©71ª Berlinale

71ª Berlinale (dia 2) | Aprender Com o Porno

‘Bad Luck Banging or Loony Porn’, do romeno Radu Jude, para já um dos fortes candidato aos Ursos da 71ª Berlinale, começa de uma forma surpreendente, como se fosse um filme pornográfico caseiro e hard core. Depois transforma-se brilhantemente numa espécie de viagem sobre os símbolos, questões e imagens do nosso tempo.

Filmado durante a pandemia, ’Bad Luck Banging or Loony Porn’, do romeno Radu Jude (Aferim, 2015) é o filme do segundo dia desta competição da 71ª Berlinale, pela sua mensagem, extrema originalidade é um alerta de como são hipócritas as nossas sociedades, cada vez mais conservadoras e moralistas. O tema central é forte e passa por uma enorme actualidade: o bullying sexual na internet, em tempos de pandemia. Na verdade muitos estudos apontam, que apesar de tudo e do confinamento, muitos casais vão aproveitando para se divertir na sua intimidade: tem havido um incremento nas vendas online de brinquedos sexuais. ‘Bad Luck Banging or Loony Porn’, começa de uma forma surpreendente, como se fosse precisamente um filme pornográfico caseiro e hard core: mostra um homem e uma mulher normais, fazendo sexo impulsivamente, usando máscaras e filmando ao mesmo tempo. Por um lapso, diz-se a dada altura, o vídeo tornou-se viral e a mulher da lingerie vermelha, é apesar da máscara, facilmente identificada nas redes sociais ou num site porno. O problema é que a mulher é uma professora casada (Katia Pascariu), que apesar de estar em casa com o marido, deveria numa visão conservadora, ser um modelo de virtudes, para os seus alunos e família. E além disso o filme passa-se em Bucareste, na Roménia, numa sociedade pós-socialista. Mas mesmo que não o fosse, é um facto que as nossas sociedades, estão cada vez mais influenciadas pelos discursos inflamados das redes sociais, cheios de falsos puritanismos, de ideias pseudo-politicamente corretas, chauvinismos hipócritas e grotescos, e muitas e disparatadas teorias de conspiração. Todo mundo tem uma opinião, sobre tudo e mais alguma coisa.

VÊ TRAILER DE ‘BAD LUCK BANGING OR LOONY PORN’

Em ‘Bad Luck Banging or Loony Porn’, depois do vídeo se ter tornado viral nas redes sociais (ou melhor num famoso site porno), o debate chega a uma prestigiada escola, onde a professora leciona, transformando-se, uma reunião de pais, numa espécie de tribunal, — os diálogos são maravilhosos e reconhecemos aqueles discursos e tendências — onde se debate e crítica (e até se mostra) pornografia, quando na verdade se tratava de um caso de sexo consensual; entre um casal até legalmente legitimado pelo casamento, e por isso não  deveria ter sido posta em causa a competência profissional da professora. Porém, ‘Bad Luck Banging or Loony Porn’, é um filme de um realizador que gosta de experimentar e inovar e não se fica apenas pela história da professora e dos seus moralistas concidadãos, que afinal de contas deixam as suas crianças viajar pela internet, mesmo em sites para adultos.

Bad Luck Banging or Loony Porn
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Radu Jude criou um filme em 3 capítulos, e com 3 finais (abertos) diferentes, num registo satírico e muito inteligente: a segunda parte é uma excêntrica sequência de imagens estáticas e filmes lacónicos — alguns até provavelmente retirados do youtube — que são uma espécie de enciclopédia, dos símbolos e ícones do nosso tempo. Na primeira parte, a câmara viaja despreocupadamente, com precisão e humor registando, as tensões, o pitoresco, as pessoas — os romenos são muito parecidos connosco e as imagens fizera-me, sentir quase em casa — da vida quotidiana, do último verão em plena pandemia, e com máscara e distância física, nas ruas de Bucareste, num autêntico bilhete postal. A primeira parte, em que nos é apresentada a personagem principal — que  aliás veste de uma forma muito formal e antiquada — mostra-nos uma das grandes tendências do cinema contemporâneo, que é de cada vez mais absorver essa ideia de que o documentário pode ser uma espécie interface com a ficção. ‘Bad Luck Banging or Loony Porn’ — embora fique em aberto — termina em grande estilo, na escola e na reunião de pais, onde é julgada (e votada), a permanência ou não da nossa heroína popular, que sabe defender-se e transforma-se numa espécie de ‘Mulher Maravilha’, criada por Radu Jude.

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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