74º Festival de Cannes (dia 9) | ‘Red Rocket’: O Pornógrafo

Depois de ‘Tangerina’, o realizador independente norte-americano Sean Baker continua a fazer as suas radiografias sobre as misérias da América, desta vez com ‘Red Rocket’, um filme em que o protagonista é um ex-actor pornográfico, em fuga de si próprio. 

Quatro anos depois de ‘The Florida Project’, apresentado na Quinzena dos Realizadores, Sean Baker regressa a Cannes com ‘Red Rocket’ e com mais uma nova história da miséria humana na América das classes mais baixas. Tudo começa com o regresso do ‘pendurado’  e bem parecido quarentão, Mikey (Simon Rex), a um subúrbio industrial de Texas City, com 22 dólares no bolso, e a firme intenção de poder ficar na degradada casa, onde sua mulher Lexi (Bree Elrod), que largou há tempo e sogra que sobrevivem da melhor maneira possível. Ela em princípio rejeita-o, mas acaba por o aceitar já que Mikey. promete arranjar um emprego e pagar sua parte das despesas da casa. Mas quando tenta encontrar potenciais empregadores, invariavelmente surge-lhe um problema: o seu currículo tem uma lacuna de cerca de dezessete anos, o que é obviamente muito, para regressar ao ‘mercado de trabalho’. Apesar dos apertos porque passou Mikey não cometeu nenhum crime, não saiu da prisão, e vê-se forçado a admitir que, como sua esposa Lexi, fizeram carreira em Los Angeles …na indústria dos filmes pornográfico. Seu nome artístico: Mikey Saber. A coisa não está fácil para ele, porque ironicamente tem currículo a mais para os empregos que procura. A única alternativa que lhe aparece é ser dealer de erva, produzida pelos vizinhos, aos trabalhadores das refinarias. Um dia, numa loja de donuts, Mikey cruza os seus olhos com os azuis de uma jovem bonita, ruiva e sardenta, chamada deliciosamente de Strawberry (Suzanna Son). Há falta de outras alternativas de futuro, a miúda sujeita-se a vender donuts recheados, a algumas milhas do local onde vive com a mãe. A partir daqui Mikey, traça um plano: seduzir a rapariga e torná-la numa estrela da pornografia, o que o colocará ele também de volta ao negócio. Isso é bom, a jovem não parece tímida e está disponível para novas experiências. Mikey parece  regressar igualmente ao seu insaciável vigor, mas aquele anos de trabalho ‘trabalho duro’, na sua especialidade, obrigam-no a a recorrer à pequena e mágica pílula azul (Viagra), durante suas as suas  brincadeiras, tanto com a mulher Lexi, como com a jovem Strawberry.

Red Rocket
Red Rocket/Festival de Cannes ©

Enfim Sean Baker, propõe-nos mais uma vez uma galeria desencantada de anti-heróis à deriva no controverso mundo americano. Ao contrário de ‘The Florida Project’, que era impulsionado por uma profunda tensão e por questões de estrutura, que estavam para além das estritas referência dos personagens, este ‘Red Rocket’, apesar de muito divertido, estimulante e luminoso, — sobretudo graças ao excelente trabalho dos actores, com destaque para os protagonistas — não sabemos muito bem o que Sean Baker nos quer dizer com este seu novo filme. Talvez apenas proporcionar-nos pura diversão e perto de duas horas bem passadas com aquele louco personagem, que faz da pornografia uma fuga para si próprio. Por trás dessa tal galeria desencantada de anti-heróis à deriva este ‘Red Rocket’ é um conto que carece de mais substância. Fica-nos talvez e só a perturbadora ideia da última cena: Strawberry, uma miúda que ainda não tem 18 anos, brilhante, ingénua em parte, com alguns atributos, mas com falta de alternativas profissionais e familiares onde vive, parece definitivamente caminhar para uma lenta descida aos infernos, da indústria pornográfica. Infelizmente, essa turbulência não é suficiente para tornar ‘Red Rocket’  interessante. É daqueles um filmes que vê-mos, gostamos, mas que rapidamente esquecemos.

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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