LA FRACTURE/Festival de Cannes ©

74º Festival de Cannes (Dia 9): A Fractura Francesa

A dupla fractura física e social e o sistema de saúde francês é retratado em ‘La Fracture’, o filme que a francesa Catherine Corsini apresentou em competição, uma história coral que se passa num hospital numa noite de especial violência, da polícia contra os ‘coletes amarelos’.

Valeria Bruni Tedeschi, Marina Fois, Pio Marmai ou Aissatou Diallo Sagna, uma enfermeira que faz sua estreia no cinema com, são alguns dos actores e das figuras que protagonizam La Fracture, de Catherine Corsini, um filme que se interessa mais pelo que conta, do que com a forma como conta. Trata-se de uma história baseada em factos reais e passada num momento de grande tensão em França, que parece só a pandemia veio, entretanto amenizar. De qualquer modo, em parte o que o filme conta, igualmente uma realidade que nós os portugueses também conhecemos muito bem, sobretudo durante os tempos da troika: os cortes financeiros, levaram a falhas e à escassez recursos dos sistema de saúde. Neste ‘La Fracture’ de Catherine Corsini, começa com Raf (Valéria Bruni Tedeschi) e Julie (Marina Foïs), que formam um casal do mesmo sexo, prestes a separarem-se depois de dez anos de vida em comum. Aparentemente depois do rompimento, elas são obrigadas a fazer uma aproximação que parece forçada pelas circunstâncias.

La Fracture
La Fracture/Fesyival de Cannes ©

A história do casal, acaba por funcionar como um pretexto, para fazer um retrato explosivo da ruptura das Urgências de um hospital parisiense, sufocado numa noite, após uma manifestação dos Coletes Amarelos, reprimida pela polícia de intervenção. É nesta situação, que as duas mulheres, uma delas com um braço fracturado (Tedeschi), se cruzam com Yann (Pio Marmaï), um camionista do norte de França, que é um dos ‘colete amarelo’, que está ferido numa perna e que furioso, vai tentar destruir as certezas e preconceitos de todos os utentes e funcionários do hospital, em relação à política em geral do Estado francês. Lá fora, nas ruas a tensão aumenta pela noite dentro. O hospital, fica sob pressão, e tem mesmo de fechar as suas portas. A equipa de serviço fica obviamente sobrecarregada, com tanto movimento. E noite vai ser obviamente longa e difícil para todos os que sofrem e os que têm sem grandes recursos, de rapidamente fazer face a esse sofrimento e fluxo de pessoas. Está criado assim, um cenário de grande tensão, e a ideia de Corsini parece ter sido a de denunciar, que o mundo de hoje cada vez mais ‘fracturado’: vamos deixar para nossos filhos um mundo de merda, podre, afirmou com uma certa veemência, a realizadora francesa na conferência de imprensa. Durante, os tumultos de 1 de dezembro de 2018 em Paris, curiosamente, Corsini nesse mesmo dia fracturou o cotovelo, quando ia jantar a casa de uns amigos, tal como acontece com a personagem de Bruni Tedeschi, no filme.

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La Fracture
La Fracture/Festival de Cannes©

Por isso a realização assente numa grande tensão observacional do que ela própria viveu, está numa câmera que se movimenta constantemente e consegue com grande destreza e realismo, dar-nos um retrato perfeito das Urgências nessa noite excepcional; além disso, consegue ligar as várias histórias pessoais dos protagonistas, com grande eficácia: a apatetada Raffaella (Bruni Tedeschi que se assemelha com outras figuras, interpretadas pela actriz franco-italiana) que apesar do drama tem muita graça, a decidida Julie (Marina Fois), ambas que se cruzam, com o agitado Yann (Pio Marmai), o colete amarelo ferido na manifestação; do outro lado está a tranquila Kim (Diallo Sagna), uma enfermeira dedicada que trabalha nesse hospital público, num estado desastroso, devido aos cortes económicos do governo de Macron. Diallo Sagna que é enfermeira na realidade, garantiu também que a sua interpretação no filme, corresponde à realidade que viveu e ainda vive: falta de material, um equipa escassa, pacientes agressivos, umas Urgências saturadas e com esperas intermináveis. Represento as enfermeiras da França e em todo o mundo, que já sofreram de problemas antes e cuja situação piorou devido à pandemia, frisou. Se pudesse, garantiu: Contaria a Macron (Emmanuel, o presidente francês). Ele conhece a situação, já visitou hospitais e sabe perfeitamente o que está a acontecer, e depois dessas visitas não houve quaisquer mudanças. Corsini, mostra também como na realidade os funcionários do hospital ora são extremamente atenciosos, ora muito desagradáveis com os pacientes e familiares, devido ao stress e à sobrecarga de trabalho.

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La Fracture
La Fracture/Festival de Cannes ©

Nada que nós já não tenhamos também experimentado. Na verdade sistema público de saúde francês constitucionalmente — como em Portugal — garante atendimento a todos, mas está em ruptura há anos, e continua com greves do pessoal de saúde a exigirem melhores condições de trabalho e melhores serviços prestados aos utentes. Durante a pandemia por essa Europa fora, os serviços de saúde nacionais, foram postos à prova.  Fomos para a janela aplaudir médicos e enfermeiros, mas crise e as condições de trabalho deles, continuam difíceis, aliadas aos baixos salários, que lhes pagam comparados com outras profissões. ’La Fracture’ é apesar da violência e da tensão permanentes, um filme tem também tem alguns momentos de humor, introduzidos de uma forma bastante realista e num diálogos bastante incisivos. Enfim, é um filme muito oportuno e mais um poderoso retrato da sociedade actual, que não vai passar decerto despercebido ao júri de Cannes 74. 

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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