppert, só o vem reforçar esta ideia de uma feliz e extraordinária recorrência nos temas e nos dramas dos personagens.

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Happy End é uma profunda reflexão de como os mecanismos do poder, dinheiro, novas tecnologias, redes sociais, da banalização, violência e poder de manipulação das imagens podem influenciar os sentimentos e emoções das pessoas. Mesmo com as redes sociais estamos cada vez mais sós. É este o caso desta estranha família Laurent de Calais, para quem lhe é indiferente  a crise dos refugiados, ali perto.

'Happy End'
A pequena Fantine Harduin é a neta.

O resultado de Happy End é um filme simples, gélido e abstracto, que se desenvolve entre o registo de um ‘requiem’ e de uma cantata diabólica, que acaba com muita ironia por ter um final aberto, mas feliz.

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colabora no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’, ( 2014). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’,(2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’, (2012) Mostras de Cinema da América Latina 2010 e 2011, 'Vamos fazer Rir a Europa', 2014 e Mostra de Cinema Dominicano, 2014 e Cine Atlântico, Terceira, Açores. É o Director de Programação do Cine’Eco- Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela desde 2012. É membro da FIPRESCI.

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