Deus, Género e Família e Sandra Hüller de Calças | Berlinale 2026 (Dia 5)
Entre aldeias turcas a ferro e fogo, vilas alemãs em preto e branco e apartamentos húmidos de Singapura, o quinto dia da Competição provou que as questões de identidade continuam a ser um dos nervos expostos da Berlinale. E que “Rose”, com Sandra Hüller a interpretar uma mulher que vive como homem, foi talvez o filme que mais marcou o programa do dia.
Há dias na Berlinale em que saímos das salas com a sensação de que o mundo é uma grande aldeia e não no sentido simpático da globalização. Uma aldeia onde a terra é disputada à paulada, por vezes com violência brutal e perseguição de minorias (“Salvation”) justificada pela religião ou por ideologias; onde o género pode ser uma sentença de morte (“Rose”); e onde pai e filho mal se entendem à mesa da cozinha (“We Are All Strangers”), algo que aliás é bem oriental. Os filmes de hoje formam um tríptico sobre poder, pertença e sobrevivência. E no centro desse furacão esteve “Rose”, do realizador austríaco Markus Schleinzer, com uma Sandra Hüller em estado de contenção fervilhante, sempre à beira de ser desmascarada.
“Rose”: o corpo como território
Realizado por Markus Schleinzer (“Angelo”), “Rose” é um filme a preto e branco que parece talhado em pedra. Estamos na Alemanha do século XVII, no rescaldo da Guerra dos Trinta Anos: uma terra devastada, populações dizimadas, fé exacerbada e medo entranhado nas paredes de madeira das casas das quintas agrícolas, a maioria delas abandonadas. Hüller interpreta uma mulher que vive há anos disfarçada de homem, personagem inspirada numa história verídica. Surge numa aldeia protestante isolada e reclama uma quinta abandonada, apresentando-se como o filho perdido do antigo proprietário. Trabalha, cala-se, reza. E mente. Mente todos os dias com o corpo inteiro. Casa-se com a filha de um agricultor (Caro Braun) e constrói uma vida assente numa identidade que pode ruir a qualquer momento. O filme é seco, quase ascético: poucos diálogos, muitos silêncios, olhares que pesam mais do que sermões. Schleinzer não faz apenas um drama de época; constrói um estudo sobre o género enquanto performance imposta pela necessidade de sobreviver, um tema que continua inquietantemente e bastante actual. Hüller, que muitos ainda associam a “Anatomia de Uma Queda” ou “A Zona de Interesse”, regressa aqui ao território que consolidou a sua carreira: o cinema europeu exigente, físico, desconfortável. Para compor a personagem, usou torso comprimido, prótese peniana e várias camadas de roupa. Disse que finalmente percebeu “porque os homens andam como andam”. Não é uma frase ligeira: o corpo de facto altera a postura, e a postura altera a relação com o poder. “Rose” fala de identidade, mas também de intimidade, da possibilidade de encontro verdadeiro quando se arriscam as máscaras que o mundo impõe. Não é um manifesto, nem um panfleto. É um filme humano, sensível e incómodo. E por isso mesmo bastante perturbador.
“Salvation”: fé, terra e ressentimento
Se “Rose” é o corpo como território, “Kurtuluş” (“Salvation”), do turco Emin Alper (“Dias de Chamas”), é a terra como maldição. Numa aldeia montanhosa da Turquia, o regresso de um clã exilado reacende uma antiga disputa de terras, ligada ao conflito em torno dos direitos da minoria curda. Mesut, interpretado por Caner Cindoruk, começa a ter visões que interpreta como sinais divinos. A fé transforma-se em arma política, a rivalidade em confronto aberto. O que era tensão latente torna-se inevitável aos poucos em violência justificada pela tradição e em nome de Deus. Alper mantém a sua assinatura de cineasta de dramas provincianos onde o Estado surge como sombra opressiva e as tradições pesam como rochas. A encenação é contida, recusando maniqueísmos fáceis, ninguém é totalmente culpado, ninguém é inocente. São homens divididos entre lealdades familiares e responsabilidades colectivas. “Salvation” pergunta se ainda há redenção possível quando a memória da terra está envenenada. A resposta permanece em suspenso.

“We Are All Strangers”: crescer também é político
O terceiro vértice do dia veio de Singapura. “We Are All Strangers”, de Anthony Chen, é o primeiro filme singapuriano a competir pelo Urso de Ouro. O realizador encerra aqui a trilogia “Growing Up”, iniciada com “Ilo Ilo” e continuada com “Wet Season”. Acompanhamos Junyang, 21 anos, à deriva entre a juventude prolongada e uma idade adulta que chega sem aviso. O pai tenta manter a casa e a dignidade; uma nova mulher entra na sua vida; o equilíbrio entre pai e filho começa a vacilar. É um filme longo, intimista e emocionalmente generoso. Chen filma Singapura com ternura, mas sem romantizar as desigualdades de classe ou as falhas afectivas. Num festival conhecido pelo seu pendor político, este é um gesto mais silencioso, mas não menos político. Falar de família, responsabilidade e amor imperfeito é também falar de estrutura social. Curiosamente, os três filmes partilham um eixo comum: a comunidade como espaço de pressão. Na aldeia alemã, o género é vigiado; na aldeia turca, a fé é instrumentalizada; no apartamento singapuriano, o amor é testado pela fragilidade emocional. Se a Berlinale sempre foi um festival atento às fracturas do mundo, o programa de hoje confirmou-o. Mas foi “Rose” que deixou a marca mais profunda. Talvez porque, no meio de tanta geopolítica, nos lembrou que o primeiro território disputado é sempre o corpo. E que vestir calças pode ser, também, um acto de sublevação.
JVM

