Peterloo

75º Festival de Veneza (4) | ‘Peterloo’: O Massacre de Manchester

O realizador britânico Mike Leigh regressou à competição de Veneza para contar o histórico massacre de Peterloo, pela mão do governo britânico, no século XIX.

Mike Leigh é um cineasta-autor que não renuncia às suas ideia políticas colocando o dedo nas feridas, e nos traumas da história do seu país, transportando-as na maioria das vezes para a sociedade contemporânea. É um realizador que tem o culto do público internacional mas agrada sobretudo aos cinéfilos e à crítica dos festivais de cinema que lhe reconhece uma obra coerente e exemplar: ganhou a Palma de Ouro de Cannes em 1996 com ‘Segredos e Mentiras’, em Veneza, e o Leão de Ouro em 2004 de Veneza com ‘O Segredo de Vera Drake’. Após a impecável biografia de ‘Turner’ (2014), o pintor pertencente ao movimento romântico, Leigh regressou com ‘Peterloo’ para refazer uma página dolorosa da história da Inglaterra, reconstruindo o infame massacre em Manchester, numa referência sarcástica à Batalha de Waterloo, onde o exército inglês apesar da vitória saiu completamente destroçado. A vitória final contra Napoleão deixou obviamente consequências negativas na Grã-Bretanha.

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TRAILER | ‘PETERLOO’ DE MIKE LEIGH

E como todas as guerras esta também ofereceu como legado, uma profunda crise económica, que afectou obviamente os mais pobres.  Em ‘Peterloo’ começa por mostrar que os conservadores na altura no governo foram incapazes de encontrar outras soluções, para além da repressão e das perseguições obsessivas contra a oposição. Em Manchester — onde estão praticamente as origens familiares de Mike Leigh e portanto ele conhece bem a história —, os activistas mais radicais organizaram uma manifestação a 16 de agosto de 1819 no Campo de São Pedro. Conseguiram reunir numa manifestação pacífica mais de 60 mil pessoas (entre homens, mulheres e crianças) para exigir uma reforma eleitoral e medidas urgentes contra a crise. O governo não encontrou melhor solução do que lançar contra os manifestantes a cavalaria, composta por alguns dos oficiais da Batalha de Waterloo.

O resultado foram onze mortos (ou mais, os historiadores dividem-se) e centenas de feridos, numa acção repressiva contra as reformas políticas, o direito de reunião, e a liberdade de imprensa, que acabou por dar origem ao nascimento histórico de um jornal de oposição que ainda hoje é considerado — apesar de estar agora só online — um bastião da livre opinião: The Guardian. No elenco coral de ‘Peterloo’, onde os heróis são pessoas comuns que falam com o sotaque do povo e vivem em ambientes pobres muito bem fotografados com a textura da pintura barroca, destaca-se Rory Kinnear, um colega de James Bond nos últimos três filmes da saga, mas aqui no papel de Henry Hunt, um brilhante orador e politico da oposição aos conservadores.

José Vieira Mendes (em Veneza)

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colabora no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’, ( 2014). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’,(2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’, (2012) Mostras de Cinema da América Latina 2010 e 2011, 'Vamos fazer Rir a Europa', 2014 e Mostra de Cinema Dominicano, 2014 e Cine Atlântico, Terceira, Açores. É o Director de Programação do Cine’Eco- Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela desde 2012. É membro da FIPRESCI.

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