© Neli Kentta

Falar da Ucrânia na Eurovisão é falar de um dos países mais consistentes, ousados e bem sucedidos da história recente do festival. Apesar de só se ter estreado em 2003, a Ucrânia demorou pouco tempo a afirmar-se como verdadeira potência eurovisiva. Apenas um ano depois da estreia já conquistava o troféu e, desde então, transformou-se numa presença quase sempre relevante, onde acumulava pontos e finais, como mais nenhum país em competição.

A responsável pela primeira vitória ucraniana na Eurovisão foi Ruslana, com “Wild Dances”, numa atuação arrebatadora que recuperava a energia tribal, mas totalmente envolvida em ritmos modernos. É uma canção completamente distinta das vencedoras até a esse momento e a diferença valeu-lhe os aplausos da Europa, onde alcançou uns surpreendentes 280 pontos (recorde até então). O caminho estava aberto para que a Ucrânia recebesse, pela primeira vez, o concurso no ano seguinte.

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A organização da Eurovisão em Kiev em 2006 representou muito mais do que um evento musical, foi a oportunidade para a crescente projeção internacional do país e teve impacto económico relevante, com investimento municipal significativo de 70 milhões de hryvnia e uma forte dinamização local. Estávamos, aliás, perante, um vencedor pertinente da zona este da Europa, cuja independência tinha sido conquistada apenas a 24 de agosto de 1991 e, um evento cultural deste calibre, só reforçava a continua expansão do festival para áreas do antigo bloco soviético.

Em 2016, na Suécia, a Eurovisão voltou a sorrir à Ucrânia. Pouco tempo depois da anexação da Crimeia pela Rússia, a canção apresentada em palco trouxe para o centro do debate uma forte dimensão histórica, confirmando também um dos resultados mais expressivos da história recente do país, com um total de 534 pontos. Jamala apresentou “1944”, uma interpretação profundamente emotiva e inspirada na deportação dos tártaros da Crimeia. Mais do que uma canção, foi um apelo à memória, à dignidade e à paz. Ainda hoje, esta vitória é considerada uma das mais marcantes do século XXI no festival e, no ano seguinte, foi também em Kiev que Portugal conquistou, pela primeira vez, o troféu da Eurovisão.

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Em 2022 chegou uma nova vitória para a Ucrânia, desta vez com a Kalush Orchestra e a canção “Stefania”, estávamos em Turim, na Itália. A canção misturava rap contemporâneo com os instrumentos e melodias tradicionais da Ucrânia e a atuação seria um símbolo não só da identidade cultural, como de resistência. O público europeu não ficou indiferente à presença da Ucrânia, que poucos meses antes tinha sido invadida pela Rússia, e respondeu com carinho de forma massiva, atribuindo ao país o terceiro triunfo da sua história.

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No entanto, devido à guerra em curso, a Ucrânia não pôde organizar a edição seguinte. Assim, a Eurovisão de 2023 realizou-se em Liverpool, no Reino Unido, em nome da Ucrânia. Ainda assim, a cultura ucraniana esteve presente em toda a produção, nos interval acts, na cenografia e no espírito da competição, criando um dos momentos mais emocionantes da Eurovisão de que há memória e reforçando aquele que é (ou deveria ser) o seu pilar máximo: a solidariedade entre povos e a mensagem de paz. Desde então, não faltaram momentos para a Ucrânia brilhar e hoje volta a subir ao palco com uma canção de encantar, com muita serenidade e esperança, naquela que consideramos ser uma verdadeira jóia rara desta edição.

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Quem representa a Ucrânia na Eurovisão 2026?

É precisamente aqui que queríamos chegar. Estivemos à conversa com LELÉKA, nome artístico de Viktoriia Leleka, cantora, compositora e intérprete ucraniana, além de fundadora do projeto musical com o mesmo nome criado em Berlim, em 2016. Vencedora do Vidbir 2026, a seleção nacional que define o representante da Ucrânia na Eurovisão, LELÉKA leva ao palco de Viena uma canção que já está a captar a atenção do público pela sua sensibilidade e pela forma como cruza a emoção e a identidade cultural.

