77º Festival de Veneza: ‘Listen’ duplo Prémio

Na secção Orizzonti do Festival de Veneza não há Leões. Contudo ‘Listen’, o filme da portuguesa Ana Rocha de Sousa ganhou o Leão do Futuro e o Prémio Especial do Júri desta secção, especialmente dedicada a primeiros filmes e novos valores. Uma brilhante dobradinha para o cinema português.

Na verdade é mais que certo que ‘Listen’, a primeira longa-metragem da realizadora portuguesa Ana Rocha de Sousa vá arrecadar um prémio oficial da secção Orizzonti de Veneza 77. O filme conta a história de uma família portuguesa de imigrantes no Reino Unido, com dificuldades financeiras que tem de lidar com os serviços sociais britânicos, que ameaçam retirar-lhe a custódia dos três filhos. Recorde-se que já ontem — e apesar de não serem prémios oficiais, isto é atribuídos por entidades fora da organização do festival  ‘Listen’ foi distinguido com o Prémio Bisato d’Oro para Melhor Realização por um júri da ‘critica independente’ e com o Prémio Sorriso Diverso Venezia, pela sua abordagem às questões sociais. Se estes prémios não são para já determinantes na carreira internacional do filme, — mais importante será a participação da produtora inglesa Pinball London, associada à Bando à Parte, de Rodrigo Areias — há a destacar a excelente recepção da crítica e as ovações na sessão oficial de estreia de ‘Listen, que teve direito aliás no final a uma interessante, sessão de perguntas e respostas onde participaram Ana Rocha de Sousa e Lucia Moniz.

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A acção de ‘Listen’ decorre num subúrbio de Londres, onde Bela (Lúcia Moniz) e Jota (Ruben Garcia), um casal de imigrantes portugueses com três filhos, luta para sobreviver. Ela faz a limpeza, e o marido fica sem salário porque tem um emprego ilegal. Quando ocorre um mal-entendido na escola com Lu, a filha surda, que apresenta estranhas marcas nas costas, os serviços sociais britânicos, ficam alerta no sentido de verificar as condições em que vivem as crianças. A família vive efectivamente com muitas dificuldades: têm pouca comida, não têm remédios para tratar uma febre normal do filho mais velho e também não conseguem arcar com a despesa de um novo aparelho auditivo para a pequena Lu. Quando os serviços sociais britânicos, se intrometem na vida desta família, que apesar das dificuldades se mantêm unida, a única solução parece ser separa-los, sem que seja feita uma avaliação completa de toda a situação.

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‘Listen’ descreve a batalha do casal (e das crianças também) que com a ajuda de uma advogada (a atriz britânica Sophia Myles) que trabalha como voluntária, contra instituições que, em vez de ajudá-los a melhorar sua condição, parece querer apenas destruir os seus laços familiares. O filme menciona ainda vários aspectos de denúncia efectivamente do sistema britânico, em que as crianças são retiradas às famílias levadas pelos serviços sociais para lares adotivos, algo que representa até mesmo um negócio para famílias de adopção, que recebem uma contribuição económica do Estado, com base no número de jovens e crianças que recebem em suas casas. A realizadora Ana Rocha de Sousa, opta assim por uma narrativa direta e simples — é certo de uma forma um tanto ligeira mas eficaz e solta —, a difícil questão do bem-estar de famílias pobres com filhos dependentes, pretendendo ainda sublinhar as enormes contradições inerentes às leis e à burocracia no Reino Unido, especialmente dos métodos avaliação das situações de risco, curiosamente mais dirigidas às comunidades de imigrantes europeus.

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Os aspectos jurídicos e burocrático não são obviamente explorados de uma forma exaustiva, para dar mais espaço ao drama familiar, na linha de um cinema de denúncia social  britânico — estou-me a lembrar dos filmes de Ken Loach — filmes que abordam os problemas das pessoas mais desfavorecidas e as profundas alterações no mundo do trabalho. ‘Listen’ vai estrear nas salas portuguesas, mas ao que parece só em 2021.

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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