"Hamnet" | © Focus Features

Hamnet, a Crítica

Jessie Buckley ‘arde em cena’ em “Hamnet” numa elegia belíssima e excessiva sobre luto, amor e a ideia tentadora — talvez um pouco simplista — de que a famosa peça “Hamlet” nasceu de uma ferida familiar e privada do dramaturgo William Shakespeare.

Aviso já: “Hamnet”, de Chloé Zhao, é daqueles filmes que o espectador mais sensível tem de fazer uma preparação psicológica, antes de o ver: “olhe, que vai chorar”. Depois de “Nomadland — Sobreviver na América” e do parêntesis industrial de “Eternals”, para a Disney, Zhao regressa ao território que melhor domina: pessoas feridas, paisagens como espelho da alma, silêncios carregados de significado e a convicção quase espiritual de que a natureza pode ser um refúgio para tudo, até para a morte de um filho. Baseado no romance de Maggie O’Farrell, o filme parte de um facto simples e brutal: Hamnet Shakespeare morreu aos 11 anos, em 1596. A partir daí constrói uma hipótese emocional irresistível e se Hamlet fosse, afinal, um luto escrito com tinta e sangue? Zhao transforma esta ideia num “Shakespeare em luto”, desmontando o génio intocável e aproximando-o daquilo que todos conhecemos: a impotência perante a perda.

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hamnet tiff critica
“Hamnet” | © Focus Features

Stratford, Londres e a Distância Que Mata

O filme leva-nos à Inglaterra do século XVI e apresenta um Shakespeare (Paul Mescal) ainda longe do pedestal: tutor de latim pobre, inquieto, preso a Stratford como quem está preso a um destino pequeno. Do outro lado está Agnes, interpretada por Jessie Buckley: curandeira, mulher ligada à terra, estranha para a aldeia, luminosa para o filme. Apaixonam-se, casam, têm filhos. Ele parte para Londres. Ela fica. Mas aqui a casa não é apenas cenário doméstico. É o espaço onde se acumulam frustrações, ausências e responsabilidades. Agnes fica com a vida real. Will fica com o sonho. E quando a tragédia chega, a distância deixa de ser geográfica: torna-se emocional, moral, quase metafísica.

Jessie Buckley: Uma Mãe em Combustão

“Hamnet” é, acima de tudo, um filme sobre a mãe. Buckley não interpreta Agnes: incorpora-a. Habita-a. Destrói-se com ela. A sua performance é animal, crua, feroz. O luto não surge como pose dramática, mas como fenómeno físico: gritos, silêncio, raiva, colapso. Não há “boa educação emocional”. Há dor sem filtro. É uma daquelas interpretações que deixam de ser “trabalho de actriz” para se tornarem experiência. E é por isso que Buckley sustém o filme inteiro. Emily Watson, como a mãe de Will, acrescenta densidade social e dureza moral, mas o coração do filme pertence sempre a Buckley.

Paul Mescal: O Génio que Falha em Casa

Em “Hamnet”, Mescal faz um Shakespeare contido, humano, imperfeito. Não é um herói romântico nem um génio iluminado. É um homem ausente, culpado, emocionalmente incompetente perante a tragédia. A sua interpretação funciona por contenção. Nunca compete com Buckley. Nunca tenta roubar a narrativa. Percebe que aqui Shakespeare é quase um satélite emocional em torno da órbita de Agnes. E isso é mostra de uma grande maturidade artística.

Beleza, Natureza e o Perigo do Preciosismo

Zhao continua fiel ao seu cinema sensorial: vento, árvores, luz, água, respiração. A fotografia de Łukasz Żal é belíssima, táctil, orgânica. A música de Max Richter envolve tudo numa névoa emocional constante. “Hamnet” às vezes é poesia. Outras vezes é anestesia. O problema de “Hamnet” não é falta de beleza. É excesso dela. Há momentos em que o filme parece demasiado consciente da sua importância, demasiado “prestígio”, demasiado desenhado para nos fazer cair emocionalmente no sítio certo. Quando o cinema sabe demasiado bem o efeito que produz, corre o risco de parecer manipulador, mesmo quando é sincero.

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Hamnet com Paul Mescal
Paul Mescal em Shakespeare. © Focus Features

Hamlet Como Terapia: Uma Ideia Bonita… Demais?

O ponto mais delicado de “Hamnet” é a sua tese central: Hamlet como acto terapêutico. A dor vira teatro. O luto vira literatura. A perda vira imortalidade. É bonito. É comovente. Mas é redutor. Hamlet é política, ironia, filosofia, contradição, ambiguidade. Reduzi-lo a “obra escrita para sarar” é cinematográfico, limpinho, emocionalmente funcional e talvez demasiado simples para uma obra infinitamente complexa. Zhao não está a escrever uma tese académica. Está a fazer cinema. E o cinema tem direito à hipótese poética. Mas isso não a torna indiscutível.

O Final: Chorar em Público Sem Vergonha

E depois vem o final de “Hamnet”. E o final é um murro no estômago. Zhao monta os últimos minutos com uma eficácia quase indecente. É impossível não chorar. Mesmo os resistentes. Mesmo os cínicos. Mesmo os desconfiados. Pode haver excesso. Pode haver sentimentalismo. Pode haver “preciosidade”. Mas a catarse é real. Física. Inevitável. E às vezes o cinema serve exactamente para isto: permitir-nos chorar em conjunto por dores que nunca resolvemos.

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Hamnet — Crítica
  • José Vieira Mendes - 75

Conclusão:

  • “Hamnet”, de Chloé Zhao é um filme grande, imperfeito mas necessário. Hamnet não é uma obra-prima perfeita. É um filme ambicioso, emocionalmente honesto, por vezes desequilibrado, ocasionalmente demasiado “arranjado” para a lágrima, mas sustentado por uma interpretação monumental de Jessie Buckley. Paul Mescal confirma a sua enorme maturidade como actor mesmo secundarizando-se no seu papel de Shakespeare. Chloé Zhao prova que sabe regressar ao íntimo sem cinismo e com humanidade.
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75
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Pros

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  • O melhor: lembrar-nos que a arte pode nascer da pior dor.

Cons

  • O pior: é querer, às vezes, explicar demasiado essa transformação.

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