A música, “Ridnym”, destaca-se por um ambiente sonoro orgânico e uma escrita poética muito marcada. O título pode ser entendido como “para os meus queridos” ou “para os mais próximos”, reforçando o seu carácter íntimo e profundamente pessoal. Musicalmente, a canção cruza elementos do indie folk contemporâneo com camadas eletrónicas subtis, construindo uma progressão que começa de forma delicada e evolui para um refrão mais amplo e emocional, sustentado por harmonias vocais e imagens simbólicas inspiradas na natureza. Em comparação com algumas das propostas mais experimentais da Ucrânia na Eurovisão nos últimos anos, “Ridnym” assume-se como uma canção mais intimista, sem colocar de lado o impacto emocional.

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Relativamente à artista, o seu nome artístico significa “cegonha”, uma ave migratória que regressa sempre a casa, símbolo que reflete também o percurso pessoal de LÉLEKA. Nascida em 1990, em Shakhtarske, na região de Dnipropetrovsk, cresceu num ambiente industrial ligado à mineração, experiência que marcou a sua sensibilidade artística e a sua forma de olhar o mundo. Antes de se mudar para a Alemanha, em 2014, estudou representação em Kiev. Mais tarde aprofundou a formação musical em Dresden, onde estudou jazz vocal, concluiu um mestrado em composição jazz e prosseguiu os seus estudos de composição para cinema em Potsdam. Paralelamente, desenvolveu trabalho como compositora para audiovisual, assinando algumas bandas sonoras, como a da série dramática ucraniana There Will Be People. Em Berlim criou um quarteto multicultural que junta músicos de várias nacionalidades e cruza o folclore ucraniano com o jazz contemporâneo, um projeto que nasceu de concertos solidários em apoio a voluntários ucranianos e que acabou por conquistar reconhecimento internacional, incluindo a vitória no Burghausen Young Jazz Prize em 2018 e uma nomeação para Banda do Ano nos prémios de jazz alemães.

Ao longo do seu percurso, LELÉKA lançou vários álbuns, atuou em palcos por toda a Europa e explorou novas linguagens musicais através do seu projeto paralelo DONBA₴GRL, dedicado a sonoridades eletrónicas e industriais. Em 2025 colaborou ainda com o compositor italiano Stefano Lentini no EP cinematográfico Anima Mundi. Em 2026 venceu o Vidbir, com a pontuação máxima do júri e do público. A canção “Ridnym” reflete um processo de transformação interior e a descoberta de força em momentos difíceis, juntando a profundidade emocional, exploração vocal e o som da bandura, o instrumento tradicional ucraniano que reforça a ligação entre a tradição e a modernidade na identidade artística da intérprete. Conhecemos um pouco mais sobre esta artista na entrevista abaixo.

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Eurovisão 2026
LÉLEKA para a Eurovisão 2026

MHD: Podes contar-nos como esta canção nasceu e o que inspirou a sua mensagem?

Os primeiros esboços desta canção surgiram em 2022. Nessa altura, enquanto atravessava o meu próprio período de transformação interior, nasceram as primeiras harmonias. Primeiro, delineei a dramaturgia da canção no meu caderno, sob a forma de esboços, e só depois comecei a trabalhar na demo. Voltei a ela apenas algumas semanas antes do Vidbir nacional, quando faltava pouco tempo para o prazo de submissão. Foi nesse momento que percebi que os significados contidos nesta canção ainda ressoavam em mim com a mesma força. Por isso, terminei-a e submeti-a ao concurso.

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MHD: Esta proposta está profundamente ligada à cultura ucraniana. O que significa para ti representar esse património num palco global?

Há mais de 10 anos que promovo a cultura ucraniana na Europa. O repertório dos meus dois projetos — Leléka e DONBASGRL — é escrito em ucraniano. Por isso, significa muito para mim apresentar a beleza da nossa cultura num palco tão importante. É uma grande honra, mas ao mesmo tempo uma grande responsabilidade. E estou profundamente grata por esta oportunidade a todos os que me deram o seu voto.

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MHD: A Ucrânia tem uma história extraordinária na Eurovisão, desde a vitória de Ruslana em 2004 com “Wild Dances”, à vitória de Jamala em 2016 com “1944”, e ao triunfo dos Kalush Orchestra em 2022 com “Stefania”, bem como um registo perfeito de qualificações para a final desde a estreia em 2003. Fazer parte deste legado acrescenta pressão, inspiração ou ambas?

A minha primeira memória da Eurovisão está ligada à vitória da Ruslana. Foi uma sensação de euforia, um profundo orgulho pelo nosso povo e pelo nosso património cultural. Claro que fazer parte deste legado cria um certo nível de expectativa enquanto artista. Mas acredito verdadeiramente na nossa equipa e tenho a certeza de que vamos representar o nosso país com total dignidade palco em Viena.

