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71ª Berlinale (Dia 2) | A Caixa de Memórias

O casal de cineastas libaneses Joana Hadjithomas e Khalil Joreige, em ‘Memory Box’, exploram a importância da memória pessoal e histórica num drama muito pessoal e comovente, que vai de Montreal a Beirute.

A tragédia da guerra civil libanesa estende-se muito além da década de 1980 e chega à terceira geração de uma família imigrada no Canadá, através de um drama comovente, intitulado ‘Memory Box’. É o primeiro filme em nove anos do premiado casal libanês Joana Hadjithomas e Khalil Joreige (‘A Perfect Day’, 2005 ou ‘Eu Quero Ver’ de 2008, onde Catherine Deneuve enfrentou a devastação de Beirute), cujo trabalho tem variado entre as longas-metragens, docs, instalações e performances. Os seus trabalhos, já foram apresentados no Festival de Cannes, Tate Modern, Centre Pompidou ou  MoMA de Nova York.

VÊ TRAILER DE ‘MEMORY BOX’

Maia (Rim Turki) mora em Montreal com sua filha adolescente Alex (a estreante Paloma Vauthier). Na véspera de Natal, a família, recebe uma enorme caixa de papelão, que Maia havia confiado à sua melhor amiga Liza, ao sair do Líbano, por volta de 1983. Entretanto Liza morreu e a ‘caixa de memórias’ foi devolvida ao remetente. Maia não está em casa na altura e Alex fica muito intrigada, pois a sua avó Téta (Clemence Sabbagh), persuade-a de uma maneira bastante insistente a esconder a caixa de Maia até ‘depois das férias do Natal’, porque esse o passado deixará a sua filha bastante perturbada. Porém essa caixa de Pandora, acaba por se desmontar e abrir acidentalmente, na cave. A curiosidade da jovem Alex, que está ‘confinada’ em casa devido a uma tempestade de neve, faz com que não resista à tentação de ir secretamente consultar, essas memórias de sua mãe. Alex, acaba por desvendar uma adolescência conturbada de Maia (interpretada apaixonadamente nesse momento pela jovem Manal Issa), passada na guerra em Beirute, na década de 80. O conteúdo da caixa vai conectar mães e filhas ao longo do tempo e das gerações.

Memory Box
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’Memory Box’ é o mais recente obras dos artistas Joana Hadjithomas e Khalil Joreige, que novamente questionam o papel da memória, na criação de imagens e na escrita da história contemporânea. A dupla, que são na realidade um casal, sempre mostraram um grande interesse em trabalhar, os processos emocionais, associados aos traumas da guerra: desta vez decidiram exporem-se eles próprios, com o seu passado e memórias. A matéria-prima de ‘Memory Box’, são os diários e velhas cassetes-audio de Joana de 1982 a 1988 e as fotografias de Khalil, durante a guerra do Líbano. Esse material, constitui um impressionante arquivo e a primeira parte do filme, torna-se numa fusão extremamente densa desses elementos, que compõem uma precisa noção de um tempo, feito à base de colagens de centenas de fotografias antigas, filmagens em super 8 granuladas, cadernos, canções e músicas, frases e citações e artigos de jornal. É a partir dos arquivos pessoais que os cineastas constroem a história de Maia e Alex. A narrativa parte da experiência da jovem, hábil na utilização do telemóvel para fotografar e filmar e na estética das redes sociais; e isto vai dialogar, com a presença física de imagens e sons da juventude da sua mãe. Esse extraordinário diálogo entre o digital e analógico, engendra um filme único e comovente que dá forma, às visões e representações pessoais dos dois cineastas.

Memory Box
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A equipa estava ainda no processo de filmagens e pós-produção de ‘Memory Box’, quando curiosamente, se deu a grande explosão no porto de Beirute, que segundo os cineastas, além de ter dificultado a continuidade do trabalho, aliás como a pandemia, remeteu novamente para essas memórias terríveis da guerra. Porém, ao contrário de muitos filmes sobre as guerras e as tensões no Médio Oriente, este ‘Memory Box’, diferencia-se porque não termina com uma nota trágica, mas apenas com um caminho para uma certa desesperança e desilusão em relação ao futuro. As protagonistas buscam um fim natural para o filme, num regresso simbólico à Beirute da actualidade, sinalizando-o primeiro, com uma visita ao cemitério cristão, onde estaria a tumba do pai de Maia, que acabam por não localizar; depois, numa exuberante dança  festiva em grupo, ao som de One Way or Another, de Blondie, como que ligando o presente à alegria coletiva da jovem Maia e de um reencontro com os seus amigos da adolescência. Foi esta a forma que os dois cineastas, encontraram, para visualizar a natureza imaterial da memória e como esta é transmissível de uma geração para a seguinte. 

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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