EFA 2026 | O Cinema Europeu Está Vivo e Encontra-se Sábado em Berlim
Os EFA 2026 — Prémios do Cinema Europeu — entregam-se amanhã em Berlim. Enquanto Hollywood recicla fórmulas, a Europa continua a pensar, a arriscar e a incomodar, com “On Falling”, de Laura Carreira, entre os nomeados.
Amanhã, sábado, há EFA 2026 em Berlim, os “Óscares Do Cinema Europe”. Porém, os European Film Awards são para o cinema o que a discussão filosófica é para as redes sociais: uma tentativa séria de pensar o mundo enquanto o mundo e sobretudo o cinema de Hollywood se entretém com distrações e entretenimento. É também a prova anual de que existe um cinema mais adulto, energético e politicamente relevante deste lado do Atlântico, e que não costuma vir dos estúdios norte-americanos, embora muitas vezes acabe convertido em remakes americanos. Este ano, a 38.ª edição mudou-se para janeiro — antes era nos primeiros dias de dezembro do ano anterior — passo estratégico para entrar na temporada de prémios num alinhamento mais sério. E chega com transmissão online, às 17h de Lisboa, no site da Academia Europeia de Cinema, incluindo passadeira vermelha para quem quiser dar uma olhada ao glamour europeu antes da cerimónia principal. A lista de nomeações aos EFA 2026 é um catálogo político do continente: guerra, migrações, identidade, feridas pós-imperiais e fraturas democráticas. O cinema europeu existe para incomodar, não apenas para entreter e alimentar “conteúdos”. E, por isso, é imprescindível.
Laura Carreira Entre os Gigantes da Europa
No meio do ruído global e europeu, o cinema português aparece nestes EFA 2026 sem folclore nem paternalismo. Surge com o filme “On Falling”, de Laura Carreira, nomeado a European Discovery (a categoria de primeira obra, onde se identificam meteoros antes do impacto). Carreira filma os bastidores invisíveis da classe trabalhadora britânica: trabalhadores temporários, contratos frágeis, vidas à mercê do algoritmo logístico que decide quando se ganha e quando se come. Nada de cartões-postais, nada de cinema de vitrine, apenas vida real: dura, silenciosa, urgente. O filme já venceu dois BAFTA escoceses, prova de que o realismo social britânico também vem do Porto — donde é natural a jovem cineasta portuguesa — para a Escócia e está a ganhar nervo novo na Europa. Na mesma categoria estão Urška Djukić, Akinola Davies Jr., Mathias Broe, Murat Fıratoğlu e Mara Tamkovich, procurem que são, pois são gente que não filma moda, filma futuro. E é bom lembrar que a categoria Discovery costuma ser um farol: muitos dos grandes nomes europeus, que no início não nos diziam nada, passaram por ali quando ainda ninguém sabia pronunciar-lhes o apelido.
VÊ TRAILER DE “VALOR SENTIMENTAL”
Melhor Filme São Cinco Mundos Num Continente
Na categoria de Melhor Filme aos EFA 2026, a seleção parece ter sido montada por um comité formado por um diplomata, um historiador e um curador anarquista. No topo surge “Valor Sentimental” (Noruega), de Joachim Trier — com data de estreia prevista em Portugal para 29 de janeiro — favorito com cinco nomeações; é um estudo emocional sobre culpa, paternidade, criação artística e as ruínas do afeto. Ao centro está Stellan Skarsgård, nomeado a Melhor Actor, num papel que mistura gravidade moral com fragilidade doméstica. Logo depois, “Sirât” (Espanha/França), de Oliver Laxe, com quatro nomeações, uma investigação sobre a crise migratória, a identidade, a perda e a geografia moral, com um Sergi López nomeado a Melhor Actor e a interpretar um homem que já não consegue lidar com a própria humanidade. Segue-se “Foi Só Um Acidente” (França/Irão), de Jafar Panahi, filme em estado de resistência civil, impossível de separar da biografia do autor, sobre o perigo da arbitrariedade do Estado, filmado com ironia iraniana e financiamento francês. Depois, “Sound of Falling” (Alemanha), de Mascha Schilinski, cinema sensorial sobre transtorno, perceção e a vulnerabilidade do corpo, filmado como se cada plano pudesse partir-se ao toque. Finalmente, “The Voice of Hind Rajab” (Tunísia/Alemanha), de Kaouther Ben Hania, que cruza Berlim e Gaza com a naturalidade inquietante de quem sabe que infância e guerra não deviam partilhar o mesmo espaço, mas partilham. Resultado: um mapa geopolítico inteiro dentro de uma sala de cinema.
Interpretações Sem Capa e Sem Super-Poderes
Nas interpretações femininas, as nomeadas aos EFA 2026 são um verdadeiro pelotão de choque de talentos: Valeria Bruni-Tedeschi em “Duse”, num retrato feroz da atriz Eleonora Duse, que rejeitou o vedetismo para reinventar o teatro; Léa Drucker em “Case 137”, num thriller moral sobre abuso, poder e a dificuldade da verdade; Vicky Krieps em “Love Me Tender”, num novo capítulo da sua cruzada contra o patriarcado íntimo europeu; Leonie Benesch em “Late Shift”, uma simbiose entre coming-of-age e crónica laboral da noite alemã; e Renate Reinsve em “Valor Sentimental”, parceira habitual de Trier, num regresso ao terreno da dor, humor e lucidez. Do lado masculino, o alinhamento é igualmente musculado: Mads Mikkelsen em “The Last Viking”, uma saga histórica sobre identidade escandinava, gelo e honra; Stellan Skarsgård em “Valor Sentimental”, como patriarca fraturado entre criação artística e falência emocional; Toni Servillo em “La Grazia”, uma ironia napolitana sobre fé, superstição e decadência mediterrânica; Sergi López em “Sirât”, um animal ferido num mundo pós-moral; e Idan Weiss em “Case 137”, uma revelação que faz da contenção uma forma de violência. Nada disto precisa de capas, super-poderes ou city destruction porn. Basta estar ali, respirar, olhar e falar; o resto faz o cinema.
VÊ TRAILER DE “TARDES DE SOLIDÃO”
Documentários e Animação, a Europa Não Adormece
Nos documentários, enquanto Hollywood oferece por vezes “content”, a Europa e os filmes nomeados aos EFA 2026 mandam alertas. Albert Serra surge com “Tardes de Solidão”, um filme sobre touros, morte e tempo em regime de colapso sensorial; Kamal Aljafari com “With Hasan in Gaza”, que filma Gaza sem filtro, sem propaganda e sem conforto; e Olha Zhurba com “Ukraine, On the Edge”, onde o trauma é filmado enquanto o trauma ainda acontece. Na animação, a mesma insubordinação estética e narrativa: “Arco”, “Dog of God”, “Little Amelie”, “Olivia and the Invisible Earthquake” e “Tales from the Magic Garden” são a prova de que a Europa ainda ousa imaginar e que a palavra “artista” ainda não foi substituída por “content creator”.
Passem Pelos EFA em Berlim
Porque é que isto importa? Porque os EFA existem para lembrar que o cinema europeu diz; o cinema americano vende. E não há crime nisso: são funções diferentes. Mas quem quer perceber o que se passa no mundo tem de ter um olhar em Berlim, nos EFA 2026 para além de Hollywood. Este ano, vá-se lá saber porquê, também passa pelo cinema português. E isso — ou melhor, a nomeação de “On Falling”, de Laura Carreira — já ninguém nos tira.
JVM