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MHD: Com a tua formação em jazz e composição para cinema, muitos fãs dizem que esta canção parece cinematográfica, quase como se pudesse pertencer a um filme da Disney. Como reages a esse tipo de comentário?

Continuo a dizer a toda a gente que não sou uma princesa (risos). Mas, claro, as melodias harmónicas da minha canção têm mesmo essa qualidade de conto de fadas. Ao mesmo tempo, acrescentámos muita energia ao refrão e combinámos essa delicadeza com uma intensidade marcante. Na verdade, esta canção é a fusão dos meus dois projetos num só. E estou muito feliz por termos conseguido que tudo funcionasse de forma tão natural.

MHD: A canção inclui um momento vocal longo e impressionante. Como te preparaste técnica e emocionalmente para isso?

A chave para o vocalise — é assim que esta parte da canção se chama — é na verdade muito simples: sono saudável, alimentação adequada, hidratação, prática vocal diária e exercícios de respiração. Aliás, muitas vezes improviso com a minha banda em palco num único fôlego, por isso não é algo que tenha surgido apenas para um “efeito wow”. É o resultado de anos a desenvolver esta técnica e experiência.

MHD: Lembras-te do momento exato no processo criativo em que percebeste que esta canção tinha algo especial?

Como já referi, esta canção não foi escrita especificamente para o concurso. Simplesmente desenvolvemos uma demo que tinha criado originalmente em 2022. Todas as minhas criações musicais são especiais à sua maneira. Enquanto trabalhava na versão final da canção, o meu cão Sonko esteve sempre comigo no estúdio — e sempre que ele começava a abanar a cauda, eu sabia: “é isto”. O que realmente me emociona é quando as pessoas cantam partes da canção, criam conteúdos inspirados nela ou escrevem mensagens emocionais. Esse é o verdadeiro poder da arte, tocar as cordas invisíveis da alma.

MHD: A tua música mistura frequentemente tradição com som moderno. Como encontras o equilíbrio entre o passado/tradição e o futuro/inovação?

Gosto muito de interpretar a frase do compositor austríaco Gustav Mahler de que “a tradição não é a adoração das cinzas, mas a preservação do fogo”. E esta mensagem está no centro de todo o meu trabalho artístico. Para mim, é extremamente valioso combinar tradição com modernidade, porque isso permite reinterpretar o património que herdámos e dar-lhe novas dimensões sonoras, tornando-o mais visível e acessível a um público mais amplo.

MHD: A tua canção já está a ser vista por muitos ouvintes como uma mensagem de esperança e cura emocional. Em países como Portugal, onde desafios de saúde mental como ansiedade e depressão são sentidos por várias comunidades, que papel esperas que a tua música possa ter ao oferecer conforto ou ligação a quem atravessa momentos difíceis?

A esperança é algo de que todos precisamos hoje em dia. Nestes tempos sombrios, é tão importante nutrirmos essa luz interior dentro de nós. Por isso, sinto uma vontade muito forte de levar essa luz às pessoas, de as inspirar e elevar. Acredito verdadeiramente que a música tem uma natureza curativa e possui esse poder único de unir as pessoas.

MHD: O que podemos esperar ver no palco da Eurovisão?

Preparamos com muito cuidado a nossa atuação no palco da Eurovisão. Temos uma equipa maravilhosa — muito progressiva e altamente criativa. Desde o início, o meu realizador e eu tivemos uma total sinergia criativa. Sentimos profundamente todas as camadas da canção e, juntos, encontrámos soluções visuais para enfatizar essas emoções. No palco, irão ver muito tecido a simbolizar a fragmentação e a quebra do mundo. Também teremos uma bandura que passa por uma transformação juntamente comigo e com a própria canção.

MHD: Podes revelar mais sobre os teus projetos futuros?

Antes de mais, quero descansar — estou a planear uma viagem às montanhas ucranianas. Preciso de algum tempo sozinha comigo própria: para recarregar energia, recuperar forças e reconectar-me com os meus recursos internos. Um dos meus próximos planos é gravar um projeto musical especial no Blackbird Studio, em Berlim. Vamos trabalhar numa versão da lendária poesia de Maya Angelou “I’ll Rise”, que se tornou conhecida nos anos 90 através da interpretação de Ben Harper. Ao mesmo tempo, estou a preparar a filmagem de um novo videoclipe para uma canção do meu projeto a solo DONBASGRL.


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