70º Festival de Cannes | ‘The Square’ e um Palmarés (Politicamente) Correcto

O júri presidido pelo cineasta espanhol Pedro Almodóvar atribuí a Palma de Ouro da 70º Festival de Cannes ao filme ‘The Square’, do sueco Ruben Östlund, uma reflexão sobre hedonismo e o valor da arte contemporânea, num Palmarés que pareceu um pouco querer agradar a gregos e troianos.

VÊ A CONFERÊNCIA DE IMPRENSA DE ‘THE SQUARE’

The Square, do sueco Ruben Östlund, (Força Maior), não deixa de ser um vencedor inesperado.  No entanto, a propósito de troianos este Palmarés da 70º Festival de Cannes mostra uma surpreendente necessidade de agradar a todos, de um júri efectivamente bastante heterogéneo (composto pelos cineastas Park Chan-Wook, Paolo Sorrentino e Maren Ade, as actrizes Jessica Chastain, Fan Bingbing e Agnès Jaoui, o actor norte-americano Will Smith e o compositor francês Gabriel Yared) presidido pelo cineasta espanhol Pedro Almodóvar.

VÊ A CONFERÊNCIA DE IMPRENSA DO JÚRI NO PÓS-PALMARÉS

Começou logo com um Prémio de Argumento ex aequo para You Were Never Really Here, de Lynne Ramsay e para o grego Giorgios Lhantimos com The Killing of a Sacred Deer. E depois um Grande Prémio do Júri que foi para 120 Battements par Minute, de Robin Campillo, um dos favoritos e igualmente o Prémio FIPRESCI, da crítica internacional. O júri decidiu ainda, nesta edição do 70º Aniversário atribuir um Prémio Especial, à actriz Nicole Kidman.

The Square
O realizador com a Palma de Ouro 2017, Pedro Almodóvar e Juliette Binoche.

Quanto ao vencedor da Palma de Ouro 2017, o sueco Ruben Östlund, (Força Maior), é efectivamente um dos cineastas mais entusiasmastes da actualidade e The Square, um filme excelente inspirado numa curiosa instalação artística de arte contemporânea. A instalação The Square é pretexto para Östlund mais uma vez nos mostrar com seu olhar frio e cirúrgico, os ridículos e as monstruosidades mais elementares dos seres humanos, em situações de risco ou ameaça do seu espaço vital.

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The Square conta a história de Christian (Claus Bang), um respeitado conservador de museu de arte contemporânea, com um estilo muito cool, que além de apoiar causas humanitárias, desloca-se de transportes públicos ou num carro eléctrico. Nesta linha, prepara uma instalação pouco comum de um artista americano (Dominic West), que incita os visitantes ao altruísmo e a terem um novo olhar sobre o próximo. No entanto, não é fácil viver com os seus valores, pois na rua roubam-lhe a carteira e o telemóvel e a sua reacção vai provocar-lhe algumas contrariedades. Ao mesmo tempo a agência de comunicação do museu, lança sem a sua autorização, uma surpreendente campanha para promover The Square, que logo tem uma uma reacção muito negativa do público. Todos estes incidentes colocam Christian numa profunda crise existencial, profissional e familiar.

The Square
Um sátira sobre a performance arte e as obras contemporâneas.

The Square segue efectivamente a linha dos filmes anteriores de Östlund, entre um registo dramático e satírico. É um filme elegante passado no meio da alta cultura e que se serve de dispositivos visuais e retóricos para mexer e divertir o espectador: por exemplo mostrar o olhar de um cidadão comum para muitas da peças artísticas e de arte contemporânea que são expostas nos museus. Por outro lado The Square aborda diversos temas actuais, relacionados com a crise de valores: responsabilidade, confiança, riqueza, pobreza, poder e impotência; e como esta crise vai afectando os indivíduos em geral na sociedade contemporânea.

The Square
O protagonista, o actor o dinamarquês Claes Bang, tem estilo James Bond.

É curiosa a perspectiva que mostra a posição do Estado — a alternativa nos financiamentos privados às artes em detrimento dos públicos — e dos media, — a irresponsabilidade e a total ignorância quer dos novos produtores de conteúdos, quer dos seus editores — em relação à criação artística em geral. Destaque para além da interpretação do dinamarquês Claes Bang, que é absolutamente brilhante , bem como de Elisabeth Moss, a loira das séries Mad Man e da 1ª Temporada de Top of the Lake, de Jane Campion.

PALMARÉS 2017

Palma de Ouro

The Square

Prémio Especial de 70º Aniversário

Nicole Kidman

Grande Prémio do Júri

120 battements par minute

Melhor Realizador

Sofia Coppola (The Beguiled)

Melhor Ator

Joaquin Phoenix (You Were Never Really Here)

Melhor Atriz

Diane Kruger (In the Fade)

Prémio do Júri

Loveless

Melhor Argumento

The Killing of a Sacred Deer / You Were Never Really Here

Câmera de Ouro

Jeune Femme

Prémio FIPRESCI

120 battements par minute

Palma de Ouro de curta-metragem

Xiao Cheng Er Yue

Menção Especial

Katto

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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