Rui Tendinha é um dos curadores dos Rio do Prado Screenings. ©José Vieira Mendes

Cinetendinha 2026 | A Gala Onde as Claquetes Batem Mais Forte que as Estatuetas

Enquanto Lisboa se leva demasiado a sério, Loulé e os Prémios Cinetendinha 2026 abrem portas, homenageiam Miguel Guilherme e metem o actor argentino Nahuel Pérez Biscayart a apanhar sol (ou chuva) com o Tendinha. A melhor prova de que o cinema português também sabe dar prémios sem grandes apoios públicos pelo meio. Só com iniciativa e cinefilia…

A sexta edição dos Prémios Cinetendinha integra a Algarve Film Week e resulta de uma votação que envolve cineastas, exibidores, programadores e críticos. A cerimónia realiza-se no Cineteatro Louletano no dia 25, a partir das 18h30, e pode ser vista no site do Sapo no domingo e no dia 31 em diferido, às 22h30, na SIC Radical. Este ano, além dos tributos a Miguel Guilherme e a Nahuel Pérez Biscayart, serão também homenageados Paulo Trancoso — quase uma espécie de Presidente Honorário da Academia Portuguesa de Cinema, que aliás merecia —, e a atriz Cleo Diára (“O Riso e a Faca”) receberá o Prémio Futura. Sónia Balacó e o guitarrista Ricardo Martim preparam uma performance cine-literária, enquanto os actores Soraia Chaves, Sílvia Rizzo e Joaquim de Almeida serão responsáveis pela entrega das claquetes dos Cinetendinha criadas pela Loulé Criativo, um projecto local da Camara Municipal de Loulé. Pela primeira vez, será ainda atribuído um prémio de cinema de animação. A radialista Inês Meneses apresentará ainda o documentário “Falem com Ela”, de Bruno Ferreira, sobre o programa-fenómeno da rádio portuguesa, e João Nuno Pinto mostrará as primeiras imagens do seu novo filme “18 Buracos para o Paraíso”. Mas vai haver mais surpresas, imagens e trailers, que antecipam as novidades sobre o cinema português que aí vem em 2026.

Pub
Cinetendinha
©Rui Pedro Tendinha/Divulgação

Há um dia em que as academias vão perceber

Há um dia em que a Academia de Artes Cinematográficas de Hollywood e a Academia Portuguesa de Cinema vão acordar com o barulho dos passarinhos, abrir as janelas da sua sede burocrática e perceber que a grande ameaça ao império dos Oscars e dos Sophia não se chama Netflix nem IA generativa: chama-se Tendinha. Rui Pedro Tendinha e os seus Prémios Cinetendinha. Um homem de cinema de Lisboa que, na pacata cidade de Loulé pelo menos agora em janeiro, fundou uma espécie de república independente dos prémios do cinema, os Cinetendinha com claquetes em vez de bustos, gala em vez de atas — e um espírito de “isto é cinema, mas também é festa, por isso relaxem” — que faz corar qualquer cerimónia oficial da indústria audiovisual nacional. Este ano, os Prémios Cinetendinha chegam à sexta edição e já não são um capricho televisivo do Tendinha e da SIC Radical: são uma instituição paralela, com academia, votantes, homenagens e tributos internacionais que fazem o resto do país perguntar: “Espera, o Nahuel Pérez Biscayart vem mesmo a Loulé?” Sim, vem pois. E não é por Zoom. É presencial, em carne e osso, como nos velhos tempos em que os actores ainda viajavam para promover filmes fora dos festivais.

On Falling
“On Falling” com Joana Santos é um dos favoritos a Melhor Filme. © Goodfellas

