75 Festival de Veneza (6) | ‘The Sisters Brothers’: Uma Verdadeira ‘Coboiada’

Em ‘The Sisters Brothers’, o realizador francês Jacques Audiard reconstrói na perfeição um drama passado no oeste americano, rodado na Roménia e no Sul de Espanha, e com dois curiosos pistoleiros: Joaquin Phoenix e John C. Reilly.

Este filme ‘The Sisters Brothers’, mais um da competição de Veneza 75, é baseado no romance do canadiano Patrick de Witt, dirigido pelo aventureiro francês Jacques Audiard, vencedor da Palma de Ouro com ‘Dheepan’, no Festival de Cannes 2015. Esta sua primeira incursão em inglês, sem ser uma obra-prima, é pelo menos uma delícia para os apreciadores do género western, já que é um filme agitado de uma maneira turbulenta e detalhado no estilo até ao mais ínfimo pormenor com uns diálogos absolutamente notáveis e hilariantes. Depois temos um excelente elenco, liderado por John C. Reilly como cabeça de cartaz, num dos melhores papeis da sua vida e que pode consagrá-lo  para além da sua já longa carreira de eterno secundário.

The Sisters Brothers

Assim como a maioria dos westerns, ‘The Sisters Brothers’ é mais um conto de busca e paciência que envolve uma longa jornada do Oregon às praias da Califórnia e a São Francisco, — uma Babilónia, numa referência de Eli — entre ameaças conhecidas e desconhecidas para os protagonistas. Há obviamente muito sangue, grandes reviravoltas, e as inevitáveis decisões do acaso, ousadias inesperadas ou momentos de sorte, como mandam as normas do género, mas que não tem trazido ultimamente grandes receitas de bilheteira aos produtores. No entanto, pode ser que com o peso do elenco e uma mais que provável nomeação aos Óscares, ‘The Sisters Brothers’, venha a surpreender também em termos de espectadores e box office.

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TRAILER | ‘THE SISTERS BROTHERS’ DE JACQUES AUDIARD

Como na maioria das ‘coboiadas’, a história é clássica e simples: um proprietário chamado The Commodor (Rutger Hauer, que aparece pouco) quer que um garimpeiro estrangeiro chamado Hermann Kermit Warm (Riz Ahmed) seja morto por o ter roubado. Para este fim, contrata os pistoleiros Eli e Charlie Sisters (Reilly e Joaquin Phoenix). Alertado para o perigo, Warm assume proteção de um detetive John Morris (Jake Gyllenhal), desencadeando-se daí para a frente uma caça ao homem por milhas e tempo indeterminada por terras selvagens e muitos incidentes, marcados ainda pela histórica corrida ao ouro na Califórnia.

The Sisters Brothers

O contraste do filme assenta não só na insana irmandade, mas igualmente na improvável relação que se vai estabelecer entre dois sujeitos educados: um garimpeiro do Médio Oriente (Ahmed), dentista de profissão,e o homem da lei interpretado por Gyllenhaal; e o baixo nível, áspero e grosseiro, dos irmãos Sisters,  que acaba num objectivo comum. Este objectivo faz com Eli, que já quer sopas e descanso, se proponha a abandonar o Commodore, pensando antes trabalhar por conta própria. Reilly tem um caráter mais expansivo fazendo de si próprio, um ‘pachola’  que vai recusando aos poucos essa vida violenta; Phoenix o irmão mais novo, fornece o parceiro ideal, imprevisível, disposto a tudo, menos assertivo; enquanto Gyllenhal e Ahmed são companheiros, mas talvez menos interessantes que os outros dois, embora igualmente decisivos no rumo da história. Plasticamente o filme é brilhante grande mérito para Audiard nas suas escolhas e perfeito ao pormenor, concebido aliás por uma equipa de luxo: o designer de produção Michel Barthelemy e a estilista Milena Canonero; a banda-sonora de Alexandre Desplat não tem o efeito dos grandes épicos do oeste, mas é perfeita para este filme um western spaghetti, sem vacas e sem índios.

José Vieira Mendes (em Veneza)

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colabora no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’, ( 2014). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’,(2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’, (2012) Mostras de Cinema da América Latina 2010 e 2011, 'Vamos fazer Rir a Europa', 2014 e Mostra de Cinema Dominicano, 2014 e Cine Atlântico, Terceira, Açores. É o Director de Programação do Cine’Eco- Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela desde 2012. É membro da FIPRESCI.

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