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76º Festival de Veneza | Segredos de Família

A competição aproxima-se do fim com três filmes que nos transportam para universo dos segredos de família: ‘Gloria Mundi’, de Robert Guédiguian, ‘Saturday Fiction’, do cineasta chinês Lou Ye, com a diva Gong Li e ‘Babyteeth’, a primeira obra da australiana Shannon Murphy.

O realizador Robert Guédiguian e actriz Ariane Ascaride, o casal mais sólido do cinema francês, regressaram à competição de Veneza com ‘Gloria Mundi’, mais um filme de temática social, sobre a crise económica e como ela se abate sobre as famílias. Além da esposa, Guédiguian costuma escalar sempre o mesmo grupo de atores (Jean-Pierre Darroussin, Gérard Meylan, Robinson Stévenin) criando quase uma espécie de ‘artistas unidos’, do ponto de vista estético e intelectual e, ideologicamente de esquerda, algo que se reflecte nos seus filmes. ‘Gloria Mundi’, retorna às histórias simples onde estão em causa o rompimento dos laços familiares, (no novo proletariado) por causa de questões económicas: Daniel (Gérard Meylan), acabado de sair de uma longa pena de prisão regressa a Marselha (quase sempre o território do realizador).

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EXCERTOS DA APRESENTAÇÃO DE ‘GLORIA MUNDI’

A sua ex-esposa (Ariane Ascaride), com o novo marido (Jean-Pierre Darroussin) avisam-no entretanto por carta que ele foi avô, pois a filha de ambos, Mathilda (Anaïs Demoustier), deu à luz Gloria.

Gloria Mundi
Guédiguian escala os mesmos atores (Jean-Pierre Darroussin, Gérard Meylan, Robinson Stévenin). | © Agat Films & Cie

No entanto, Daniel logo descobre que a sua família está sobrecarregada com problemas financeiros: Mathilda é assistente de vendas à experiência numa loja de roupa, o marido Nicolas (Robinson Stévenin), motorista da Uber, é atacado por um grupo de motoristas de táxi. Nesse ponto, Daniel vai fazer tudo o que pode para ajudar os seus familiares e evitar a rotura. ‘Gloria Mundi’ mantém a opção estilística de Guédiguian em contar histórias simples do povo, das pessoas comuns e anónimas, com um extremo rigor e simplicidade e, sobretudo com grande amor às personagens.

Saturday Fiction
© United Entertainment Partners

A diva chinesa Gong Li, Melhor Actriz no Festival de Veneza de 1992, regressou em ‘Saturday Fiction’, do cineasta Lou Ye (‘Loves and Bruises’, 2011), a história de Qui Ju, um atriz-espia, numa Xangai a preto e branco, ainda sob protecção inglesa e pouco antes do ataque japonês a Pearl Harbor, na II Guerra Mundial. Jean Yu (Gong Li), é uma estrela de teatro que volta aos palcos, após uma longa ausência para ser a protagonista da comédia ‘Saturday Fiction’, dirigida por um ex-amante seu. No entanto, esse não é o seu único objetivo: além dos segredos do passado (um pai adotivo, que a acolheu quando era criança depois de ficar órfã), Yu faz espionagem para os serviços de inteligência norte-americana, no limite da invasão japonesa. Movendo-se num contexto ambíguo e traiçoeiro, Jean Yu tem de recorrer a todas as suas habilidades de astúcia e sedução, para reunir informações sobre os planos japoneses.

TRAILER DE ‘SATURDAY FICTION’

O destino da guerra está nas suas mãos. Um dos expoentes da chamada ‘geração rebelde’ de cineastas-autores chineses, não é a primeira vez que Lou Ye estiliza o género neo-noir (‘Suzhou River’, 2000, por exemplo) e se inspira em Alfred Hitchcock nos seus filmes. ‘Saturday Fiction’, um filme baseado no romance ‘The Woman Dressed in Dew de Ying Hong’ é um melodrama sentimental de grande atmosfera noir, sugerida pelo preto e branco, e pelo jogo contínuo entre a ficção e realidade, o teatro e a ilusão, com Gong Li num papel fantástico de uma mulher-de-armas e uma personagem inteligente que consegue ser maior que a vida.

TRAILER DE ‘BABYTEETH’

Em ‘Babyteeth’, uma primeira obra da australiana Shannon Murphy, — estreia-se no cinema, mas tem um percurso premiado no teatro e televisão —  os pais (Emily Barclay e Ben Mendhelsohn) começam por não aprovar o namorado (Toby Wallace) da sua filha adolescente (Eliza Scanlen). Parece uma história banal, no entanto, Milla é uma miúda de quinze anos que tem os dias contados, por causa de uma doença terminal. Quando se apaixona pelo jovem traficante de drogas Moses, a rapariga parece encarar com entusiasmo a vida e uma primeira experiência de amor, muito perto de enfrentar a morte. Com isso a tradicional moral burguesa deixa de importar e Milla mostra a todos, que não tem nada a perder. Existem vários filmes que contam histórias de adolescentes com desilusões amorosas ou patologias graves. O grande mérito deste ‘Babyteeth’, é que segue um caminho pouco convencional e experimental com a cineasta Shannon Murphy a derrubar os cânones dos filmes de adolescentes, quebrando a ficção narrativa através de títulos que formam quadros (quase teatrais), músicas e a percepção de um olhar e cores vivas, que parecem da banda desenhada ou novelas gráficas. ‘Babyteeth’ pode ser uma concentração de contradições: enquanto a vida explode, a jovem-protagonista dança num estranho abismo que a aproxima da morte, mas sempre num equilibrado registo entre o humor e a dor. O filme olha ainda para uma família disfuncional — o pai, um psicanalista viciado em morfina e a mãe, uma pianista frustrada — que está carregada de tensões e que ao mesmo tempo têm de viver o pior dos pesadelos.

JVM em Veneza

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

One thought on “76º Festival de Veneza | Segredos de Família

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