Os Cinetendinha como unidade de valor

A história começa quando percebemos que o Tendinha criou, quase sozinho, essa unidade básica do entusiasmo cinematográfico nacional: primeiro o Cinetendinha, o programa da SIC Radical e depois os prémios. Se um filme é “muito bom”, ganha um Sophia. Se é “mesmo fixe”, pode ganhar um Oscar, um César ou um Goya. Mas se tem pinta, ritmo, cena pós-créditos emocional e imagens do Tendinha de calções em reportagem no meio da rodagem, então merece logo estar no programa de televisão e receber um Prémio Cinetendinha. A ideia de entregar claquetes em vez de estatuetas é deliciosa e tem o apoio dos artesãos louletanos locais. O cineasta leva aquilo para casa e pensa: “Posso usá-la no filme, pô-la na estante ou pendurá-la na parede da cozinha enquanto corto cebola.” Nos Sophia, a estatueta apanha pó. No Cinetendinha, têm utilidade e há sempre a tentação de rodar um “Plano 1 – Cena 1 – Take 87” quando os miúdos não querem comer a sopa. Se isto parece pouco sério, ótimo: é mesmo esse o propósito. Dar brilho a uma cerimónia realizada no Cineteatro Louletano, à porta fechada, só para convidados, porque a plateia transforma-se em estúdio de televisão, mas acessível também a quem tem aquele contagiante entusiasmo cinéfilo do Tendinha, no streaming do Sapo ou na noite da SIC Radical.

Pub Ad Banner
O Riso e a Faca no Cineclube de Avanca
“O Riso e a Faca” com Cleo Diára a receber o Prémio Futura . © Terratreme Filmes / Uma Pedra no Sapato

Loulé como capital do cinema (por uma noite)

Loulé, que por estes dias de janeiro, normalmente tem menos turistas britânicos do que actores portugueses, descobre que o cinema também pode ser um verdadeiro destino turístico. O Cineteatro Louletano transforma-se no Dolby Theatre algarvio: sem escadaria nem passadeira vermelha, mas com uma plateia de convidados que sabe bater palmas, quando é preciso, sem que os premiados expliquem o final do filme, nem esperem pela chegada do Fernando Alvim, que normalmente chega sempre atrasado e que acho que este ano não vai. A integração na Algarve Film Week dos Cinetendinha, dá obviamente o ar internacional que todos os eventos procuram. Uns vão buscar programadores a Londres, outros vão buscar financiamentos ao ICA, e o Tendinha vai buscar sol e temperatura amena algarvia. A meteorologia como estratégia cultural é algo que o Ministério da Cultura (Desporto e Juventude, tudo ao mesmo tempo, não parece prático, mas….é o que temos) devia estudar, preservar ou pelo menos criar um ‘grupo de trabalho’. Mesmo com previsões instáveis para amanha sábado, dia 24, em todo o país, a chuva não molha cinéfilos. E até podem correr para a porta do Cineteatro Louletano para tirarem umas selfies ou fotos com as nossas estrelas nacionais. Levem é um impermeável, um guarda-chuva e claro o telemóvel porque já ninguém usa máquinas fotográficas.

Lê Também:
EFA 2026 | O Cinema Europeu Está Vivo e Encontra-se Sábado em Berlim
Cinetendinha
Miguel Guilherme é uma grande figura do cinema, teatro e televisão vai ser homenageado. ©Filipe Figueiredo

Miguel Guilherme, o homem que merece todos os prémios

Este ano, nos Cinetendinha a grande homenagem vai para o grande Miguel Guilherme. Actor de culto, que já fez de tudo do teatro ao cinema à televisão: professor universitário, marido neurótico, ladrão melancólico, protagonista de cinema de autor. Para os Cinetendinha não é uma “promessa” mas uma “consagração”: é Miguel Guilherme, ponto final, o resto é conversa. Enquanto nos Sophia ainda se tenta provar que somos uma indústria “à séria” — e veja-se as nomeações aos Oscars e parece que temos alguma coisa a aprender com os brasileiros —, nos Cinetendinha celebra-se o prazer simples de ver actores bons a fazerem coisas boas, ali a comer um rissol ou um croquete e a beber um copo de vinho tinto no foyer do Cineteatro, como pessoas comuns, antes de começar a gala.

Pub

 

30º EFA
Nahuel Pérez Biscayart em  ‘120 Pulsações por Minuto’, mais um dos homenageados. ©Midas Filmes/Divulgação

Nahuel Pérez Biscayart: a prova de que os Cintendinha são internacionais

Depois há Nahuel Pérez Biscayart, o jovem actor argentino radicado em França, que incendiou com o filme “120 Batimentos por Minuto” e brilhou a montar em o “Matar o Jóquei”, um filme exibido aliás em antestreia na Algarve Film Week. Aqui nos Cinetendinha não há cá vídeos de agradecimento gravados num quarto de hotel ou na biblioteca desarrumada lá de casa. O actor aparece e faz um discurso sem música para o mandar calar. E até talvez vá a Olhão comer um peixe ou ver o pôr do sol em Vilamoura. Isto é que é internacionalização real e séria: menos protocolos, mais presença, mais peixinho fresco na grelha regado com um branco Lagoa.

Lavagante
“Lavagante” mais um dos filmes do ano e forte candidato. ©Leopardo Filmes

A Academia Cinetendinha: um milagre democrático

Os prémios Cinetendinha são votados por uma ‘academia’, tão académica tanto quanto possível, da qual quem vos escreve também faz parte. E funciona. Sem relatórios, sem auditorias, sem bloqueios por falta de quórum. Críticos, actores, realizadores, produtores, programadores e amigos do Tendinha votam em consciência, pelo WhatsApp ou por email. As categorias são claras. Sem confusões. Sem guerras internas. Nada que enganar, sem “colinho”, sem VAR nem nada, sem desempates por grandes penalidades. E este ano e agora a sério, há grande cinema português à altura dos prémios e o suspense é grande para quem será o prémio de Melhor Filme:On Falling”, “O Riso e a Faca”, “Lavagante”, “A Memória do Cheiro das Coisas” e Banzo”. Filmes feitos com muito talento, suor e alguma ansiedade financeira, como manda a tradição nacional. Mas lá estarão orgulhosamente como candidatos aos prémios Cinetendinha.

Pub
Cinetendinha
José Martins, que venceu o prémio de Melhor Ator em Xangai e forte candidato também em Loulé. ©PNGPictures

O humor como arma cultural

Se os Prémio Sophia do cinema português representam o lado institucional, os Cinetendinha representam o lado existencial: cinema como vício, conversa, festa e copos. Ninguém ali tenta salvar o sector em modo SOS ou fornece apoios financeiros. Estão a celebrá-lo. Com magia, com boa-vontade, com gosto e prazer pelo cinema e com humor profundamente português. Portanto, os Sophia e os Oscars que se cuidem. Se daqui a uns anos alguém anunciar pelo menos os “Prémios Sophia Tendinha”, ninguém estranhará. Portugal adora juntar nomes e o Rui Pedro Tendinha é já quase uma instituição cinematográfica. O que importa é isto: o cinema precisa de múltiplos centros, múltiplas vozes e múltiplas festas. Um prémio isola. Três ou mais fazem, entre outras coisas, crescer o cinema português.

Lê Também:
EFA 2026 | O Cinema Europeu Está Vivo e Encontra-se Sábado em Berlim
Cinetendinha
Paulo Trancoso, uma homenagem merecida nos Cinetendinha. ©Academia Portuguesa de Cinema/Divulgação

E o futuro dos Cinetendinha?

Qualquer dia Loulé vai criar mesmo o Ministério do Cinema de Calções, para oficializar ainda mais os Cinetendinha e com um lema bem a propósito: “Quem quiser que venha, quem não quiser que se streaming.” Mas depois, malta da indústria audiovisual nacional, jornalistas, distribuidores e exibidores, não se queixem, porque não sabem o que estão a perder em não estarem presentes. Porque para ver cinema é nas salas e para receberem um Cinetendinha em Loulé também. Para já, em 2026, fica esse alinhamento e presenças que prometem uma grande cerimónia, — salvo as devidas diferenças — à altura de Hollywood: Miguel Guilherme e Paulo Trancoso homenageados, Nahuel Pérez Biscayart a sorrir, claquetes distribuídas, convidados de pé a aplaudir, cinema português celebrado, e o Tendinha no palco, todo contente, a provar que não é preciso aval do Estado para fazer uma gala de prémios com sentido e significado. Basta o Manuel Baptista e a sua embaixada de boa vontade em Loulé, dar uma ajudinha. Há melhor maneira de viver uma noite ou um final de tarde chuvosos de Janeiro? Impossível.

Pub

JVM


About The Author


Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *